Pilotos acusam Medina de "falta de honra e lealdade", apontam a Christine “erros de gestão grosseira” na TAP e apelam ao Governo: "Deixem o novo CEO gerir. Não se pode gerir por WhatsApp"

26 abr 2023, 22:06
Falta de tripulação vai levar ao cancelamento de 200 voos da TAP só em maio: “O verão vai ser um caos”, dizem pilotos

Para o SPAC, se o Governo tivesse cumprido a vontade inicial, “não havia TAP”. O diálogo dentro da empresa era difícil e foi mesmo necessário recorrer ao ex-ministro Pedro Nuno Santos. E Manuel Beja? “Não aparecia na empresa”. Nem Medina e Galamba escaparam às críticas

O Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) acusa a antiga presidente executiva da TAP de “erros de gestão grosseiros” e lembrou que, se o Governo tivesse levado a sua intenção de despedir 457 pilotos, hoje “não havia TAP”. Na comissão parlamentar de inquérito à gestão da TAP, Tiago Faria Lopes destacou os “erros de gestão grosseiros que não são compatíveis com o suposto currículo da CEO, a engenheira Christine” Ourmières-Widener, afirmou.

E elencou os ditos erros: os aviões de passageiros convertidos em carga, com um “legado de 40 milhões”, a renúncia de contratos com a White, as contratações externas, incluindo de “amigos” que vieram “sem cortes de ordenado”, assim como a falta de planeamento de frota e tripulação que levou à contratação da Air Bulgaria -  “que não falam português ou inglês”.

Apelo ao Governo: "Não se pode gerir pelo WhatsApp"

Tiago Faria Lopes lembrou a intenção do Governo de despedir 458 pilotos. “Despediram cento e poucos”, contextualizou. Para chegar a uma conclusão: “Se o Governo tivesse despedido 458 pilotos, como queria, esta comissão de inquérito não existia porque não havia TAP”.

Os pilotos mostram-se “muito preocupados” com a situação relativa aos cortes salariais, lembrando que “a Comissão Europeia pedia 20% de corte nos custos - não era em trabalhadores”. Tal como outros sindicatos, admitiu a existência de profissionais "obrigados a sair da companhia", embora as suas saídas seja identificadas como rescisões por mútuo acordo. 

O dirigente lembrou outras decisões da gestão, como as questões da frota ou da mudança de sede na TAP. “Pelo que nos diziam, tudo era fruto do plano de reestruturação. Mas a única coisa que se mantém é o corte dos trabalhadores”, lamentou.

O piloto antecipa um "verão muito complicado" no que respeita à operação da TAP. "Falta de planeamento. São as mesmas pessoas." Tiago Faria Lopes lembou que Luís Rodrigues, o novo presidente executivo da TAP, "fez trabalho visto no grupo SATA". Mas lembra os desafios no novo cargo: "Não tinha esta companhia como está, toda destruída", e "não teve interferência política".

Por isso deixou um apelo ao Governo: "Que não haja interferência política na companhia. Deixem Luís Rodrigues e a sua equipa gerirem, de uma vez por todas. Não se pode gerir pelo WhatsApp".

Manuel Beja? “Não aparecia na empresa”

Tiago Faria Lopes destacou também a falta de diálogo dentro da própria TAP. “Já que não conseguíamos chegar à engenheira Christine, tínhamos de chegar ao acionista”, concretizou, sobre a necessidade de contratação de pilotos para garantir a operação. E houve reuniões com algum ministro? Com Pedro Nuno Santos, respondeu.

E havia relação com o presidente do conselho de administração, Manuel Beja? “Ele não sabia destes problemas porque não aparecia na empresa”.

O dirigente falou num corte de 200 milhões, face a 2019, em custo com pessoal. E lembrou que houve um aumento de receita de 200 milhões de euros que não foram dirigidos para os salários dos trabalhadores. Questionado pelo PSD se, sem esses cortes salariais, a TAP teria tido prejuízos em 2022 (ao contrário dos lucros de 65,6 milhões de euros em 2022), não concretizou.

“Acho que o Estado antecipou-se ao despedir o privado”, disse ainda o piloto, que afirma não conhecer o plano de reestruturação. E sobre o futuro, como será? Perante a incapacidade do Estado em financiar-se, “não há outra hipótese a não ser privatizar a companhia”.

“O Estado entrou como deveria entrar mas não saiu quando deveria sair, essa é que é a verdade”, afirmou.

Tiago Faria Lopes disse desconhecer, de forma oficial, a existência de um processo de privatização. Mas reconhece que há um grupo de empresários portugueses que “estão interessados”. E apelou ao Governo para não restringir o processo a companhias de aviação.

“Divergências” entre TAP e White

Tiago Faria Lopes admitiu existência de “divergências” entre a TAP e a White Airways, o que poderá ter ditado a renúncia dos contratos. “O que é facto é que a White deixou de operar para nós. Tinha um histórico grande ligado à TAP. Esteve no risco de fechar, uma companhia portuguesa que fechava e sobrecarregava a segurança social. Não teve ajudas na covid”, explicou.

“Dependendo da TAP, era de prever que essa companhia havia de ficar em muitos maus lençóis”, acrescentou. E lamentam que não sejam públicos os motivos que ditaram o fim da ligação entre as duas empresas.

Bernardo Blanco, da Iniciativa Liberal, lamentou já ter pedido à TAP documentação sobre a operação da White que, apesar de já terem passado 10 dias, ainda não recebeu.

Críticas a Medina: “Falta de honra e lealdade”

O dirigente não poupou críticas a Fernando Medina, ao lembrar que o SPAC tinha um acordo para cancelar a greve da Páscoa. Contudo, faltava a assinatura do ministro das Finanças. Para o sindicato, Medina “faltou à palavra”. “Se o acordo estava fechado tinha de ser cumprido. Descobrimos que faltava assinatura de Fernando Medina. Não sabemos, sabemos que não foi assinado, foi uma falta de responsabilidade, honra e lealdade. Marcámos a greve por isso, não foi por mais nada”, contou.

Tiago Faria Lopes também considerou que João Galamba “não teve comportamento digno de ministro” durante as negociações que levou a cabo com o SPAC – uma situação que, garantiu, foi ultrapassada.

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