“Subida das taxas de juro terá um efeito positivo na rentabilidade dos bancos”

27 mai, 09:06

Banca europeia não tem problemas com a russos e vai até começar por melhorar a rentabilidade com a subida dos juros. A questão está na desvalorização dos ativos e nos riscos de clientes deixarem de pagar créditos, com o pico do custo do crédito. Se a inflação cair, como se prevê, tudo normalizará. A não ser que haja uma recessão. Entrevista exclusiva à CNN Portugal do líder da supervisão do Banco Central Europeu.

Andrea Enria, presidente da comissão de supervisão do Banco Central Europeu, garante que os bancos europeus estão sólidos e que até resistiram melhor à pandemia do que se esperava no início. O mesmo se aplica aos bancos portugueses, que estão expostos aos mesmos riscos dos europeus: é preciso reduzir a inflação e garantir que não há recessão europeia, o que o BCE não prevê que venha acontecer.

Numa altura em que o BCE prepara os primeiros testes de stress climáticos de sempre – para medir o risco da banca europeia a clientes de atividades afastadas da sustentabilidade ambiental -, Enria esteve em Lisboa, onde recebeu a CNN Portugal no Banco de Portugal para uma entrevista exclusiva. “Os bancos estão prontos para absorver o impacto” do crescimento mais lento da economia, sublinha.

Os bancos europeus estão suficientemente sólidos para enfrentar os desafios atuais?
Eles embateram no recente choque numa posição de força. Quando fomos atingidos pela pandemia em 2020, ficámos muito preocupados. Era uma recessão muito grave, contávamos com um maior agravamento da qualidade dos ativos, mas em contrapartida o que aconteceu, em parte graças às enormes medidas de apoio disponibilizadas pelos Governos e pela União Europeia, mas também pelo BCE, no âmbito da política monetária, devo admitir que a pandemia suscitou menos preocupações do que estávamos à espera.

A posição de capital saiu reforçada, a qualidade dos ativos melhorou, a posição de liquidez é muito forte e a rentabilidade no fim do ano foi muito positiva. E...

 

… e depois veio a guerra.
Exatamente. Houve ainda um impulso muito positivo para os investidores nos bancos europeus, mas veio a guerra, e isso levou os mercados a reverem a sua posição nos bancos europeus.

Nas primeiras semanas de guerra, centrámos a nossa atenção na exposição direta dos nossos bancos a entidades homólogas na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Concluímos que a exposição direta não representava um problema, é gerível. Mesmo que se reduza para zero toda a exposição dos bancos europeus aos seus homólogos russos, isso não representaria um grande problema para os bancos.

O verdadeiro problema serão os efeitos indiretos em termos de abrandamento do crescimento na Zona Euro, choque energético, preços de energia, preços de bens essenciais... Agora centramos a nossa atenção no risco de crédito, na transição do setor de serviços - mais afetado pela pandemia - e do setor de energias intensivas - mais afetado pela guerra - para o setor imobiliário residencial, que é afetado pelo expectável aumento da taxa de juro. Mas os bancos estão prontos para absorver o impacto nomeadamente pelo crescimento lento da economia e pelos aspetos que referiu.

 

Não haverá problemas em relação a isso?
Em suma, como disse, [os bancos europeus] arrancaram numa posição de maior força: posição de capital mais forte, posição de liquidez mais forte, melhor qualidade dos ativos... Realizámos um grande esforço nos últimos anos para reforçar a gestão de risco de crédito dos bancos. Escrevemos cartas a todos, colocando maior pressão para melhorar os processos de gestão de risco. Eles consideram que estão numa posição mais confortável.

Mas, obviamente, tudo dependerá do cenário macroeconómico com o qual serão confrontados. Julgo que se estivermos num cenário de crescimento reduzido – comparativamente às expectativas anteriores - mas ainda assim um crescimento positivo, um pico de inflação que seria reabsorvido, regressando ao objetivo dos 2%, no próximo ano, por exemplo, esse tipo de cenário que, ainda assim, é um cenário de partida nas projeções da CE, por exemplo, acho que seria provavelmente absorvido sem grandes problemas. Se entrarmos num cenário de recessão, ou se tivermos um pico acentuado, mesmo abaixo do esperado, nas taxas de juro, então as previsões serão de um cenário mais difícil para os bancos europeus.

 

E em relação ao sistema bancário português em particular, há sinais de alerta?
Nos últimos anos, os bancos portugueses convergiram consideravelmente para a média europeia. Temos assistido a uma melhoria da qualidade dos ativos. Está um bocado elevada, mas próxima da média europeia; a posição de capital também está toda alinhada com a média europeia; a rentabilidade, também mais ou menos, um pouco mais baixa mas no mesmo quadrante. Isso significa que têm os mesmos problemas que outros bancos europeus têm. Portanto devem reconstruir a rentabilidade, reforçar a regulamentação, preparar-se para realizar gestão de risco perante os potenciais desafios que poderemos enfrentar.

 

Já falou duas vezes na gestão de risco, na gestão de risco de crédito. Falou na inflação. O Sr. Enria, pessoalmente, não decide sobre taxas de juro, que voltaram à baila por causa da inflação. Que impactos terão para a banca? Podemos contar com um aumento inicial dos lucros, seguidos de um crescimento dos créditos de risco?
Tem razão. De certa forma, digamos, o primeiro impacto de uma subida das taxas de juro, da saída de uma política de taxas de juro negativas, deveria ser um efeito positivo na margem de dos bancos, ou seja, rentabilidade. O outro efeito seria, por outro lado, um efeito negativo na valorização dos retornos fixos nos títulos que tenham em carteira. O terceiro efeito, em particular se a subida das taxas de juros for acompanhada por um crescimento mais tímido, os devedores terão mais dificuldades em pagar os empréstimos, o que se reflete na qualidade dos ativos dos bancos.

Fizemos algumas simulações internamente, e a expectativa é que se nos mantivermos no cenário atual, que apresentei antes - um abrandamento do crescimento, mas mantendo crescimento positivo em 2022 e 2023, e o pico da inflação deste ano sendo reabsorvido -,  creio que os bancos europeus continuarão positivos em termos líquidos de rentabilidade. Contudo, como referi, se entrarmos, pelo contrário, numa curva descendente ou até mesmo em recessão, a qualidade dos ativos dos bancos poderá ser predominante.

 

Propõe testes de stress climáticos [à banca], que nunca foram feitos antes. O que podemos esperar?

Dissemos claramente que os testes de stress climáticos que vamos realizar este ano é um processo de aprendizagem. Quando lançámos a simulação, os bancos queixaram-se de que não tinham dados suficientes para realizar a simulação. A questão é exatamente essa. O risco existe. Temos visto a ocorrência, com mais regularidade, de cheias, incêndios florestais... E vemos precisamente, neste momento, um choque energético por causa da guerra e a eventual necessidade de uma transição mais acentuada do que o esperado para nível zero, em direção a políticas energéticas sustentáveis. Isto significa que os bancos têm de ser capazes de medir e gerir estes riscos de forma proativa. Esse o principal objetivo dos testes de stress climáticos. Se não tiverem dados, terão de desenvolver alternativas para avaliar esses riscos, e terão de começar a interagir com os clientes para obterem os dados necessários.

O risco existe. A incapacidade de medi-lo e geri-lo é um problema, o que deve ser avaliado. Esse é o objetivo global do exercício. Não temos por alvo exigências de capitais, em resultado de testes de stress, mas prevemos uma avaliação das falhas na capacidade dos bancos para medir e gerir o risco, tanto os riscos físicos, como os riscos de transição.

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