"Quero recuperar a minha pele": as razões que levaram estas pessoas a remover as tatuagens

CNN , Jacqui Palumbo
19 abr, 16:00
Tatuagens

Quando Zach Gilyard, um diretor artístico de Brooklyn, fez a sua primeira tatuagem no último ano do liceu, fez o que a maioria dos adolescentes faz e não contou aos pais. Mas não pelas razões que se possa pensar - o pai e os irmãos mais velhos de Gilyard são todos muito tatuados e Gilyard, tal como a sua mãe, pensou que nunca se juntaria a eles. Mas, por capricho, em 2006, fez um pé alado no tornozelo para representar a corrida e manteve-o escondido da família.

“Não era muito eu”, conta numa entrevista por telefone, sobre a tatuagem. "Gostei do facto de ter sido um pouco emocionante para mim, porque era uma altura em que não podia controlar a situação. Estava a fazer algo permanente".

Doze anos e várias tatuagens depois, Gilyard decidiu abruptamente inverter o rumo, pouco depois de começar uma manga de patchwork tradicional a tinta preta no braço esquerdo, começando com uma cabeça de pantera no ombro. Era grande e arrojada, como se pretendia, mas deixou Gilyard inquieto.

“Sempre que fazia uma, tinha um pouco de remorsos de comprador. Durava uma ou duas semanas e depois ficava contente por tê-la feito”, conta. Mas desta vez, o sentimento não passou. “Tive-a durante talvez um mês e passei-me com ela. Entrei em pânico. Não conseguia explicar porquê. Simplesmente não a queria e, nesse momento, disse a mim próprio que me ia livrar dela”.

Cerca de um quarto das pessoas arrepende-se de pelo menos uma das tatuagens que fez, de acordo com um estudo de 2023 da Pew Research que inquiriu cerca de 8 500 pessoas nos Estados Unidos. Os mesmos resultados apontava um estudo mais pequeno realizado na Turquia, publicado no ano anterior. Mas só muito recentemente é que a remoção de tatuagens se tornou mais fiável e amplamente disponível. (Quem vos escreve pode atestar isso mesmo. Em 2008, removeu com laser uma tatuagem stick-and-poke feita por ela própria na adolescência. Foi uma provação. [Nota do tradutor: "Stick-and-poke" refere-se a um tipo de tatuagem feita manualmente, geralmente com uma agulha e tinta, sem máquina — algo comum entre adolescentes, por ser fácil de fazer em casa, embora nem sempre seguro ou duradouro]).

Zach, que vive em Nova Iorque, abandonou os planos de começar uma manga de patchwork tradicional depois de a ter começado com uma cabeça de pantera arrojada.(Cortesia de Zach Gilyard)
A cabeça de pantera e várias outras tatuagens quase desapareceram, deixando apenas contornos desbotados. (Cortesia: Zach Gilyard)

As celebridades têm chamado frequentemente a atenção pelo desaparecimento das suas tatuagens: Angelina Jolie removeu o nome de Billy Bob Thorton, após o divórcio em 2003; Megan Fox retirou a laser o seu retrato de Marilyn Monroe; e Pharrell disse à Vogue britânica, em 2008, que estava a tentar uma alternativa experimental que envolvia o crescimento de pele nova. Mais recentemente, Pete Davidson apareceu de peito nu numa campanha do Dia dos Namorados para a Reformation, enquanto removia cerca de 200 tatuagens, embora as fotos dos paparazzi após o anúncio tenham revelado que ele ainda tem muita tinta desbotada.

No caso de Gilyard, ele não estava a fazer centenas de tatuagens com laser, mas demorou mais de meia década e vários milhares de dólares a remover uma mão cheia delas, incluindo a cabeça de pantera teimosa e altamente saturada. Agora, já quase desapareceu, mostrando apenas uma impressão fantasmagórica contra as sardas da sua pele. Outros desenhos mais pequenos estão ainda mais avançados e quase não se notam, garante.

“Os resultados variam de pessoa para pessoa, de tatuagem para tatuagem”, diz o técnico de laser e tatuador Tim Goergen, que tem estado a tratar Gilyard na sua loja, Gotham Tattoo Removal, em Brooklyn.

A tinta da tatuagem fica permanentemente na camada da derme, ou segunda camada, da pele porque as moléculas de tinta são “demasiado grandes para serem decompostas pelo corpo”, explica Goergen, também numa entrevista telefónica. As máquinas a laser libertam impulsos rápidos de energia que aquecem e decompõem a tinta em partículas mais pequenas, desencadeando uma resposta imunitária que as processa através do sistema linfático. (Um estudo recente na Suécia associou as tatuagens - e a sua remoção - a um risco acrescido de linfoma, embora os seus autores tenham afirmado que é necessária mais investigação). As tatuagens que são mais fáceis de remover são geralmente mais antigas, feitas de tinta preta, têm linhas mais finas e ficam mais próximas do coração, onde há melhor fluxo sanguíneo, acrescenta ele.

Tim Goergen cobra entre 100 e 450 dólares (entre 88 e 398 euros) por uma sessão individual, enquanto Removery, uma cadeia nacional, tem entre 100 e 615 dólares (entre 88 e 544 euros) no seu site. É difícil prever quantas sessões serão necessárias para obter os resultados desejados por um cliente, quer se trate de desvanecer uma tatuagem para uma cobertura ou remoção completa, observa Tim Goergen, “porque toda a gente é diferente”.

 

Alterar “decisões mais jovens”

Sasha, na sua casa em Los Angeles, fez uma pausa nos tratamentos a laser quando estava grávida e não está ansiosa por recomeçar. (Austin Steele/CNN)

A razão pela qual as pessoas removem as suas tatuagens é muitas vezes tão idiossincrática como a razão pela qual as fazem. Sasha Goldbas-Nazarian, que vive em Los Angeles, decidiu iniciar tratamentos a laser quando conheceu o atual marido, que partilha a sua fé judaica, mas vem de uma família iraniana mais conservadora.

As interpretações da Torá, bem como as associações com o Holocausto, levaram a que as tatuagens fossem consideradas proibidas ou tabu no judaísmo, embora as atitudes contemporâneas em relação a elas tenham mudado um pouco. “Quando nos conhecemos, ele não acreditava que eu era judia porque tinha tatuagens”, recorda Sasha com uma gargalhada. “Ele disse: ‘Nunca conheci nenhum judeu que tivesse tatuagens’”.

Acabou por se oferecer para pagar a remoção das tatuagens mais visíveis, que, segundo ela, foram “decisões de juventude” tomadas quando andava no liceu e na faculdade, incluindo uma estrela no tornozelo feita - de forma não profissional - por um amigo com uma máquina de tatuagens; uma ferradura e uma estrela na parte superior das costas; e as iniciais “UWS” para o Upper West Side de Nova Iorque, onde cresceu, no pulso. (Uma ressalva: Esta escritora é amiga de infância de Sasha Goldbas-Nazarian e ex-colega de Zach Gilyard).

Ela já fez várias sessões de tratamento a laser em três tatuagens, mas ainda não viu grandes progressos. (Austin Steele/CNN)

Goldbas-Nazarian aceitou, em parte porque as suas tatuagens estavam desbotadas e esbatidas e frequentemente convidavam a perguntas, e em parte porque cobri-las com maquilhagem para eventos formais se tinha tornado um incómodo durante a sua relação. Mas ela não previu o tempo que demoraria - ou que seria muito mais doloroso do que fazer uma tatuagem, apesar de as sessões de laser durarem apenas alguns minutos cada.

"Apesar de [as sessões serem] rápidas, continua a ser muito doloroso. E consegue-se sentir o cheiro da pele a arder um pouco, o que me enojou", recorda. Há anos que faz os tratamentos de vez em quando, mas teve de fazer uma pausa prolongada durante a gravidez, de acordo com as normas do spa médico, e como mãe recente. Também não tem qualquer desejo de voltar a apressar-se. “Honestamente, apesar de ainda ter muitas sessões para fazer, tenho estado a adiá-las por causa de serem muito dolorosas”, afirma.

 

Sardas que deram para o torto

Embora a tatuagem possa normalmente trazer à mente grandes obras de arte personalizadas ou pequenas peças de flash, as tatuagens cosméticas tornaram-se populares pela sua capacidade de realçar as caraterísticas faciais e a maquilhagem - a chamada opção “semi-permanente” para as pessoas que querem eliminar o incómodo diário de preencher as sobrancelhas ou adicionar marcas de beleza.

Mas a tatuagem cosmética, que utiliza uma tinta alternativa destinada a produzir um acabamento mais natural na pele, tem os seus próprios desafios - como Z, que vive no Reino Unido e prefere usar a sua primeira inicial para se manter anónima, descobriu há cerca de três anos. As suas tatuagens eram minúsculas, parecendo sardas na testa, nariz e bochechas, para substituir as naturais que tinha perdido devido a um efeito secundário raro de uma doença grave. Ela sabia que iria perder o cabelo durante o tratamento, mas não sabia que a sua tez iria mudar drasticamente.

“Enquanto crescia, tinha a cara cheia de sardas - a minha alcunha era mesmo ‘Sardas’”, conta Z numa entrevista telefónica. "Depois fiquei bastante doente e, basicamente, as minhas sardas e todas as minhas pintas desapareceram. Por isso, quando voltei a estar bem, senti-me muito estranha em relação à minha cara, porque me parecia tão nua".

Depois de se ter deparado com um vídeo no YouTube sobre tatuagem cosmética de sardas, pensou que conseguiria recuperar as sardas. “Mas correu muito mal para mim”, admite, explicando que os resultados não pareciam naturais. “Dava para perceber que tinham sido desenhadas”. Não satisfeita com o resultado, cobria-as com maquilhagem, mas elas continuavam a aparecer.

Z fez tatuagens de sardas para recuperar a sua tez natural, mas não ficou satisfeita com os resultados. (Esta fotografia foi intencionalmente desfocada pela CNN.) Jordan Butler/JHB Tattoo Removal
Agora, as sardas quase desapareceram e ela já não tem de usar maquilhagem pesada para esconder as manchas. (Esta foto foi intencionalmente desfocada pela CNN.) (Jordan Butler/JHB Tattoo Removal)

A tinta das tatuagens cosméticas destina-se a desaparecer, mas nem sempre isso acontece. Também corre o risco de se transformar noutras cores, como o rosa ou o laranja, ao longo do tempo, ou quando tratada com laser. Z disse que fez a sua pesquisa e pediu tinta de tatuagem normal, mas não acredita que o seu médico tenha honrado esse pedido. O facto de ter uma pele mais melanizada colocou Z em maior risco de hipopigmentação, uma perda de pigmento da pele, durante a remoção da tatuagem.

“Não há garantia de uma remoção perfeita para nenhum tipo de pele, mas torna-se um pouco mais difícil para os tipos de pele mais escuros”, explica Jordan Butler, fundador da JHB Tattoo Removal, que tem estado a tratar Z, e que atende clientes com uma grande variedade de tez. “A muitas pessoas que me visitaram no passado... foi-lhes dito que não podiam fazer a remoção de tatuagens, que não era possível. É definitivamente possível na maioria dos casos.”

Embora a melhoria da tecnologia laser nos últimos anos tenha melhorado os resultados e diminuído os efeitos indesejados, como a hipopigmentação, Butler e Goergen enfatizam que o resultado depende do conhecimento e do cuidado do técnico. As cores dos pigmentos da tinta são direcionadas utilizando diferentes comprimentos de onda, e alguns (como o que tem como alvo tons mais quentes) são mais “agressivos” do que outros, explica Tim Goergen. “É possível retirar a melanina natural da pele com o vermelho, o laranja ou o amarelo [tintas]”, acrescenta.

É por isso que os testes de correção são cruciais, diz Jordan Butler, o que fez extensivamente com Z. A sua primeira sessão foi dolorosa, confessa ela, mas o desconforto diminuiu ao longo do tempo - “agora quase não se sente nada”, comenta - e a sua cura tem sido direta.

“Acho que estamos quase lá”, diz Z sobre o seu progresso. “É muito melhor do que era.”

 

À procura de um novo começo

Progresso nas tatuagens dos dedos de Jayne - os desenhos mais pequenos que ela está a remover. (Laura Oliverio/CNN)

Jayne Foo, uma consultora financeira sediada em Singapura, experimentou o lado mais extremo da recuperação nos últimos meses, ao embarcar na remoção de cerca de 70% das suas tatuagens, incluindo uma das suas duas mangas completas, um pedaço de peito e um grande pedaço da barriga. E, para os seus 14.600 seguidores no Instagram, ela está a documentar toda a laboriosa experiência - feridas abertas, fluidos e tudo. Vermelhidão, dor e inchaço são comuns; mas também podem ocorrer bolhas, o que Foo experimentou após as duas primeiras sessões.

“Sempre soube que queria fazer tatuagens, mas, quando era jovem, nunca tive dinheiro para fazer tatuagens bonitas, por isso, limitava-me a colar o que queria no meu corpo sem pensar no aspeto que teria no futuro”, conta à CNN por telefone. Sobre a razão pela qual está a remover as tatuagens agora, justifica: “Quero um novo começo. Quero recuperar a minha pele.”

É essa a mensagem que Foo também espera partilhar com os seus seguidores nas redes sociais quando embarca no processo que dura um ano. Ela não é a primeira influenciadora a documentar o processo - e algumas começaram a fazer parcerias com clínicas para promover e mostrar resultados. Mas os vídeos nas redes sociais são muitas vezes limitados à própria sessão, o que pode ser enganador por causa da “cobertura”, que parece clarear imediatamente a tinta. Mas, na verdade, é um efeito temporário que ocorre brevemente (por cerca de 15-20 minutos) quando o laser atinge a tinta, antes de voltar ao normal.

Os vídeos de Foo mostram as horas e os dias que se seguiram aos seus tratamentos, durante os quais ela teve grandes e intensas bolhas e uma comichão extrema devido às crostas que se seguiram, para as quais acabou por lhe serem receitados anti-histamínicos.

A manga esquerda de Jayne era uma cobertura de tatuagens mais antigas. Agora, ela espera livrar-se de todas elas. (Laura Oliverio/CNN)
Uma captura de ecrã do Instagram de Jayne, onde ela tem documentado cada sessão. (Cortesia de Jayne Foo)

“A primeira vez que o fiz, o meu braço inchou o dobro do tamanho”, recorda. “Não estava nada à espera disso.”

Durante os primeiros dias de cicatrização, optou por ficar completamente dentro de casa para minimizar o contacto. “É demasiado incómodo sair de casa”, admite. “Temos de estar muito atentos ao que nos rodeia e temos de nos manter limpos.”

Foo diz que vai continuar a registar os seus tratamentos, porque “é importante ser realista”. Habituada a documentar muitas partes da sua vida online, incluindo a forma física e as viagens, também achou que seria “estranho” “de repente não ter tatuagens” nos seus posts.

Por outro lado, Zach Gilyard optou por uma via mais discreta e manteve o seu processo de remoção em segredo - incluindo, mais uma vez, dos seus pais. No entanto, eles acabaram por reparar nas suas tatuagens desvanecidas.

“O meu pai finalmente olhou para as minhas tatuagens um dia e perguntou-me porque é que elas pareciam as de um homem velho”, conta Zach. “A minha mãe perguntou-me quanto custaram as tatuagens e disse que era tudo um desperdício de dinheiro”, ri-se. “Mas acho que ela está feliz por algumas estarem a desaparecer.”

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