Presidente da Câmara de Loures gravou um vídeo que divulgou no Facebook para anunciar que não recua nas demolições no Talude Militar. A publicação teve impacto e gerou muitos comentários, que aqui reproduzimos ipsis verbis - por isso verá palavras a demolir a Língua Portuguesa, como "imponidade" e "por sima" - e verá também o desejo que alguns têm em transformar Ricardo Leão no próximo primeiro-ministro (apesar "de ser do PS", partido em que um dos autores dos comentários já não vota por haver por lá "feministas"). “Penso que esteja no partido errado, força presidente”, escreve outra pessoa. Leva um abraço de Ricardo Leão
Ricardo Leão apareceu quinta-feira num vídeo no Facebook sem filtros nem meias palavras: diz que não vai recuar nas demolições do Talude Militar, promete continuar a apoiar quem precisa e critica quem, acusa o próprio, está a tentar cavalgar a fragilidade alheia.
“Não posso aceitar que movimentos políticos ou figuras públicas se aproveitem da pobreza e da fragilidade de algumas pessoas apenas para ganhar protagonismo”, afirma no vídeo, publicado quando as máquinas já estavam paradas por ordem do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, na sequência da providência cautelar interposta pelos moradores. O Ministério Público também já está a investigar.
A regra é clara para Ricardo Leão: “Esta não foi a primeira intervenção nem será a última. Não permitimos que se viva em condições desumanas, ilegais e perigosas. Não permitimos no concelho de Loures a construção de barracas - não por falta de empatia, mas porque é única forma de garantir a segurança e justiça para todos”.
Este discurso do autarca logo recebeu, e continua a receber, centenas de “gostos”, partilhas e comentários na publicação do Facebook. Ao longo do dia de quinta-feira, e em todos os comentários sem exceção, o autarca devolveu o like e, à maioria, respondeu nem sempre mas quase com “obrigado” — às vezes um “muito obrigado” —, “abraço” — normal ou “forte” —, e chegou nalgumas respostas a cruzar tudo isto: “muito obrigado e forte abraço”.
Em poucos haveria Ricardo Leão de comentar além da formalidade, mas também há situações em que o fez. Como quando quis responder “verdade, infelizmente” ao comentário da seguidora Sandra, que assegurava que “eles vão construir noutro sítio” — “eles” são, pois, os desalojados do bairro do Talude.
Fana, diminutivo masculino, quer que Leão continue e seja ele um exemplo para autarcas do país, porque é preciso “dar uma volta” e “acabar com a imponidade”. Assim mesmo, com um “O”. Leão manda um abraço.
José, utilizando da bandeira de Portugal que nos comentários de apoiantes de partidos extremados e populistas é recorrente e simbólico, diz que este autarca deve continuar: “força Leão”. “Bota abaixo todas as barracas em Portugal”, pede, porque Portugal “não é um país de barracas”. Leão faz like.
Ricardo, não o Leão mas outro Ricardo, entre “parabéns” sugere que “se no PS houvesse muitos” como Ricardo, o Leão, “o partido não estava como esta”. Escreve “esta” e não “está” — não corrigimos porque poderá ser consciente, embora não conclusivo. Leão manda um abraço, “forte”.
Maria de Fátima considera que o Talude era um “verdadeiro aterro de gente”, gente que “em condições normais” já não terá “asseio” - “quanto mais assim”. Leão manda-lhe um abraço.
Luísa elogia a “determinação” do autarca. “Se nada se fizer voltamos a ter barracas em todo o lado. Esta imigração descontrolada está a dar cabo do nosso país.” Leão envia a Luísa um “forte abraço”.
Manuel escreve de chofre, sem pontuação, só com uma caixa alta — nem “leão” nem “portugal” merecem a maiúscula: “Força leão estamos em portugal”. Do autarca de Loures recebe um “abraço”.
Rui diz que “gostou muito de ver” o vídeo e a atuação (ou demolição) no Talude. “É correto e é contra os malandros que só querem viver à custa de subsídios do Estado, principalmente ciganos.” Levou um gosto.
Andreia assume: “Não voto no PS”. “Mas se tivessem sido todos assim, o governo não tinha caído.” Recebe um “forte abraço” do homem que Andreia diz ter uma “ótima postura” no caso do Talude.
“Grande Leão”, escreve António, cuja foto de perfil é a bandeira nacional. “Estamos na Europa não em África”, assinala. Ricardo Leão deixa-lhe o seu “abraço”.
Feci escreve que a “gentalha” do Talude fez barracas “com intuições”. O que intuíram eles? “Receber casas.” Feci está indignado. “Será que podem passar por sima de todos que estão na fila? Câmara tem que ter atenção, em cada uma que constroem manda baixo.” Aquele “sima” demoliu o C, recebe um abraço do autarca.
João Pedro proclama um “boa presidente Leão”, pede-lhe, a Leão, que vá “sempre em frente”. Termina desta forma: “barracas vão fazer na praia”. Leva também um abraço do autarca no Facebook.
Maria Paula acredita que “fazem barracas” já com uma “idéia”. A palavra está acentuada. A “ideia” é de terem uma casa “a preço de saldo”. Deixa a Leão um “bem haja” e recebe um like na volta.
Eduarda acredita que o “Sr. Presidente” está “do lado certo da razão”. “Tristeza dos seus colegas de partido que escreveram a carta. Assim estão a enterrar o PS.” Recebe um abraço como outros. A carta a que se refere é uma carta aberta assinada por militantes e simpatizantes do Partido Socialista e acusa a Câmara de derrubar barracas sem redes de segurança para quem lá vivia e vive. Na carta, pede-se ao partido que seja fiel aos valores humanistas que apregoa.
João pede “direitos e deveres iguais para todos”. Senão “qualquer dia até no parque das tinalhas começam a construir barracas na esperança de ganhar uma casa da câmara!” Leão teve, para João, “coragem para fazer os que os últimos executivos não tiveram coragem para fazer”. Recebe um “obrigado”.
Paulo escreve um longuíssimo (também os há — e não é por isso que Leão deixará de interagir) texto. O essencial é isto: “Pensam que vão ter habitação municipal por estarem numa barraca, querendo passar à frente dos que estão em lista de espera”. E mais isto: que “algumas destas pessoas sabem muito bem ao que vêm”, mas “para esperto, esperto e meio”. Bate “palmas” à Câmara “por ter coragem de cumprir a lei” e a Leão por este “não ser anjinho como outros”. O que Paulo quer da Câmara e de Leão é isto: “tenhamos tomates” — para “tomar decisões”. Recebe um obrigado.
João dirige-se ao “grande presidente”, homem que para ele está a “fazer o que deve ser feito”. Porque se não o fizesse, “agora nas autarquias o deputado do Chega tirava-te o lugar”. Assim, João “acredita” que Leão até continue, para “continuar com esse bom trabalho”. Remata com não uma mas três bandeiras nacionais. Recebe um obrigado.
Filipe Pipo diz que não vota no partido de Ricardo Leão. “Deixei de votar no partido socialista, porque não me identifico com as feministas que estão dentro do partido”. Recebe um “forte abraço” na volta.
Herculano, como Filipe Pipo, não é um “simpatizante nem militante ps”. Mas apoia este “grande homem”, Ricardo Leão, porque é “honesto e sincero” e “não tem medo das manobras dos comunistas nem respetivos parceiros”. Pede no fim a Leão que “acabe com essa podridão”. Recebe um forte abraço como outros.
Nuno Manuel exclama ser preciso “manter o rumo e postura e não ceder!” A população, assegura, “está consigo não está com o partido”. “A população está com o homem, não está com o militante do PS!” E augura: “Se ceder a pressões do seu partido, vai sofrer com isso nas próximas eleições… Não queremos barracas, nunca mais!!!” O abraço de Leão é “forte", mas não exclamativo.
“Olhe Sr.Presidente se algum dia concorrer a primeiro ministro o presidente o Sr. Tem o meu voto.” Escreve, como aqui está transcrito, integralmente, Jorge Augusto. “Muito obrigado. Forte abraço”, atira Ricardo Leão.
Paula Cristina escreve isto, desta maneira: “Os outro nao respondem porque querem viver em barracas por isso vao para o pais deles voltem para as sanzalas força Ricardo Leão estamos contigo se for preciso vamos para a rua apoiar-te”. Recebe do autarca um “muito obrigado” e um “forte abraço”.
“Penso que esteja no partido errado, força presidente”, escreve José, com um emoji — este: 👍 — no final. Recebe de Ricardo Leão um abraço, sem emoji.
Pedro diz que “não vale a pena dar casas a alguém que tem 3 filhos sem condições”. Leão deixa “gosto” aqui.
Hugo fala diretamente ao “Presidente”. “O que você fez e o que devia ser feito de norte a sul de Portugal.” O comentário merece um like de Ricardo Leão.
A CNN Portugal procurou contactar - sem sucesso - Ricardo Leão, para perceber por que motivo o autarca reagiu desta maneira a comentários que sugerem, entre outros, o regresso dos moradores do Talude “à sanzala”, que dizem dos moradores que são “aterro de gente” sem nenhum “asseio”, que atuam com “imponidade” e “esperteza”, comentários onde se escreve que “barracas vão fazer na praia” ou, como vimos no fim, “não vale a pena dar casas a alguém que tem 3 filhos sem condições”.
Afinal, o que diz no Facebook Ricardo Leão?
“Há movimentos e associações e figuras públicas que em nome de uma suposta solidariedade acabam por promover a indignidade. A ideia de que basta construir uma barraca, ocupar ilegalmente um terreno ou instalar sem regras para ter de imediato uma casa é profundamente desonesta para com as mais de mil famílias que estão em espera por habitação municipal, mas também para as que cumprem, que aguardam com dignidade e confiam nas regras e nas instituições”, ouve-se de Leão.
Promover a desordem, insiste o autarca, “não é ser solidário, é ser cúmplice de um ciclo de exclusão e injustiça”. E acrescenta: “Falamos de direitos e deveres, mas também de dignidade, justiça social. Não é dar a quem grita mais. É garantir que todos têm os mesmos direitos, deveres e as mesmas oportunidades”.
Loures, avisa quem dela é presidente da Câmara, não pode carregar sozinha o peso do problema. “Não é uma questão local, é uma realidade que se repete em muitos concelhos da área metropolitana de Lisboa. Exige responsabilidade partilhada com o próprio Governo, cooperação com os municípios e planos com critérios claros de justiça.”
Das demolições às tendas, de Marcelo à Procuradoria
Antes das máquinas que foram ao Talude derrubar e demolir, o autarca garante que houve informação e acompanhamento. “Todas as pessoas foram informadas e abordadas pessoalmente pelos serviços da Câmara antes da operação, durante a operação e depois da operação.” Depois, os números: “Dos 65 editais de demolição, demolimos 55 construções ilegais. 43% tinham morada oficial fora do concelho. Lamento aliás que só 29 famílias tenham recorrido ao atendimento social e não a totalidade”.
Das propostas de acolhimento, a maioria foi recusada, diz. “Três famílias aceitaram, estavam em hotel, e outras três foram apoiadas com alojamento definitivo. Estamos também com outras três ou quatro situações em avaliação para o mercado privado de arrendamento. Das famílias que nos procuraram, ninguém ficou sem resposta social”, assegura Ricardo Leão.
E fecha sem margem para recuo: “Não posso aceitar que a indignidade seja promovida”.
As demolições começaram na segunda-feira: 64 construções precárias na mira, 161 pessoas a viver no Talude Militar — entre as quais crianças e idosos. No primeiro dia foram abaixo 51 casas. Era segunda-feira. Mais quatro foram abaixo na terça-feira. Depois, a já sabida pausa imposta pelo tribunal.
Até aí, nenhuma alternativa habitacional garantida, denunciam os movimentos e denunciam as associações que trabalham no terreno com aqueles moradores e aquelas famílias — embora, como diz Ricardo Leão no Facebook, a Câmara tenha colocado algumas famílias em hotéis e anunciado apoios para arrendamento no futuro.

Várias noites depois, como se descobre numa grande-triste-comovente-chocante reportagem da TVI e CNN, há muitas que continuam em tendas ou ao relento.
A polémica saiu do bairro e chegou a Belém. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, pediu respostas para algumas perguntas: “Quem são estas pessoas? Trabalham? Descontam para a Segurança Social? Há quanto tempo lá estão? Porque é que o problema só se levantou agora? É para resolver de forma duradoura ou tapar remendos?” Quer saber, reforçou, se existe uma solução global ou apenas paliativos. Em resposta ao Presidente, organizações e especialistas dizem que estas perguntas “ignoram a Constituição" e "reforçam o discurso de ódio”.
“Da nossa parte, e do contacto que temos com o terreno, as pessoas que estão a ser despejadas são, na sua maioria, pessoas que trabalham”, assegura Rita Silva, investigadora em questões de habitação, ativista do movimento Vida Justa e membro do coletivo Habita. “Aquelas que não trabalham é porque não podem — porque estão doentes, porque têm alguma especificidade, porque são idosas ou porque são crianças.” Ainda para Rita Silva, a realidade sobre a qual o Presidente deve refletir é esta: “Há pessoas que trabalham, mas com o rendimento que têm do trabalho não conseguem aceder a uma habitação”.
Entretanto: a Procuradoria-Geral da República abriu um inquérito às demolições, depois de Helena Roseta, autora da Lei de Bases da Habitação, admitir denunciar a Câmara por abuso de poder.