O que tem a TAP? Uma “polaca missing in combat”, uma “francesa que não conhecia a empresa" e bónus pagos “em segredo”

27 abr 2023, 16:58
Cristina Carrilho, coordenadora da Comissão de Trabalhadores da TAP

Comissão de trabalhadores foi muito crítica da postura da administração da companhia, em especial de Christine Ourmières-Widener, que acusa de falta de conhecimento da realidade da empresa. Bónus, prémios e indemnizações haverá vários, mas é “tudo feito em segredo”

A comissão de trabalhadores da TAP acusa a administração da transportadora aérea de “falta de transparência” sobre o plano de reestruturação e reconhece a existência de mais prémios, bónus e indemnizações pagos “em segredo” para além de Alexandra Reis.

Na comissão parlamentar de inquérito à gestão da TAP, a coordenadora Cristina Carrilho foi muito crítica quanto à atuação da ex-presidente executiva Christine Ourmières-Widener, que considerou ter falta de conhecimento da realidade da empresa.

“É do conhecimento comum dos trabalhadores da TAP que, ao longo do tempo, não é só de agora, que têm sido dados pela TAP bónus, prémios, indemnizações, o que lhe queiram chamar, a determinados quadros”, afirmou.

Contudo, deixou a ressalva de que “arranjar provas é muito difícil”. “É tudo feito no segredo, por baixo dos panos, alguns se calhar até vem de um saco azul. Não é comunicado a ninguém”, concretizou.

Questionada sobre Fernando Pinto, que assinou um contrato milionário para prestar consultoria à TAP depois de deixar a liderança da empresa, a porta-voz dos trabalhadores reconheceu a existência de outras situações semelhantes, para “dar apoio à administração”. Citou mesmo o exemplo de um antigo administrador financeiro. Em janeiro, a CNN Portugal noticiou que a ex-administradora financeira Teresa Lopes recebeu uma indemnização milionária para sair da empresa, onde ficou como consultora.

Mas se Cristina Carrilho ainda chegou a ver Fernando Pinto “uma vez na empresa” depois de ter deixado a presidência, o mesmo não se pode dizer da “senhora polaca” Karolina Tiba, contratada pela TAP como diretora para negociar com os tripulantes. Até houve uma circular a informar da contratação, mas não se seguiu uma segunda comunicação para concretizar as alterações na estrutura.

“Não sei se a senhora está na TAP, se está a trabalhar na TAP, nunca a vi” “Está missing in combat, desaparecida em combate”, brincou.

(Lusa)

O cliente da TAP não chega “com a mochila às costas, dorme na praia e vai comer ao McDonalds”

A comissão de trabalhadores da TAP diz não ter conhecimento do plano de reestruturação, porque aquilo que lhes chegou foi um documento “incompleto”, sobre o qual tiveram de emitir um parecer.

Cristina Carrilho insistiu que havia alternativa aos cortes salariais na empresa, culpando a “BCG e a Rebelo de Sousa e Associados”, respetivamente consultora e sociedade de advogados que apoiaram a TAP neste processo.

Mas, à falta de cedência, “pedíamos à empresa que quando houvesse uma recuperação da operação e que fosse necessário trabalhadores, que primeiro fossem chamados aqueles que estavam a ser despedidos”, concretizou.

Para a comissão de trabalhadores, a TAP não deveria ser privatizada. “É estratégica para o país, garantia da soberania e da diáspora”, argumentou, citando os argumentos de vários ministros. E lembrou que o Estado não irá fazer serviços que não considera rentáveis.

O impacto da TAP, recordou, vai além da companhia, em especial no turismo. E deu um exemplo: “A TAP não é uma low-cost, embora aparentemente queiram fazer dela uma low-cost. O cliente TAP é uma pessoa que vem comer em bons restaurantes, para ir ver um bom espetáculo, ficar num bom hotel, não é como o cliente de outras companhias que vem com a mochila às costas, dorme na praia e vai comer ao McDonalds.”

“Esta administração tem andado aos papéis”

Cristina Carrilho preferiu não chamar os contactos com a administração da TAP de “diálogo”. Foram antes “encontros poucos aprazíveis”, que tiveram lugar uma vez por mês porque a estrutura que representa os funcionários quis fazer valer o direito previsto no Código do Trabalho.

A “senhora francesa” quis saber se os trabalhadores estavam do lado da administração, mas cortou a ponte quando a comissão lhe disse que apenas para as “opções favoráveis aos trabalhadores”.

“A senhora tinha um objetivo: cumprir o plano de reestruturação. Porque, se o cumprisse, ainda recebia mais dois ou três milhões. Talvez a senhora vá de cortar a direito, sem pensar em mais nada, sem conhecer nada”, atirou.

Já sobre o presidente do conselho de administração Manuel Beja, reconheceu que lhe ligou a apresentar-se e a dizer que não ia reunir-se com a comissão de trabalhadores, porque iria estar a “promover a TAP lá fora”.

Cristina Carrilho, que trabalha no apoio ao cliente da TAP, também criticou a administradora Silvia Mosquera, que se demitiu em março passado. Apesar de ser a responsável pela parte comercial, “não tem a mínima noção como é que o contact center funciona”, defendeu.

E concluiu: “Esta administração tem andado aos papéis. É tudo muito secreto, muito confidencial, transparência não há.”

(Lusa)

Sem infantário, “absentismo vai subir”

Um dos pontos que gerou tensão entre a comissão de trabalhadores e Christine Ourmières-Widener foi a vontade da administração de fechar o infantário que existe na TAP. “A senhora era francesa, não conhecia a empresa”, insistiu.

“O infantário existe há 50 anos. Há 50 anos que o infantário nunca foi licenciado. Há 50 anos que a Segurança Social diz que não é edifício para infantário, que tem de levar obras. E a TAP contrapõe”, o que permite manter o funcionamento, explicou.

A alternativa dada, concretizou, arrancaria às 07:30. Um horário que não é útil para os tripulantes com filhos que têm, por exemplo, de entrar às 05:00. A manter-se esta vontade da TAP, avisou, “o absentismo vai subir". "E se já estamos com 200 cancelamentos para o verão, imagine-se com este absentismo.”

“Não era um negócio, era uma negociata”

Houve ainda tempo para analisar o negócio da manutenção no Brasil, da VEM/Varig. Cristina Carrilho lembrou que “as razões [para a continuidade do negócio] que têm sido apontadas prendem-se com a própria lei federal do Brasil”, com o argumento de que “não é fácil fechar um negócio, fechar uma empresa”.

“Ainda hoje existem pontas soltas, com indemnizações a pagar e acordos a fazer”, a que é preciso estar atento para que mais tarde não haja nada “que venha morder no rabo da TAP”, disse.

Já sobre a compra de aviões Airbus por David Neeleman, a um preço superior ao do mercado, numa operação que permitiu financiar a entrada na TAP, foi categórica: “Não lhe chamo negócio, chamo negociata. O que soubemos é que ele tinha feito um acordo com a Airbus para que a TAP em vez dos 350 recebesse os Neo, e os 350 iam para a Azul. Os meandros do negócio nunca soubemos.”

Na altura, referiu, pareceu que “alguém estava a levar dinheiro ao bolso”. “Só que ninguém, infelizmente, acredita na comissão de trabalhadores”, lamentou.

(Lusa)

 

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