Deve a Europa reagir às tarifas de Trump? E como? Espanha deu um passo à frente e "quem vai pagar são os contribuintes"

4 abr 2025, 18:00
Nota de dólar com Donald Trump (Andrew Lichtenstein/Corbis via Getty Images)

A "única resposta adequada" à guerra comercial que os EUA acabam de declarar é "retaliar". Em Portugal "não se trata de intervencionismo", mas já há duas frentes de ação prontas para levar ao Governo

Foi um dos poucos anúncios concretos por um governo nacional desde que Donald Trump cumpriu a ameaça de aplicar tarifas “recíprocas” às exportações de mais de 150 países.

Um dia depois do proclamado “dia da libertação” dos americanos, assim definido pelo seu presidente, Espanha anunciou a criação de um pacote de empréstimos e apoios diretos às empresas do país no valor de 14,1 mil milhões de euros, com o objetivo de suavizar o impacto imediato das taxas aduaneiras de 20% que vão começar a ser aplicadas sobre todos bens que os EUA importam dos Estados-membros da União Europeia (UE).

“Este ataque tarifário da administração dos EUA não faz distinção entre amigos e inimigos, não discrimina com base na ideologia ou na balança comercial, é contra tudo e contra todos”, disse Pedro Sánchez, chefe do governo espanhol, ao anunciar o pacote.

Se for aprovado pelo fragmentado parlamento do país, incluirá 7,4 mil milhões de euros em novos financiamentos, com o restante dinheiro a vir de instrumentos já existentes, incluindo empréstimos com condições mais favoráveis. Outros 5 mil milhões de euros virão dos Programas de Recuperação e Resiliência (PRR) europeus, redirecionados pelo governo Sánchez.

O objetivo é ajudar as indústrias mais atingidas pelo choque tarifário em Espanha, para que “reorientem as suas capacidades produtivas para outros setores de elevada procura”, resume a Reuters. O executivo espanhol planeia ainda contribuir para este fundo com 2 mil milhões de euros de seguros de crédito e de cobertura dos riscos de exportação.

Bem recebida pelos empresários espanhois, a medida veio acompanhada de avisos e alertas de analistas como Antonio Gonzalez, do think tank Economistas Frente a La Crisis, que invoca um “cuidado paliativo” do Estado que não compensará a perda de quota de mercado dos EUA.

“As tarifas de Trump são tão brutais que é muito difícil ver como serão compensadas através de empréstimos bonificados ou de subsídios”, defende Gonzalez. E como destaca à CNN Portugal o economista Abel Mateus, na prática, este pacote de apoios põe os contribuintes a pagar a fatura da guerra comercial. 

“Não sei qual será o prejuízo das empresas em relação ao montante que foi oferecido em subsídios, mas quem vai pagar isso são os contribuintes espanhóis”, ressalta o antigo presidente da Autoridade da Concorrência. “Não me parece que seja a medida adequada - acho que pôr este peso nos contribuintes para, digamos, pagarem as tarifas americanas, na prática, é uma asneira.”

Postura de Trump marca uma "quimera que não é possível, é contra natura, uma bizarria", diz Armindo Monteiro. "As tarifas representam um desafio que tem de ser ultrapassado e que, enquanto não for ultrapassado, trará dificuldades a nível mundial, não é um problema só para Portugal"
Postura de Trump marca uma "quimera que não é possível, é contra natura, uma bizarria", diz Armindo Monteiro. "As tarifas representam um desafio que tem de ser ultrapassado e que, enquanto não for ultrapassado, trará dificuldades a nível mundial, não é um problema só para Portugal" (foto: Samuel Corum/Sipa USA/AP)

"Conversa fiada"

Qual é então a medida adequada para responder a esta guerra comercial lançada por Trump? “É responder com o correspondente aumento de tarifas, é o que os todos os países fazem em geral, que é uma forma de fazer pressão sobre os EUA para que retirem estas tarifas”, defende Abel Mateus. E essa resposta, ressalta o especialista, deve vir da parte da União Europeia (UE), “que tem um poder económico muitíssimo maior do que qualquer Estado-membro, nunca deverá ser feito a nível nacional, Estado a Estado”.

Como anunciado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, o bloco está já a ponderar “contramedidas”, que passam não apenas pela aplicação de tarifas sobre as importações de bens norte-americanos, mas também por outras medidas retaliatórias, nomeadamente um imposto sobre as plataformas digitais dos EUA e a eventual proibição de os bancos americanos atuarem deste lado do Atlântico.

Entre os especialistas, há quem defenda, contudo, que mais do que retaliar, a UE e outros blocos e países devem apostar em fortalecer as suas economias e procurar mercados alternativos - uma estratégia de médio prazo que ajude a mitigar o impacto das tarifas de Trump no imediato e também a acabar com a extrema dependência do mercado norte-americano. Mas para Abel Mateus, essa não é uma opção no cardápio de possíveis respostas.

“Se não se fizer nada, é evidente que isso prejudica muito as empresas exportadoras da UE, podendo causar recessão e maior desemprego. Mas há muitos produtos, por exemplo de elevada tecnologia, que importamos dos EUA e que são impossíveis de substituir - e do lado da exportação, também não vejo que haja alternativas para muitos produtos”, indica o antigo diretor executivo do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento.

No anúncio dos apoios diretos às empresas espanholas, Sánchez fez questão de sublinhar a necessidade de a UE encontrar novos parceiros de trocas e adiantou que tem já marcadas para o próximo mês visitas oficiais ao Vietname e à China, numa aproximação comercial à Ásia.

A nível comunitário, considera Abel Mateus, será “um erro estratégico a UE virar-se para a China quando está a tentar tornar-se menos dependente da China”, ainda que uma “ameaça de aproximação” possa ajudar a pressionar Trump. “Mas em termos reais, não me parece que seja uma alternativa.” O economista vai ainda mais longe quando questionado sobre a dita necessidade de diversificar mercados.

“Isso é conversa fiada. A única resposta adequada é retaliar, como aliás já fizemos no passado, para que a economia americana seja afetada de tal maneira que Trump não consiga aguentar este aumento de tarifas por muito tempo e, para isso, tem de ser pressionado, os americanos vão ter de enfrentar grandes dificuldades ao exportar para a Europa graças à nossa retaliação - tudo o resto é conversa fiada.”

UE tem de preparar resposta forte para pressionar Trump a reverter esta decisão, dizem os especialistas
UE tem de preparar resposta forte para pressionar Trump a reverter esta decisão, dizem os especialistas (foto: Ronald Wittek/EPA)

"Urgência e importância são coisas distintas"

Sem se comprometer com a questão dos apoios diretos às empresas, Armindo Monteiro, da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), afasta a ideia de intervencionismo. “Não se trata disso, trata-se de apoio e colaboração em termos de políticas”, diz, sublinhando a importância da reunião que o Governo de gestão de Luís Montenegro já agendou com os representantes dos empresários para o próximo dia 10 de abril.

Questionado sobre o que as empresas pretendem trazer a debate nesta reunião, o presidente da CIP responde a dois tempos, com “a questão da urgência e a da importância - duas coisas distintas”.

O encontro, adianta Armindo Monteiro à CNN, “servirá para vermos as situações mais críticas e imediatas, mas também, numa perspetiva de médio prazo, percebermos onde estão as nossas fragilidades, onde é que são mais evidentes, e onde não temos elasticidade de preços, onde não há capacidade para incorporar no preço de venda o custo de produção e agora também o custo alfandegário acrescido”.

Como Abel Mateus, Armindo Monteiro defende uma “resposta a uma só voz, a nível da UE, que mostre as nossas forças - e a Europa tem várias, não é propriamente um bloco económico pouco importante, nós é que nos desabituámos de reivindicar isso”. Essa deve ser a primeira prioridade, para garantir que os europeus “não entram em negociações numa posição de fragilidade”, diz.

Mas a par dessa resposta, também é preciso que Portugal encontre formas de “atenuar os efeitos negativos das tarifas, tal como Espanha fez”, adianta o presidente da CIP. “Estamos perante uma escalada e não há forma de parar isto, pelo que o que é preciso é atenuar os efeitos negativos, não deixarmos que estes efeitos, ainda que possam vir a ser corrigidos, causem um impacto muito negativo agora - e para isso há duas coisas a fazer”, indica, enumerando o apoio às “fileiras que ficam mais frágeis no imediato” e uma “aposta na promoção do Made In Portugal, dos nossos produtos e setores noutros mercados”.

No anúncio de uma linha de financiamento direto às empresas espanholas, Sánchez ecoou o discurso de vários outros líderes e analistas sobre a decisão “pouco inteligente” de Trump que se traduz em “notícias terríveis para o mundo” e, acima de tudo, num “regresso ao protecionismo do século XIX” - uma ideia que também é partilhada por Abel Mateus - “isto é o fim da globalização, este aumento de tarifas é um retorno ao século XIX e a 1910”, diz o economista.

Armindo Monteiro tem outra visão. “A globalização está a ter episódios destes, de procura da quadratura do círculo, em que todos querem a globalização mas só exportando, sem importar - é uma quimera de Trump, que não é possível, é contra natura, uma bizarria, e é um desafio que tem de ser ultrapassado”, admite o presidente da CIP, que rejeita, apesar de tudo, passar um atestado de óbito à globalização.

“Não acredito nisso. A globalização é o que tem permitido à humanidade viver melhor, de forma geral, ainda que estejamos cientes de que este crescimento económico não tem sido homogéneo. A globalização existe há 500 anos, fomos nós que a iniciámos, e isso tem permitido que as economias cresçam. Óbvio que, de tempos a tempos, há crises como esta, mas não podemos confundir crises com o todo, não são as crises que são permanentes. Esta é só mais uma que teremos de ultrapassar. É impossível parar a globalização.”

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