Enquanto os mercados financeiros se agitavam ao sabor dos anúncios erráticos de tarifas por parte de Donald Trump, algo mais profundo e menos visível pareceu desenrolar-se nos bastidores — uma mudança silenciosa nas dinâmicas de liderança global e nos ativos de refúgio
China e Trump: um confronto além das tarifas
No dia 7 de abril, os mercados tombaram significativamente, para dar início a uma recuperação quase sem precedentes no dia seguinte.
A razão? A jornada das tarifas, que já havia sido testada com o Canadá e o México. Trump anuncia novas tarifas — e tarifas revistas — a uma velocidade maior do que aquela que os mercados conseguem absorver. Os investidores, em resposta, ajustam as carteiras numa dança apressada entre proteção e oportunidade.
Em momentos de disrupção, há sempre ativos ganhadores e perdedores.
A China, neste caso, parece ter surgido para salvar o mundo e, ao fincar o pé de forma verdadeiramente determinada, ameaçou enviar os EUA e as suas políticas erráticas de tarifas para o canto da insignificância.
Quando todos os países se preparavam para uma reação ajoelhada perante a forte disrupção imposta pela administração Trump, a China puxou dos galões dos seus 5000 anos e afirmou destemidamente que nada do que possa advir do comércio com os Estados Unidos pode pôr em causa a sua consistência.
Com essa atitude, a China pôs fim a uma guerra global de tarifas, chamando a si a batalha final. Fez aquilo que os países que aspiram à liderança devem fazer.
Trump acabou momentaneamente isolado por quase todos os países, desde os vizinhos aos mais distantes, e viu-se obrigado a voltar elegantemente à estaca zero — sem que isso parecesse um retrocesso.
As empresas americanas, e até os próprios apoiantes de Trump, vieram a público explicar que não há produção americana possível com as tarifas impostas, porque praticamente não existem cadeias de valor sem componentes estrangeiras. Perceberam, em poucos segundos, que a retaliação de todos os países afetados pelas tarifas seria feita sobre as partes mais críticas, condicionando os planos da produção local. Pior ainda: as empresas americanas estão entre as mais globais e, portanto, qualquer impacto na globalização afeta-as de forma direta e imediata.
A China não fez barulho perante as tarifas. Respondeu com reciprocidade, de forma direta e imediata, sem entrar em discussões públicas ou privadas. Foi essa (não) reação chinesa que tornou tudo verdadeiramente assustador.
Mais do que isso: a China desmentia inclusivamente o presidente americano sempre que este afirmava que as partes estavam a procurar uma solução. Xi Jinping foi peremptório: não há conversa perante medidas unilaterais.
Os mercados já recuperaram, mas a reputação americana ainda não
A um dia de terror nos mercados seguiu-se um dia de esplendor e, desde então, os mercados têm recuperado. Um dos que teve melhor desempenho foi o DAX — o índice alemão —, que recuperou das perdas e já quota acima dos valores pré-tarifas. Os mercados asiáticos também parecem ter ignorado a iniciativa de Trump e têm subido de forma consistente.
Trump parece estar a recuar, e tudo pode voltar a ficar muito próximo do que estava. Exceto a reputação americana. Essa levará mais tempo a recuperar e exigirá outras iniciativas, como aquela que aparentemente fez parar as hostilidades entre a Índia e o Paquistão durante esse fim de semana.
O dólar, um bom indicador de reputação e estabilidade, caiu significativamente — está cerca de 10% abaixo dos máximos do ano. Já o ouro subiu vertiginosamente ao longo dos últimos meses. E é aqui que entra a bitcoin.
Estará a bitcoin a conquistar o estatuto de ativo refúgio?
A bitcoin manteve-se afastada das discussões até surgir, de novo, com força, ao quotar acima dos 100 mil dólares.
Os mercados corrigiram quase todos após a aplicação das tarifas americanas. Matérias-primas, ações — quase tudo desceu, exceto a dívida americana e o ouro. Mas houve uma estrela no meio de todas essas correções: a bitcoin.
Quando os mercados contraem, há uma corrida natural aos ativos considerados mais seguros: ouro, dólar, obrigações, dívida soberana. A bitcoin resistiu às quebras de forma surpreendente. Desceu, sim, mas muito pouco para um ativo novo e, até agora, de alto risco.
Mesmo quando quase nada escapou às quedas, a bitcoin manteve-se firme. Isso pode indicar que está a conquistar um novo estatuto de refúgio — como analiso no artigo “Esta guerra EUA-China já não tem nada a ver com tarifas e nela a bitcoin pode ser o refúgio”.
Mais ainda: a bitcoin parece agora estar em contraciclo com o ouro e a recuperar bem acima do mercado acionista, o que pode indicar o início de uma guerra institucional pela constituição de reservas estatais em bitcoin.
Já há vozes nos EUA a defender que a Reserva Federal deveria aproveitar a valorização do ouro para vender parte das reservas e comprar mais bitcoin, como forma de diversificar os seus ativos. Trump terá anuído a essa ideia, com a condição de que não implicasse custos para os contribuintes. O plano alternativo em discussão seria, precisamente, vender ouro caro para comprar bitcoin — mantendo o orçamento equilibrado.
Ainda é cedo para tirar conclusões, mas os indicadores de correlação entre ouro e bitcoin parecem sugerir esta hipótese. Fortes quebras no ouro têm, por vezes, sido acompanhadas por subidas na bitcoin.
Se a Reserva Federal começar a adquirir ativamente bitcoin, estará a dar um passo decisivo na legitimação da criptomoeda — com potencial para gerar uma corrida ainda mais intensa do que aquela que levou milhares ao faroeste.
Um dólar fraco, uma Reserva Federal a comprar bitcoin, a mudança de perceção do risco associado ao ativo, a aceitação por parte dos bancos e o entusiasmo da administração americana — que inclui membros da família presidencial com investimentos em criptomoedas — podem estar a acontecer ao mesmo tempo que o mundo discute tarifas.
A bitcoin passa os 100.000 USD em silêncio
Quase sem alarido, esta semana a Bitcoin ultrapassou novamente os 100.000 USD. Estava esta segundo-feira de manhã nos 103.550 USD — com a vantagem de já não ser a primeira vez que atinge estes valores.
A pergunta que se impõe é: se a bitcoin chegou aqui em quase silêncio, enquanto os mercados andavam ao sabor de tweets, o que acontecerá quando houver nova euforia?
A ascensão da bitcoin não é apenas uma reação ao cenário volátil provocado pela guerra comercial entre EUA e China. É o reflexo de uma mudança mais ampla nas dinâmicas económicas e geopolíticas globais. À medida que a confiança em ativos tradicionais oscila, a criptomoeda parece posicionar-se como uma alternativa cada vez mais legítima — não apenas como refúgio, mas como uma nova forma de segurança financeira no século XXI.
Se a tendência se confirmar, e se as reservas em bitcoin se tornarem parte das estratégias de diversificação de grandes potências, o impacto na estabilidade económica mundial poderá ser profundo. O que antes parecia distante e especulativo pode estar, silenciosamente, a tornar-se realidade.
E a verdadeira questão passa a ser: em que momento a bitcoin deixará de ser uma novidade e passará a ser a norma?