O primeiro pedaço da TAP vai ser vendido, num processo que só estará concluído em 2026
Se você quiser vender património – uma casa, um terreno, um automóvel – o que irá dizer sobre ele? Que é incrível, que está em bom estado, que é uma maravilha. Ora, o primeiro-ministro quer vender a TAP e o que diz ele? Valoriza, claro: diz que vamos vender porque “não queremos deitar mais dinheiro num poço que não tem fundo”...
Enfim, já percebemos que Luís Montenegro não tem bom discurso de vendedor, mas até sabemos que na vida privada – na Spimnumviva - ele já mostrou que é um bom angariador de clientes. Para a TAP já há pelo menos três - e grandes, um de Inglaterra e Espanha, outro de França e Países Baixos e ainda um da Alemanha.
E portanto cá vamos nós vender a TAP outra vez.
Sou favorável à privatização da TAP há mais de dez anos – até porque o que é estratégico para Portugal não é a TAP em si, são os aeroportos – e é por isso obrigatório que qualquer venda da TAP garanta o hub de Lisboa - e nem estou a falar do mítico novo aeroporto (que já teve muitas primeiras pedras e possivelmente nunca terá uma última pedra), estou a falar do atual. Manter o hub de Lisboa vale mais do que qualquer dinheiro que o Estado receba agora. E já aprendemos com o péssimo negócio da privatização da ANA que receber muito dinheiro à cabeça é bom mas melhor ainda é garantir parte de lucros futuros.
Não entro no ataque aos privados, o que em Portugal é uma espécie de desporto favorito, sobretudo dos políticos que gostam de entrar com os pés e de sair lavando as mãos. Na ANA, a Vinci foi muito competente na negociação da contrato, o Estado é que não. E na TAP, já agora, os privados também têm as costas largas. Em 2015, a TAP estava insolvente, tinha sido arruinada em parte por um negócio trágico no Brasil que devia ter sido um caso de polícia, e tinha aviões velhos e caros, porque o Estado estava impedido de investir. David Neeleman não é nem foi anjinho, mas só havia outro interessado, o boliviano Efromovich, que acabou investigado por casos de polícia. A privatização salvou a TAP e Neeleman deu à empresa e a Portugal uma nova árvore de dinheiro, a dos dólares, hoje o país está cheio de turistas americanos – que são muitos e têm muito poder de compra – e deve-o em grande parte… à TAP.
Acontece que, naquela privatização, nós pagámos para vender. Em 2015, o governo de Passos Coelho vendeu a TAP por uns míseros 10 milhões mas depois o governo de António Costa pagou 50 milhões para reverter parte dessa venda – sim, pagámos para vender. A companhia estava tecnicamente falida e perdia dinheiro todos os dias.
Agora não. Agora a companhia tem aviões novos, tem rotas pujantes dos EUA e do Brasil, tem lucros – e ainda veremos alguém a oferecer talvez acima de dois mil milhões de euros de avaliação, quase dez vezes mais do que há dez anos. É bom. Só que isto foi depois de mais de 3,2 mil milhões investidos pelo Estado. Vamos receber menos do que injetámos. Como no Novo Banco, os lucros ficam para os privados, e pagamos para vender. Como na TAP há dez anos, pagamos para vender. Como a TAP agora, pagamos para vender – e já fizemos pré-pagamento.
Ou como diria Luis Montenegro, comprem comprem, companhias aéreas, comprem: isto é um poço que não tem fundo, vendemos ao melhor preço. Inclui ótimas rotas para si – e grandes derrotas para nós.