Começou com as tarifas aduaneiras, mas a guerra comercial está a escalar rapidamente para além dos impostos sobre as importações, tornando-se numa batalha de olho por olho mais vasta.
As tarifas aduaneiras de 25% impostas pelo presidente Donald Trump ao Canadá ofenderam os líderes do país, ao ponto de Ontário ter ripostado, retirando as bebidas americanas das prateleiras das lojas.
O governador do Ontário, Doug Ford, ameaçou mesmo aplicar uma sobretaxa ou desligar a eletricidade enviada para três estados dos EUA, levantando o espetro de aumentos nas faturas de eletricidade ou mesmo de apagões.
Isso irritou Trump de tal forma que prometeu, por breves instantes, aplicar tarifas aduaneiras de 50% a todas as importações americanas de aço e alumínio canadianos, antes de se acalmar.
É fácil ver como esta guerra comercial pode rapidamente ficar fora de controlo. Se os líderes mundiais não tiverem cuidado, podem ficar presos num ciclo de escalada que é difícil de escapar.
“Este jogo explodiu noutras áreas”, explica Mary Lovely, membro sénior do Instituto Peterson de Economia Internacional.
"Claro que vou responder"
Não se trata apenas de uma guerra comercial entre os EUA e o Canadá.
A China respondeu ao aumento inicial das tarifas de 10% imposto por Trump em fevereiro, anunciando tarifas de retaliação, bem como novos controlos das exportações e acrescentando o PVH Group, proprietário da Calvin Klein, a uma lista negra do governo.
Na quarta-feira, a União Europeia respondeu às tarifas de aço e alumínio impostas por Trump, visando as calças de ganga, os barcos e o uísque americanos, para grande desânimo da indústria de bebidas dos EUA.
Questionado sobre as tarifas retaliatórias da UE, Trump disse: “Claro que vou responder”.
E respondeu.
Na quinta-feira, Trump ameaçou aplicar uma tarifa maciça - 200% - sobre o vinho, o champanhe e outras bebidas alcoólicas europeias.
Por outras palavras, Trump retaliou contra a retaliação da UE às tarifas de Trump.
E se a UE retaliar?
As tarifas são "o Wuindex [limpa-vidros] de Trump"
A escalada da guerra comercial alarmou investidores, diretores executivos e economistas - para não falar de uma parte crescente do público americano.
“Será que isto vai ficar fora de controlo?” Kent Smetters, diretor do corpo docente do modelo apartidário Penn Wharton, disse em entrevista à CNN.
Smetters, professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, onde Trump se formou, acha agora que é uma “incógnita” se a economia dos EUA vai entrar em recessão este ano.
O alargamento da guerra comercial era algo previsível.
Afinal, Trump está a aplicar tarifas, um instrumento comercial, a áreas não relacionadas com o comércio, como a imigração, o fentanil e a proteção do domínio do dólar americano. Trump chegou mesmo a falar da utilização de tarifas para pressionar a Rússia a fazer um acordo de paz.
“Este é o Windex [limpa vidros] de Donald Trump. Ele borrifa-o em tudo”, diz Lovely, comparando o amor do presidente pelas tarifas com o pai do filme ‘My Big Fat Greek Wedding’, que acha que o Windex pode resolver qualquer problema. “Qualquer restrição que tivéssemos em relação à política comercial que se mantivesse na faixa da política comercial desapareceu. Mas devo dizer que, neste caso, foram os EUA que começaram”.
A guerra comercial pode aquecer ainda mais
E Trump já deu sinais de que não vai acabar com ela tão cedo.
Apesar da crescente resistência de Wall Street, Trump ameaçou com uma vasta gama de tarifas adicionais, incluindo tarifas recíprocas agendadas para 2 de abril. Essas tarifas iminentes, se avançarem, podem desencadear novas retaliações.
“As últimas semanas recordaram-nos que o comércio é emocional. Os países podem levar as coisas para o lado pessoal. E há grandes personalidades envolvidas nestes dias”, explica Christine McDaniel, investigadora sénior do Centro Mercatus da Universidade George Mason e antiga responsável comercial do Presidente George W. Bush.
Ford, o político canadiano que ameaçou cortar a eletricidade dos EUA e que, por um breve período, impôs uma sobretaxa de 25% sobre as exportações de eletricidade, emergiu como um opositor particularmente vocal da política comercial de Trump.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum, por outro lado, adotou uma abordagem diferente. Na quarta-feira, Sheinbaum disse que o país iria esperar até 2 de abril para responder às tarifas de Trump.
Tudo isto está a aumentar a incerteza dos investidores e dos líderes empresariais.
“O comportamento humano é muito difícil de modelar e prever. Os economistas comerciais tiveram a vida facilitada durante 30 anos. Mas não temos modelos para este novo mundo”, refere McDaniel.
Alarme na direção
As empresas americanas estão cada vez mais preocupadas com as consequências da guerra comercial.
A Business Roundtable afirmou, na quarta-feira, que o seu Índice de Perspectivas Económicas dos CEO diminuiu e que os CEO reduziram os seus planos de contratação e investimento.
A grande maioria (85%) dos diretores executivos opõe-se à abordagem de Trump ao comércio, de acordo com uma sondagem de cerca de 100 grandes diretores executivos dos EUA no CEO Caucus do Yale Chief Executive Leadership Institute.
O evento de Yale, realizado em Washington na terça-feira e que contou com a participação dos CEO do JPMorgan Chase, da Pfizer, da American Airlines e de outras empresas, revelou que 94% dos CEO inquiridos estão preocupados com o facto de as tarifas serem inflacionárias e 85% acreditam que as tarifas de Trump estão a sair pela culatra.
Jeffrey Sonnenfeld, fundador do Yale Chief Executive Leadership Institute, explica à CNN que os líderes empresariais acreditam universalmente que existem razões legítimas para aplicar as tarifas de forma selectiva. Mas, Sonnenfeld disse que os CEOs estão “irritados” com as justificativas variáveis oferecidas pela administração para as tarifas de Trump.
“O ataque generalizado a aliados, em vez de nações adversárias e rivais, deixou os CEOs consternados e embaraçados”, afirma Sonnenfeld num e-mail.
É claro que é demasiado cedo para saber como a guerra comercial irá evoluir - e qual será o impacto final na economia e nos mercados financeiros.
Os líderes estrangeiros podem estar relutantes em continuar o ciclo de escalada para não prejudicar ainda mais as suas economias locais.
“Eles sabem que as tarifas são más para as suas economias. Isso poderia ser uma rutura natural neste olho por olho”, diz Lovely.
Também é possível que Trump seja forçado a reduzir a pressão tarifária se a economia dos EUA começar a enfraquecer realmente ou se Wall Street fizer uma birra ainda maior.
“O presidente está numa situação difícil e cada tarifa (ou ameaça de tarifa) torna a sua posição mais difícil”, explica Simon Johnson, diretor do grupo de Economia e Gestão Global do MIT, à CNN, por e-mail.
“Se ele continuar nesta direção, os preços vão subir e a economia vai abrandar ainda mais”.