Líderes europeus tentam chamar o presidente norte-americano ao bom senso, mas também há quem decida apostar num discurso mais forte. Enquanto não há certezas, o dólar sobe e as ações europeias caem
A Europa e os Estados Unidos começam uma guerra comercial e depois há apenas um lado que se fica a rir: a China. Esta é a visão da chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que afasta totalmente a intenção de impor tarifas aos produtos norte-americanos, mesmo numa altura em que o presidente Donald Trump parece inclinado nesse sentido.
“Estamos muito interligados. Precisamos da América e a América também precisa de nós”, afirmou, à margem de um encontro informal entre os líderes dos países da União Europeia, onde também esteve o primeiro-ministro português, Luís Montenegro.
“Só haverá um lado a rir, que é a China”, avisou a responsável, depois de Donald Trump ter avisado que o bloco dos 27 é o que se segue, já depois de ter imposto tarifas a Canadá, México e à própria China. Num flic flac de última hora, México e Estados Unidos chegaram a um acordo que adia a entrada em vigor da medida. China e Canadá mantêm-se alvo nas próximas horas.
“Vai mesmo acontecer com a União Europeia. Posso dizer-vos isso porque eles têm claramente tirado partido de nós”, reiterou no domingo, acusando os países europeus de quase não importarem produtos norte-americanos, enquanto os Estados Unidos importam “tudo” da Europa.
Numa lógica de acalmar a tensão económica, o chanceler alemão, Olaf Scholz, admitiu que “é claro que podemos moldar o nosso futuro a uma política de tarifas, mas a perspetiva e o objetivo devem ser de que as coisas resultem em cooperação”.
Menos comedido foi o governador do Banco de França. François Villeroy de Galhau afirmou que as tarifas de Donald Trump são “brutais”, avisando que o setor automóvel será particularmente atingido caso elas venham a ser mesmo aplicadas.
“Todos perdem neste tipo de guerra comercial protecionista”, acrescentou o responsável à rádio France Info, já depois de se saber que os mercados europeus, sobretudo no setor automóvel, não reagiram bem às últimas declarações do presidente norte-americano.
A queixa de Donald Trump tem algum fundamento. De acordo com o Eurostat, a União Europeia exporta mais bens do que importa na relação comercial com os Estados Unidos, num défice que prejudica a balança norte-americana em 155,8 mil milhões de euros. Ora, segundo o próprio presidente, todas as relações comerciais que resultem em défice devem ser revistas.
Ainda assim, os serviços têm um caminho inverso, com os Estados Unidos a terem uma balança favorável em 104 mil milhões de euros. Tudo somado, a União Europeia ainda fica cerca de 50 mil milhões de euros por cima, o que Donald Trump não admite.
E por isso surgem as tarifas, algo que o presidente norte-americano admita que pode magoar os consumidores internos a curto prazo, mas que garante que vai compensar no futuro, até porque “os Estados Unidos têm sido rasgados por cada país do mundo”.
Na incerteza de quando ou em que moldes estas tarifas se vão aplicar ao bloco comunitário, os mercados abriram em queda, alguns a chegar aos 2%. Um efeito que também se sentiu na desvalorização do dólar canadiano, do peso mexicano e até do yuan chinês, aí sim, países que já sabem que vão ter mesmo de lidar com tarifas.
Numa posição mais firme que alguns dos seus pares, o presidente francês, Emmanuel Macron, exigiu que a União Europeia “se faça respeitar e reaja” ao que está a acontecer, apontando que as declarações de Donald Trump estão a tornar a Europa mais forte e mais unida.
Quanto aos vizinhos Canadá e México, cujas tarifas entram em vigor já esta terça-feira, Donald Trump acredita que ainda há coisas a falar. “Eles devem-nos muito dinheiro, tenho a certeza que vão pagar”, sublinhou, não descartando nunca a aplicação dos 25% aos dois países, enquanto a China vai ser taxada em 10% adicionais.
Nenhum destes três países parece querer ficar calado e aceitar de bom grado o que Donald Trump lhe reservou. A China, que o presidente norte-americano acusa de estar a promover a introdução de fentanil nos Estados Unidos, afirmou que esse é um problema interno da América. Pequim prometeu mesmo medidas de retaliação, ainda que tenha deixado a porta aberta a negociações.
A presidente do México pediu resiliência ao povo e prometeu mais detalhes para breve, até porque espera que lhe apresentem um plano de tarifas para responder aos Estados Unidos. Uma medida que ainda não se percebeu se o Canadá vai fazer como um todo, ainda que o país tenha prometido iniciar uma ação legal nos organismos internacionais.
Enquanto não dá para fazer algo mais efetivo, os canadianos vão tomando as suas medidas de forma faseada. Alguns estão a cancelar viagens aos Estados Unidos e até quem tenha iniciado um boicote ao álcool norte-americano, além de também se terem ouvido vaias em eventos desportivos.
De referir que, tirando a subida do dólar, que quase chegou à paridade com o euro, as notícias também não foram espetaculares para o mercado norte-americano. As ações de Microsoft, Alphabet, Amazon ou Apple estavam a descer entre 1,5% a 2%. Mas os mais prejudicados foram mesmo os do setor automóvel, que está em polvorosa com o que pode vir aí. Volkswagen, BMW, Porsche, Stellantis ou até a Daimler abriram as bolsas a perder entre 5% a 6%.
