Novas tarifas e preço do petróleo: como os EUA podem influenciar a economia e as eleições no Brasil

15 jul, 08:00
Donald Trump (Julia Demaree Nikhinson/AP)
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Governo Trump deve anunciar até ao fim desta quarta-feira se aplicará novos impostos sobre importações brasileiras

O prazo para os Estados Unidos anunciarem se vão adotar novas tarifas contra produtos brasileiros termina esta quarta-feira. A medida terá um impacto relevante na economia dos dois países, mas, sobretudo, na política brasileira, podendo influenciar o resultado das eleições de outubro.  

A iniciativa da gestão Trump ocorre cerca de um mês após um relatório do Gabinete do Representante de Comércio dos EUA (USDR) que sugere a aplicação de um imposto de 25% sobre importações brasileiras, excluindo alguns itens fundamentais para os americanos, como a carne. Entre as causas está o entendimento de que o Pix, sistema de pagamento desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, ofereceria uma concorrência desleal e, por isso, o país deveria ser sancionado.  

Segundo a BBC Brasil, que cita um estudo da Global Trade Alert, caso a nova tarifa entre em vigor, o Brasil será alvo da segunda maior cobrança alfandegária por parte dos Estados Unidos, atrás apenas da China. Enquanto os bens asiáticos são taxados em média 21,5%, os sul-americanos podem chegar a 14,9%.  

O número pode ainda ser mais relevante, uma vez que há a possibilidade de um imposto adicional de até 12,5%. Isso ocorreria em produtos em que os EUA entendam que o país falhou na tentativa de impedir o trabalho escravo.  

“No final, Trump vai conseguir tarifar produtos industriais que, na cabeça dele, dá para produzir dentro dos Estados Unidos”, analisa Sérgio Rodrigo Vale, economista-chefe e sócio da empresa de consultoria de análise macroeconómica MB Associados. “Não vai conseguir produzir, obviamente. Vai apenas aumentar o custo para os americanos”.  

Segundo Vale, para estes setores a situação é "muito complicada", e algumas empresas podem “sofrer muito”. Um exemplo utilizado pelo especialista é a Weg, companhia cuja subsidiária nos EUA é a segunda maior fabricante de motores elétricos do país norte-americano, segundo o jornal O Globo.  

Como contornar a situação?

No último ano, as tarifas impostas por Donald Trump contra o Brasil não causaram grandes problemas para a economia do país sul-americano. Agora, porém, a situação pode ser diferente, e Sérgio Rodrigo Vale entende que uma alternativa para mitigar estes efeitos negativos é ampliar as relações comerciais com outros mercados.  

“Tanto em termos de exportação quanto de importação, é provável que tenhamos uma possibilidade de penetração no mercado chinês, talvez o mercado europeu também”, analisa o economista. “O mercado americano vai ficar fechado, e uma parte importante disso não vai ser possível reverter”. Mesmo assim, Vale entende que um “problema macroeonómico grave” dificilmente irá acontecer.  

Segundo a CNN Brasil, em caso de novas tarifas, a posição pública do governo brasileiro será de manter as conversas com os americanos. No entanto, a articulação pela diversificação dos mercados será reforçada. 

O novo sistema de tarifas, porém, pode ter repercussões que vão além da esfera económica. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro tem tentado distanciar-se das acusações de que seria culpado pela decisão do governo Trump. Em 2025, o anúncio de novos impostos ocorreu após lobby de Eduardo Bolsonaro, que procurava punições contra autoridades brasileiras para influenciar o julgamento do seu pai, Jair, por tentativa de golpe de Estado.  

Flávio é pré-candidato à presidência da República e pediu para que os EUA adiem a decisão até depois das eleições de outubro, uma vez que a imposição de tarifas agora causaria um impacto positivo na campanha de Lula da Silva. Um dos melhores momentos do atual presidente nas sondagens de intenção de voto ocorreu justamente na guerra comercial com Trump em 2025.  

Por isso, o governo brasileiro não descarta a possibilidade de adiamento da decisão com o objetivo de fortalecer a campanha da extrema-direita na corrida presidencial, avança a CNN Brasil.  

“Por mais que exista uma parte da população brasileira que apoie um certo tipo de alinhamento com os Estados Unidos, existe um conteúdo nacionalista mínimo para um candidato ser competitivo no Brasil”, explica Jorge Chaloub, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A deia de que ele [Flávio] está completamente a serviço de uma potência estrangeira, de que está a prejudicar o país, é muito nociva”.  

Por outro lado, o académico concorda com a ideia de que Lula da Silva sairia fortalecido no caso de se verificar aquilo que os brasileiros já chamam de "tarifaço". Isso porque, segundo ele, a eleição está muito dividida entre dois candidatos que devem disputar a segunda volta nas eleições presidenciais. Deste modo, tudo o que prejudica um, no caso Flávio, ajuda o outro, nesta situação o atual chefe de Estado. Mesmo assim, os dois ainda estão próximos e "não há garantia” de quem sairá vitorioso.  

Sendo assim, a proximidade entre os candidatos faz com que toda a pequena crise possa ser decisiva. Chaloub explica que, mesmo que o novo ímpeto não mobilize milhões em apoio ao nome de esquerda, pode ser determinante para afastar alguns eleitores das urnas e “a própria desmobilização da campanha pode ser decisiva”. 

Crise do petróleo pode atrapalhar Lula da Silva

Por outro lado, a economia brasileira pode ser impactada pela crise do petróleo devido à guerra movida pelos Estados Unidos no Irão. Nos últimos meses, a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz ficou limitada e, assim, o preço dos combustíveis aumentou mundialmente.  

O país, no entanto, não foi um dos mais afetados. Sérgio Rodrigo Vale ressalta que a crise tem um lado positivo e um negativo. Enquanto os preços sobem, a Petrobrás é capaz de aumentar os lucros com exportações. Isso, inclusive, permite que a empresa não aumente tanto os valores cobrados na comercialização de combustíveis a nível nacional.  

“A Petrobrás segurou o preço, porque também teve esse benefício de uma maior entrada de recursos”, explica. “Por outro lado, o governo também fez subvenção de preços para o consumidor”. Deste modo, os valores cobrados aumentaram a ritmos menos acelerados que no resto do mundo.  

Para diminuir ainda mais o impacto, Lula da Silva aprovou o aumento da percentagem de etanol na gasolina simples de 30% para 32%. Isso, contudo, terá um impacto “relativamente pequeno”, entende o economista.  

Enquanto isso, a influência desta situação nas eleições pode ser relevante. Caso a guerra persista, e o preço dos combustíveis aumente cada vez mais, isso pode causar problemas para a reeleição do atual presidente. “Mesmo que o eleitor do Lula não vá votar no Flávio, isso pode desmobilizá-lo a votar [em Lula]”, explica Chaloub. “Parece-me que um cenário de crise, de recessão económica global e de aumento de preços globais, mobilizados pela guerra do Irão, é um risco grande para o governo Lula”, finaliza o professor.  

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