Paulo Portas lembra que "os EUA são o nosso quarto maior parceiro" e aconselha a União Europeia a descobrir onde pode causar dano à economia americana, apontando para o setor tecnológico
No “Global” desta semana, que se realizou excecionalmente este sábado, Paulo Portas começou por destacar uma imagem publicada na conta oficial da Casa Branca onde apresenta o "Superman Trump", com o presidente norte-americano numa pose de super herói.
A escolha desta imagem não vem ao acaso, explica Paulo Portas. É que é assim que "o presidente dos EUA se vê a si próprio" e as suas mais recentes decisões demonstram isso mesmo, sugere o comentador, referindo-se à nova ameaça de impor tarifas de 30% sobre todos os produtos provenientes da União Europeia (UE) e do México. Curiosamente, dois dos maiores parceiros comerciais dos EUA - facto que leva Portas a afirmar que Trump "trata os amigos igual ou pior que os inimigos".
Este "jogo", como Paulo Portas o designa, é particularmente "duro" com a UE, que tem vindo a apresentar várias propostas "razoáveis" para negociar um acordo com a administação Trump, nomeadamente uma proposta para um acordo "zero por zero" para bens industriais. A nova ameaça de Trump - que aumenta a tarifa de 20% para 30% sobre os produtos da UE - mostra que "as negociações de boa fé parecem inúteis" com o presidente norte-americano, que, diz, "decide arbitrariamente".
O comentador avisa que, "em relação a Portugal, isto é um assunto sério". "Os EUA são o nosso quarto maior parceiro. Nós exportamos para os EUA combustíveis minerais, óleos de petroleo, borracha, máquinas e equipamentos, cortiça, produtos alimentares. Exportamos uma grande variedade de bens e de serviços", enumera, referindo-se nestes últimos a viagens e turismo.
"Eu presumo que isto ainda seja um movimento tático mas obviamente o cenário é pior do que na semana passada", adverte Paulo Portas, que aconselha a UE a descobrir onde pode causar dano aos "setores americanos que apoiaram Trump" na eleição para este segundo mandato, dando como exemplo os líderes tecnológicos.
Caso contrário, diz, a UE tem de se preparar para "um tempo hostil".
A privatização da TAP e os três milhões que "não vale a pena estar a dizer que vamos recuperar"
Mais à frente no comentário, Paulo Portas comenta a reprivatização da TAP, lembrando que "sempre" defendeu a privatização da companhia aérea, - "embora mantendo uma posição do Estado que fosse relavante, por causa dos emigrantes, por causa das regiões autónomas, por causa dos serviços internos no mercado português e por causa do 'hub' de Lisboa", ressalva.
"Objetivamente a TAP é uma das últimas companhias médias da Europa", afirma Paulo Portas, sublinhando alguns negócios de "concentração" de companhias aéreas, como foi o caso recente da Lufthansa, que comprou a ITA Airways, entre outros. "Portanto, a TAP para crescer, para inovar e para desenvolver a indústria à volta do transporte aéreo é melhor estar associada a um grupo", assume.
Paulo Portas admite que "preferia que o grupo não fosse europeu, porque quanto mais europeu fosse, mais disputará o 'hub' de Lisboa".
Sobre a recuperação dos três mil milhões de euros injetados pelo Estado na TAP, o comentador pede que não se confunda "demagogia com economia". "Quem andar a dizer que nós vamos recuperar os três mil milhões, eu acho que não está a dizer a verdade", diz.
E dá um exemplo para explicar isso mesmo: "A Air France, na sexta-feira [ontem], tinha uma capitalização bolsita de 2,9 mil milhões. A Air France é seis vezes maior do que a TAP, tem 600 aviões e a TAP tem 70 e tal. Portanto, não é imaginável que uma empresa como a Air France que não chega a valer os tais três mil milhões de euros fosse pagar por uma empresa mais pequena uma soma dessas."
"É possivel recuperar parcialmente alguma coisa e talvez na segunda etapa melhorar isso, mas não vale a pena estar a dizer que vamos recuperar tudo porque obviamente a conta não fecha", argumenta o comentador.
