Embaixadores da UE chamados para reunião de emergência após Trump ameaçar com tarifas que podem chegar aos 25%

17 jan, 21:40

Braço de ferro entre Bruxelas e Washington sobre vontade de Trump comprar a Gronelândia intensifica-se. Kaja Kallas alerta que a China e a Rússia são quem mais beneficia da tensão diplomática

Os embaixadores dos 27 países da União Europeia vão reunir-se este domingo, de emergência, num momento de crescente tensão com Washington, depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter ameaçado avançar com um aumento de tarifas contra aliados europeus até que os EUA sejam autorizados a comprar a Gronelândia.

A reunião foi convocada por Chipre, que assume a presidência rotativa semestral da UE, e deverá ter início às 17 horas, segundo fontes diplomáticas citadas pela Reuters. A missão será alinhar posições e preparar uma resposta comum a Trump, que este sábado, numa publicação na Truth Social, afirmou que os Estados Unidos irão aplicar tarifas de 10% a partir de 1 de fevereiro sobre importações provenientes da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia.

Segundo o presidente norte-americano, essas tarifas deverão aumentar para 25% a partir de 1 de junho caso estes países não cedam no braço de ferro em torno da Gronelândia.

Ao mesmo tempo, a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, alertou que a utilização de tarifas como instrumento de pressão política terá efeitos prejudiciais para ambas as partes do Atlântico. Na sua ótica, uma guerra comercial entre aliados “arriscaria tornar a Europa e os Estados Unidos mais pobres” e comprometer a “prosperidade construída ao longo de décadas de cooperação”.

Referindo que eventuais preocupações devem ser tratadas no seio da NATO, Kallas advertiu para as consequências estratégicas de uma divisão entre aliados ocidentais, lembrando que “a China e a Rússia são as principais beneficiárias das fraturas entre parceiros”.

O tom de alerta foi reforçado também pelos principais líderes do bloco, que falaram numa “perigosa espiral descendente” caso as ameaças de Trump se concretizem. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, defenderam que o recurso a tarifas “minaria as relações transatlânticas e arriscaria uma perigosa espiral descendente”. “A Europa manter-se-á unida, coordenada e empenhada na defesa da sua soberania”, sublinharam.

Para António Costa, a União Europeia “será sempre muito firme na defesa do direito internacional, seja onde for e, claro, a começar no território dos Estados-membros da União Europeia”. “Por agora, estou a coordenar uma resposta conjunta dos Estados-membros da União Europeia sobre este tema”, disse o ex-primeiro-ministro.

Também fora da União Europeia, a reação foi firme. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, considerou “completamente errada” a ameaça norte-americana de aplicar tarifas a países europeus por se oporem à intenção de Trump de comprar a Gronelândia, sublinhando que tal atitude contraria o espírito da aliança atlântica.

“Aplicar tarifas a aliados por defenderem a segurança coletiva da NATO é completamente errado”, afirmou o governante, salientando que o Reino Unido irá, “naturalmente”, “abordar esta questão diretamente com a administração dos Estados Unidos”. Starmer reforçou ainda a posição do Reino Unido de que o futuro da Gronelândia deverá ser decidido pela Dinamarca e pelo próprio território.

Entretanto, centenas de pessoas na capital da Gronelândia enfrentaram hoje temperaturas próximas de zero, chuva e ruas geladas para marchar em apoio da sua autogovernação, face às ameaças de uma tomada de controlo pelos Estados Unidos.

Os groenlandeses agitavam bandeiras nacionais vermelhas e brancas e ouviam canções tradicionais enquanto caminhavam pelo pequeno centro de Nuuk.

Alguns transportavam cartazes com mensagens como “Nós moldámos o nosso futuro”, “A Gronelândia não está à venda” e “A Gronelândia já é grande”. Foram acompanhados por milhares de outras pessoas em manifestações por todo o reino dinamarquês.

Trump insiste há meses que os Estados Unidos devem controlar a Gronelândia, um território semiautónomo da Dinamarca, membro da NATO, e afirmou no início desta semana que qualquer solução que não passe pela posse norte-americana da ilha ártica seria inaceitável.

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