Os juros, a inflação e o desemprego entram num bar… Guia para perceber a evolução das taxas dos créditos

8 fev, 07:00
Taxas de juro

Porque estão a subir as taxas de juro? Porque é que estão elas relacionadas com a inflação e com o desemprego? E de que taxas falamos quando falamos de juros? Preparámos este artigo para perceber melhor o que pode acontecer nos mercados financeiros – e no seu bolso

Os mercados financeiros começaram a antecipar uma subida dos juros, o que pode interromper um período histórico de taxas muito baixas e mesmo negativas. Qualquer alteração tem consequências nos custos financeiros suportados pelas famílias nos seus créditos à habitação ou pessoais, pelas empresas que ainda estão a lidar com o fim das moratórias, e com os Estados nas suas dívidas públicas, o que tem reflexos nos impostos cobrados aos contribuintes. Lendo informação económica dos últimos dias, há ligações feitas com a inflação ou com os níveis de emprego. Mas porquê? Este artigo explica.

1. Que tipos de taxas existem? O efeito dominó

Comecemos por aqui: taxas há muitas.

Numa escala de importância, as taxas diretoras definidas pelo BCE surgem no topo e têm capacidade de influenciar todas as outras. Estas são as taxas que o BCE cobra aos bancos comerciais para lhes emprestar dinheiro. Em 2016, muito antes da pandemia, o BCE colocou esta taxa nos 0%, para injetar liquidez nas economias e promover o crescimento económico (com taxas baixas, torna-se mais barato pedir crédito para consumir e para investir, que são causas de crescimento do PIB). E de lá não saiu. Uma alteração nesta taxa teria um efeito dominó em toda a economia.

Seguem-se as taxas de juro da dívida pública, que os países pagam nos mercados primário e secundário. Quando um país emite dívida por exemplo através de Obrigações ou Títulos do Tesouro, e a vende junto investidores institucionais (que assim estão a financiar o Estado em causa), esse país está a colocar dívida no mercado primário.

Por exemplo, em novembro de 2021 – na mais recente emissão de dívida pública portuguesa, estando agendada a primeira de 2022 para esta quarta feira – Portugal pagou uma taxa de 0,314% para emitir 686 milhões de euros em títulos em obrigações a dez anos. Isto é uma operação no mercado primário. Aqui, os juros são definidos num equilíbrio entre a taxa que os países estão dispostos a pagar e a taxa que quem investe está disposto a receber.

Estes títulos de dívida são depois negociados no mercado secundário, ou seja, os investidores compram e vendem estes títulos entre si, sendo o custo da transação (a taxa de juro, que é rendibilidade para quem investe) definidos pelo fluxo entre a oferta e a procura, como se de outro ativo se tratasse. Quando, por exemplo, em 2011 Portugal estava fixado nas taxas de juro e o ministro das Finanças então disse que acima de uma taxa de 7% a dez anos seria provavelmente necessário pedir um resgate (como veio a acontecer), todos os dias os jornais olhavam para as taxas nos mercados internacionais: as do mercado secundário.

Por fim, as taxas de referência, sendo a Euribor a taxa mais comum em Portugal. De forma simplificada, esta é a taxa média a que os bancos comerciais emprestam dinheiro uns aos outros. E é a taxa usada mais usada para o cálculo dos créditos à habitação, acrescida de um “spread”, uma margem de “lucro” para o banco. No caso de uma política monetária mais expansionista, estas taxas tendem a baixar. Se o objetivo for apertar o cinto – para, por exemplo, conter a inflação – as Euribor tendem a subir. Por exemplo, o mercado de futuros indica que a Euribor a três meses, atualmente em valores negativos, irá subir para os 0,06% no final deste ano, o que nesse caso terá impacto nos juros que paga pelo crédito à habitação.

2. Porque já estão a subir as taxas de juro?

Com a economia a recuperar força e a inflação a galopar, o Banco Central Europeu deixa de ter argumentos para manter os estímulos recorde que criou para dar resposta à atual crise.

O maior de todos esses apoios chama-se PEPP (Pandemic Emergency Purchase Programme) programa de compras de ativos de emergência para a pandemia. Na prática, o BCE compra ativos, injetando liquidez na economia e “competindo” com preços de dívida mais baixos. O PEPP foi criado em março de 2020 com uma capacidade de 1,85 biliões de euros (1.850.000.000.000 euros) e vai esgotar-se já em março deste ano. Durante este período, o programa foi capaz de “varrer” grande parte da dívida que era emitida pelos países – e até empresas – para recuperar da crise, tornando a autoridade bancária o maior credor na Zona Euro.  O BCE já disse que este programa será compensado pelo programa regular de compra de dívida, mas a intenção será sempre diminuir gradualmente estes estímulos financeiros.

Com o prazo de validade desta bengala a terminar, os investidores começaram a exigir taxas de juro mais elevadas para comprarem dívidas – acautelando qualquer possível dificuldade para serem ressarcidos no futuro. Esta postura fez com que os juros da dívida dos países da região subissem.

Por outro lado, os investidores tendem a antecipar as subidas de taxas de juro do BCE e, agora, que já está criada essa expetativa, as taxas acompanham-na.

3. Qual a relação entre os juros e a inflação?

A inflação na Zona Euro tem vindo a galopar para máximos históricos e, em janeiro deste ano fixou-se nos 5,1%, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. A inflação tem subido sobretudo por causa da escassez de matérias-primas e pela quebra das cadeias logísticas causadas pela pandemia, bem como pela subida dos preços da energia.

A inflação tem uma relação estreita com as taxas de juro. Quando os juros estão em níveis tão baixos e os bancos centrais estão muito ativos a comprar dívida, há maior liquidez, logo uma maior propensão a consumir e, por conseguinte, há mais procura. Havendo mais procura, pode criar-se um desequilíbrio entre a quantidade de bens e serviços procurados e os que são oferecidos, fazendo os preços subir.

4. Os juros, a inflação e o desemprego entram num bar

Como percebemos na pergunta anterior, há uma correlação entre os juros e a inflação, também porque os bancos centrais tendem a subir taxas de juro para conter a inflação (retirando liquidez da economia). Mas como é que estes dois conceitos podem ainda andar de mãos dadas com o desemprego?

A resposta é dada pela chamada Curva de Phillips, conceito económico desenvolvido pelo economista neozelandês William Phillips, que estabelece a relação de que quanto maior for a taxa de desemprego, menor será a taxa de inflação, e vice-versa. De forma simplificada, eis porquê: se o desemprego é alto, as empresas pagam salários mais baixos para contratar, e os cidadãos, que assim têm rendimentos menores, ficam com menor capacidade para comprar bens e serviços, logo os seus preços tendem a baixar. Inversamente, esta é uma das razões que tem sido apontada nos últimos meses nos EUA, onde a taxa de desemprego caiu a pique para os 3,9% em dezembro de 2021 – acompanhada de um aumento de salários: dois fatores que têm servido, também, de trampolim para a inflação. Por cá, apesar de o número de desempregados ser baixo, não se verifica um aumento dos salários expressivo, pelo que também por isso o crescimento da inflação é menor do que noutros países. 

Economia

Mais Economia

Patrocinados