A "arma secreta" da Europa para fazer frente às tarifas de Trump pode ser um "ataque mil vezes pior"

2 abr 2025, 07:00
Indústria automóvel (foto: C. Aranda/ Pexels)
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À beira de uma guerra comercial, todos temos uma certeza: ninguém ganha com isto, há apenas quem possa perder menos. À Europa faz-se agora um aviso: evite-se o "machismo económico"

Todas as opções estão em cima da mesa, mas há uma que pode ser uma autêntica "bomba" que pode levar a uma "reação gravíssima". A União Europeia está a preparar-se para enfrentar a nova vaga de taxas alfandegárias recíprocas que Donald Trump vai anunciar esta quarta-feira. O "dia da libertação", como lhe chamou o presidente norte-americano, traz de volta os fantasmas de uma visão "unilateral e mercantilista" que pode vir a punir os consumidores dos dois lados. Bruxelas insiste que não tem linhas vermelhas para retaliar e abriu mesmo as portas à utilização de um mecanismo que pode travar o comércio de empresas tecnológicas com o bloco europeu.

"A utilização do mecanismo anti-coerção da União Europeia seria algo impensável. Quando os EUA lançaram tarifas sobre o aço e o alumínio, a UE retaliou contra a importação de bourbon - um setor irrelevante politicamente nos EUA. Os EUA responderam com um imposto sob todas as bebidas alcóolicas europeias. Uma pequena retaliação pode provocar um ataque desproporcional. Atacar as tecnológicas que são os grandes financiadores do Trump é mil vezes pior", alerta Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade.

Em causa está a utilização do mecanismo de anti-coerção, criado em 2023, para combater as ameaças económicas e as restrições comerciais desleais de países terceiros, depois de a China ter imposto restrições comerciais à Lituânia, porque o governo deste Estado-membro abriu uma representação oficial em Taiwan contra a vontade de Pequim. Este instrumento permite à Comissão Europeia lançar medidas de restrição do comércio, investimento e financiamento contra países que não pertençam à UE.

Durante a última semana, fontes oficiais da UE sugeriram que o grande foco deste instrumento de retaliação europeia serão as grandes empresas tecnológicas. Entre as medidas que podem ser adotadas pelo bloco está a revogação da proteção de direitos de propriedade intelectual e da sua exploração comercial. Estas medidas podem ser aplicadas contra empresas que prestam serviços de streaming ou downloads de software. 

Com este mecanismo, a UE pode bloquear o investimento estrangeiro direto ou até mesmo o acesso ao mercado para bancos, seguradoras e até grupos financeiros de outro país. A decisão de utilizar este mecanismo cabe à União Europeia, mas o bloco precisa da aprovação de pelo menos 15 dos seus 27 membros para decidir o que atacar e como. 

O problema é que a decisão de punir os gigantes tecnológicos que operam na Europa pode resultar numa resposta ainda mais pesada contra algumas das principais indústrias exportadoras europeias, como o setor automóvel ou o farmacêutico. Só estes dois setores foram responsáveis pela exportação de 155,9 mil milhões de euros para os EUA em 2024, de acordo com o Eurostat. Neste cenário, os dois blocos, que representam quase 30% do comércio de mercadorias e serviços a nível mundial, arriscam entrar numa escalada de imposição de restrições onde "todos perdem". 

"Nós não podemos correr o risco de responder e ficarmos nós também cada vez pior numa guerra comercial onde perdemos todos. Uma guerra comercial é um jogo de soma negativa. Aquilo que uns setores podem ganhar é menos do que aquilo que todos perdem. Não devemos responder na mesma moeda, isso é um tipo de machismo económico. É um reflexo irracional que não leva a nada de bom", insiste Pedro Braz Teixeira.

Um estudo do Kiel Institute for the World Economy, de 2024, sugere que a longo prazo seria a União Europeia quem mais sofreria com a imposição de sanções. O documento defende que se os EUA impuseram sanções adicionais de 10% sobre os países com quem não tem acordos de livre comércio, o PIB da UE pode encolher entre 18 a 21 mil milhões de euros e prevê uma queda do PIB em -0,25% caso as tarifas se foquem no setor automóvel e tecnológico. 

Nos Estados Unidos, apesar de as taxas alfandegárias ainda não terem sido impostas, o seu efeito já se faz sentir. De acordo com a Conference Board, a confiança dos consumidores norte-americanos está no valor mais baixo desde janeiro de 2021, quando o país ainda lutava com várias restrições económicas depois do combate à pandemia de covid-19. Os americanos acreditam que a inflação vai continuar e o banco de investimento Goldman Sachs aumentou a probabilidade de os EUA entrarem numa recessão de 20 para 35%. 

"Para o cidadão comum, o impacto que tem é possivelmente uma diminuição do poder de compra e o retorno da inflação. Se as empresas produzem mais barato no estrangeiro, isso significa que o preço do produto vai ser mais barato para o consumidor. Um direito aduaneiro acaba sempre por ser um imposto sobre o consumo", afirma o economista Filipe Costa, antigo presidente da AICEP. 

Mas para a administração norte-americana existem desequilíbrios comerciais que devem ser corrigidos. Donald Trump tem utilizado como argumento o défice da balança comercial que existe com os EUA e a União Europeia como um dos principais fatores para levantar taxas alfandegárias, citando o que diz ser práticas comerciais "injustas" por parte dos europeus. 

O comércio de bens e serviços entre os dois atinge os 1,5 biliões de euros, com a a União Europeia a registar um superavit comercial de 155 mil milhões em 2024. Isto deve-se principalmente à exportação de automóveis, maquinaria e produtos farmacêuticos. Só estes três setores representam 231,2 mil milhões de euros em exportações para o mercado americano. 

No entanto, o cenário é bem diferente quando se analisa apenas a balança comercial de serviços. Os Estados Unidos exportaram 109 mil milhões de euros em serviços para a União Europeia, em serviços de gestão, propriedade intelectual e serviços financeiros. É nesta categoria que se enquadram serviços como Inteligência Artificial, redes sociais ou os gigantes tecnológicos como a Amazon, Microsoft e Google, que dominam dois terços do mercado de serviços cloud na Europa. E a União Europeia sabe que este desequilíbrio pode jogar a seu favor. 

"O que faz sentido é retaliar contra as tecnológicas americanas. Trump diz que é preciso taxar veículos europeus, porque o domínio europeu está a destruir a indústria automóvel americana. Nós podemos dizer o mesmo em relação aos serviços digitais americanos, que impedem o desenvolvimento do setor na Europa", argumenta Filipe Costa.

Mas a resposta europeia tem sido contida. Bruxelas atrasou a imposição de novas taxas em 26 mil milhões de euros de bens norte-americanos depois de a administração americana ter imposto tarifas sobre o aço e o alumínio, devido ao receio de países como França de que Trump retalie. Além disso, a UE continua por responder ao anúncio de taxas alfandegárias de 25% contra a indústria automóvel europeia. 

“A Europa tem muitas cartas na manga. Desde o comércio à tecnologia e à dimensão do nosso mercado. Mas esta força assenta também na nossa disponibilidade para tomar medidas firmes. Todos os instrumentos estão sobre a mesa”, afirmou Ursula von der Leyen. 

Ainda assim, os Estados Unidos têm vantagens que podem tornar a retaliação contra empresas americanas bastante dolorosa para a Europa. Como parte do plano europeu para reduzir a importação de gás natural russo, os países europeus tornaram-se cada vez mais dependentes do fornecimento de gás natural liquefeito americano. Em caso de escalada, os EUA podem atacar especificamente este setor, que atingiu 68 mil milhões de euros em 2024, causando um forte choque na economia europeia. As potências industriais europeias, como a Alemanha e a Itália, seriam algumas das mais afetadas. 

O futuro das relações comerciais entre os dois blocos é incerto. A forte relação de dependência entre os dois blocos faz com que ambos os lados tenham capacidade de causar grandes danos ao outro lado. Por esse motivo, o Kiel Institute for the World Economy, defende que a União Europeia deve evitar o confronto e assinar um acordo que permita a eliminação de tarifas e evite a escalada de um conflito comercial, algo que está em sintonia com a presidente da Comissão Europeia, que teme que as tarifas criem "um mostro burocrático".

Responsáveis europeus têm esperanças de que este seja apenas um prelúdio de uma ronda negocial, onde os dois lados colocam as suas reivindicações em cima da mesa. Washington, DC tem criticado o sistema de IVA na Europa, que Trump diz ser injusto para as empresa americanas, e também as regulações digitais que limitam as empresas americanas. 

"Idealmente, não devemos retaliar. A retaliação é uma má resposta, que leva ao aumento da inflação e faz cair o crescimento. O que a Europa tem de fazer é repensar e tornar-se mais independente dos EUA, criando alternativas às empresas norte-americanas que, neste momento, não temos. Utilizar o mecanismo anti-coerção levaria a retaliações brutais", defende Pedro Braz Teixeira.

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