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"Não há como fugir" a uma "situação grave": a guerra estalou e podemos começar a preparar-nos para ver a prestação da casa aumentar

20 mar, 07:00
Banco Central Europeu (EPA)
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A cada dia que passa o cenário é mais negro. Para já há uma base, mas também há um quadro "adverso" e outro "severo" que podem assustar os mercados

Já se esperava que o Banco Central Europeu (BCE) apresentasse a sua visão de tudo o que está a acontecer no Médio Oriente e o temor inundava os mercados. Com razão, aparentemente, já que as projeções de crescimento económico e da inflação na Zona Euro para os próximos dois anos não são nada animadoras, sobretudo se olharmos para aquilo a que Frankfurt chama de cenários "adverso" e, pior ainda, "severo".

Ao contrário do que é comum, o BCE optou por incluir nas estimativas os dados das primeiras semanas de março, que já refletem o impacto do conflito no Irão. Face ao apresentado, há duas opções em cima da mesa: ou a guerra termina rapidamente ou é muito provável que venham aí aumentos das taxas de juro.

O economista e presidente do IMF - Informação de Mercados Financeiros, Filipe Garcia, refere à CNN Portugal que esta subida das prestações dos créditos "não é inevitável", mas é o cenário com maior hipótese probabilística de ocorrer.

"Não consigo ser hiper pessimista, mas confesso que não há como fugir. É uma situação grave, é uma escassez que poderá estar aí durante bastante tempo", explica o especialista.

Os mercados também já reagiram ao anúncio de Christine Lagarde e às projeções do regulador europeu. Filipe Garcia recorda que havia a probabilidade de haver uma subida até julho e outra até dezembro e, agora, a probabilidade de mais subidas aumentou.

O BCE atualizou a previsão de crescimento económico da Zona Euro, anteriormente de 1,2%, para 0,9%. A queda pode ainda ser mais abrupta, já que a estimativa prevê 0,6% num cenário adverso e 0,4% num cenário severo. 

O regulador europeu explica que o "cenário adverso" incorpora os "efeitos indiretos e de segunda ordem mais fortes do que a projeção de referência" e pressupõe "um aumento muito mais acentuado nos preços da energia, bem como um aumento na incerteza e nos efeitos adversos internacionais". Isto acontece se, no segundo trimestre deste ano, o barril de petróleo estiver nos 119 dólares e o gás custar 87 euros por megawwat à hora. Esses valores eram, esta quinta-feira, 107 dólares por barril e 60 euros por megawatt à hora, sensivelmente o dobro do verificado no último dia antes da guerra, sendo que o Brent já andou a bater nos 120 dólares.

Por sua vez, o "cenário severo" antecipa "um choque de preços da energia mais forte e persistente, maior incerteza e efeitos indiretos e de segunda ordem ainda mais acentuados". Acontecerá caso o segundo trimestre chegue com o petróleo a custar 145 dólares por barril e o gás 106 euros por megawatt à hora por hora.

Crescimento e inflação na Zona Euro
Variação anual (%)
PIB real
AnoDez 2025BaseAdversoSeveroAtualizado
20251,41,51,51,51,5
20261,20,90,60,41,0
20271,41,31,20,91,4
20281,41,41,61,91,5
Inflação (IHPC)
AnoDez 2025BaseAdversoSeveroAtualizado
20252,12,12,12,12,1
20261,92,63,54,42,3
20271,82,02,14,81,9
20282,02,11,62,82,0
Inflação sem energia e alimentação
AnoDez 2025BaseAdversoSeveroAtualizado
20252,42,42,42,42,4
20262,22,32,42,62,2
20271,92,22,73,92,0
20282,02,12,12,92,1

Os valores do PIB referem-se a médias anuais ajustadas sazonalmente. Os dados podem ser revistos após a data de fecho das projeções.

Quanto à inflação, o BCE antecipa agora que a previsão de 2,2% aumente para 2,6%. No cenário adverso passará para 3,5% e no pior das hipóteses atingirá os 4,4%. O problema pode ainda agudizar-se em 2027, ano em que, no pior dos cenários, a inflação pode atingir os 4,8%, bem acima do valor de referência, que Frankfurt gosta de ver nos 2%

O BCE disponibiliza ainda previsões em que não contabiliza as subidas de preço na energia nem na alimentação, com este índice a aumentar de 2,2% para 2,3% no cenário base, significando que o fenómeno da subida de preços se deverá alastrar ao resto do mercado.

"Se num prazo curto tivermos resolução do conflito, pode não ser necessário", aponta Filipe Garcia, alertando, no entanto, que a "verdade é que há mais probabilidade" de um aumento das taxas de juro. "Porquê? Porque não há perspetivas, neste momento, de que a guerra termine no curto prazo, em primeiro lugar. E, em segundo lugar, aquilo que poderia ser só mesmo uma questão temporária, nomeadamente o bloqueio do Estreito de Ormuz, começa a ser algo mais grave a partir do momento em que há bombardeamento de instalações", explica, um dia depois de a maior central de gás natural do mundo ter sido danificada.

Filipe Garcia recorda que a crescente dimensão dos ataques de parte a parte e a diversificação de alvos às instalações ligadas ao mercado petrolífero e da exportação de gás natural significam que "mesmo que acabe a guerra começam a haver constrangimentos na oferta", porque estas instalações "terão de ser reparadas" e "essa parte da oferta estará fora do mercado durante mais tempo".

"Cada dia que passa e, sobretudo, cada instalação que é atingida, aumenta a probabilidade de isto durar mais e a probabilidade de termos juros mais altos", explica.

Aumentos das taxas de juro podem "não resolver rigorosamente nada"

Filipe Garcia garante que, no seu entendimento, há ainda outro preocupante contratempo nesta crise: "A subida das taxas de juro, por si só, não me parece que vá resolver rigorosamente nada". O especialista em mercados e Economia detalha que o cenário económico europeu atual está a ser provocado por "choque exógeno", externo à Economia da Europa e que nada tem a ver com uma dinâmica económica. Dito isto, o economista alerta que "arrefecer a economia através de taxa de juros não vai trazer grande alívio".

"Neste caso, é curioso, mas parece-me que os governos têm mais instrumentos do que o BCE", diz, justificando que "os governos, com inegável sacrifício das contas públicas, podem fazer baixar a carga fiscal sobre a energia ou sobre determinados bens cujos preços venham a subir de uma forma mais acentuada e, dessa maneira, mitigar os efeitos da inflação".

O especialista utiliza o caso português como exemplo: "Portugal baixou o ISP, mas o que vai buscar com esta subida do preço em termos de IVA compensa a descida do ISP. Agora, deixa de ser neutral, se houver uma descida mais acentuada do ISP, do IVA ou dos dois. O ISP equivale 6,3% da receita fiscal, o que representa mais ou menos 1,6% do PIB. Portanto, se cortar 10% do ISP, aumento o défice entre 0,1 e 0,2 pontos percentuais ou diminuo o superávit".

"Isto para dizer que mexe o ponteiro. Ou seja, é um imposto com importância nas contas. Portanto, se a política fiscal quiser ir por aí, vai. Mas vai deteriorar as contas públicas. Mas tem mais impacto, têm mais instrumentos os governos do que o BCE", resume Filipe Garcia.

O economista defende que este tipo de instrumentos de controlo de preços "são mais eficazes do que subir a taxa de juros numa altura em que façam surge um fator exógeno". "O BCE aqui não tem muitos instrumentos, porque a economia está a andar para trás. O que é que vai fazer? Facilitar crédito, pronto, mas isso é meter mais achas na fogueira. Fazer o contrário, subir taxas e diminuir a liquidez disponível. O que é que eu vou fazer? Vou dar a cabo das empresas, do emprego e do crédito", explica. "O BCE está numa posição muito desconfortável", remata.

Em tom de fecho, Filipe Garcia deixa um último ponto que pode determinar a decisão, porque o "BCE não pode ser acusado de nada fazer para obstar à subida dos preços" como aconteceu em 2022 face à inflação provocada pela invasão da Ucrânia. "Foram criticados por terem demorado, acredito que desta vez não demorem muito a fazê-lo", culmina.

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