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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

O bode expiatório é Trump, mas o erro é do BCE

18 jun, 12:57

O Banco Central Europeu e o Banco Popular da China assinaram esta semana um memorando que muitos já classificam como um recado indireto à Casa Branca. O BCE, ao mesmo tempo, anunciou a oitava descida consecutiva das taxas de juro em apenas um ano, justificando esta política como uma resposta necessária à guerra comercial e tarifária de Donald Trump. Na verdade, Trump parece ser agora o conveniente bode expiatório de um erro profundo de política monetária aplicado na Zona Euro.

O BCE viveu nos últimos anos uma espécie de montanha-russa. Entre subidas agressivas das taxas de juro (dez em quinze meses) e agora descidas aceleradas, assiste-se a uma tentativa quase desesperada de corrigir o que foi mal calculado. A verdade é que a política de subida rápida das taxas arrefeceu a economia mais do que o esperado e não teve o impacto desejado na inflação. Os efeitos das decisões monetárias, como se sabe, não são imediatos. Surgem com um desfasamento de 12 a 18 meses.

Hoje, o cenário é de uma inflação prevista de apenas 1,6% em 2026, bem abaixo do objetivo dos 2%. Um número que, em vez de apontar para a estabilidade, sugere arrefecimento económico e condições para o aumento do desemprego. O curioso é que nem a incerteza gerada pelas tarifas e imprevisibilidade de Trump foi suficiente para contrariar o enviesamento recessivo que o próprio BCE ajudou a criar, tal foi o tamanho da imprudência levada a cabo pela instituição liderada por Christine Lagarde. Agora, o contexto externo tornou-se o álibi perfeito para justificar decisões que, no fundo, são para remediar os próprios erros.

Enquanto isso, a zona euro enfrenta um crescimento económico previsto de apenas 0,9% este ano e uns anémicos 1,1% em 2026. As empresas e consumidores estão a pagar a fatura de uma política que demorou a ajustar-se e que agora procura, à pressa, travar o impacto da sua própria ação. Em paralelo, vão ressurgindo vozes como Mário Centeno, que já antes alertavam para os riscos de uma política excessivamente contracionista, e que hoje defendem taxas abaixo do nível neutral para estimular a economia.

O BCE deveria ser escrutinado com o mesmo rigor que impõe às economias dos Estados-membros. O caso recente mostra como a obsessão com metas pode desviar instituições do bom senso e da prudência. Espera-se que a lição sirva para o futuro. Porque, quando o erro é do BCE, culpar Trump é demasiado fácil.

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