Veneza está farta de multidões e tenta uma nova tática para as afastar

CNN , Julia Buckley
25 abr, 15:00
Veneza. Sebastian Kahnert/picture-alliance/dpa/AP

Taxa de entrada na cidade italiana para quem entra apenas um dia poderá ir até aos 10 euros e vai arrancar em janeiro de 2023

Como grande símbolo do excesso de turismo, Veneza tem sido, desde há muito, uma cidade com cada vez mais filas, aglomerados desconfortáveis e um imenso amontado de Airbnbs, que são apontados como culpados por expulsarem os residentes da cidade.

Há muito que as autoridades procuram uma forma de controlar a situação e, com a recente ameaça da UNESCO de retirar o seu estatuto de Património Mundial, a urgência é ainda maior.

A solução proposta? Ser a primeira cidade do mundo a exigir uma taxa de entrada, com a criação de um sistema de reservas para visitantes de um dia, e a entrada na cidade é apenas permitida a quem tem reservas. O plano foi anunciado antes da pandemia, e posteriormente adiado, uma vez que a cidade foi muito afetada pela escassez de turistas.

Agora, o presidente da Câmara da cidade anunciou que os visitantes podem fazer reservas a partir deste verão, com uma taxa de entrada a partir de janeiro de 2023.

Depois de um sufocante fim de semana de Páscoa – em que 120 mil turistas inundaram a cidade de 50 mil habitantes, no sábado, segundo a polícia local, com os números a subirem para 158 mil no domingo, segundo os dados da Smart Control Room – o presidente da Câmara, Luigi Brugnaro, anunciou que o sistema de reservas ia avançar.

O sistema de reservas "é o caminho certo a tomar, para uma gestão mais equilibrada do turismo", escreveu no Twitter.

"Seremos os primeiros do mundo nesta experiência difícil."

O vereador responsável pelo turismo, Simone Venturini, disse à RAI, a rede pública de televisão, que, dentro de semanas, a cidade vai lançar um portal "muito simples e rápido" para reservas online.

"Este verão será possível reservar uma viagem de um dia, e em 2023 iniciaremos o contributo di accesso" – ou taxa de entrada – afirmou.

Venturini disse que a pandemia fez as autoridades da cidade refletirem.

"A covid fez-nos perceber que o que era uma ocorrência quotidiana antes da covid já não é aceitável – a mentalidade mudou, assim como a sensibilidade [para com as multidões] ", afirmou.

O sistema de reservas será voluntário em 2022, anunciou – acrescentando que os visitantes receberão "incentivos" para utilizarem o portal, incluindo a possibilidade de passarem à frente nas filas em vários locais e museus. Será gerido em modo provisório, para implementar o sistema obrigatório em janeiro de 2023.

Ter o sistema de reservas "dar-nos-á a oportunidade de saber quantas pessoas estão previstas para determinado dia e de calibrar os serviços de acordo com o número".

Voltaram as grandes filas para os transportes públicos nos dias agitados. No ano passado, a cidade empregava guardas armados para manter a paz nos pontões dos barcos de ferry sobrelotados.

Venturini disse que o portal também vai sinalizar as pessoas que possam querer mudar de ideias.

"Podemos dizer: 'Caro visitante, não aconselhamos que venha nesta data porque é Ferragosto [feriado de agosto] ou Páscoa – haverá muita gente e isso irá impedi-lo de ter uma visita pacífica. Se adiar uma semana, poderá desfrutar melhor da sua visita", afirmou.

Quando as taxas de entrada entrarem em vigor, em janeiro, vão variar entre os 3€ (3,25 dólares) num dia tranquilo e 10€ (10,85 dólares) num dia de pico.

A cobrança será apenas para visitantes de um dia. A ideia é dissuadir os famosos excursionistas de "toca e foge" que vêm à cidade, gastam pouco dinheiro em negócios locais e deixam o lixo para trás.

"Os nossos borghi [cidades muradas] e centros históricos sofrem efetivamente de excesso de visitantes de um dia em determinados dias do ano", disse Venturini.

"A mensagem que queremos dar é que Veneza é uma cidade que vive lentamente, a ritmos diferentes de qualquer outro lugar. É frágil, única e precisa de uma abordagem por parte dos visitantes que não é 'entrar, tirar uma foto e sair'."

Disse que os visitantes deveriam ter uma abordagem "mais lenta e respeitosa".

Venturini também previu que Veneza não será a última a introduzir uma taxa.

"Penso que muitas outras cidades europeias que vivem com um número significativo de viajantes de um dia estão a observar-nos para perceberem de que forma podem introduzir [um esquema semelhante] ", afirmou.

Veneza pode ser a primeira cidade a introduzir uma taxa, mas uma aldeia em Itália já tinha introduzido uma taxa para os excursionistas. Civita di Bagnoregio introduziu uma taxa "simbólica" de 1,50€ (1,67 dólares) em 2013. O presidente da Câmara Francesco Bigiotti planeou-o como uma manobra de marketing para atrair turistas para a sua aldeia numa falésia, conhecida como a "cidade moribunda".

A taxa suscitou a curiosidade dos visitantes a ponto de o número ter aumentado de 40 mil em 2009 para 1 milhão em 2018.

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