Como a China está a treinar uma "marinha-sombra" para uma possível invasão a Taiwan

CNN Portugal , MCC
20 nov, 21:00
Navios China (Getty Images)

Escala e detalhe das movimentações observadas têm vindo a fazer crescer preocupações em Taiwan e entre analistas norte-americanos, que veem nestas operações uma aceleração nos preparativos chineses para um possível ataque à ilha que Pequim considera território seu

A China está a mobilizar uma vasta frota de navios civis para apoiar eventuais operações militares no Estreito de Taiwan. Uma investigação da Reuters, baseada em dados de localização marítima e imagens de satélite recolhidas ao longo de mais de um ano, revela manobras inéditas realizadas este verão, onde cargueiros e ferries comerciais participaram em exercícios que simulam desembarques anfíbios em larga escala. 

Em agosto, doze navios civis - seis ferries roll-on roll-of e seis cargueiros de convés aberto - deixaram as suas águas habituais ao largo da costa chinesa e rumaram a uma praia na província de Guangdong. Os seus percursos foram seguidos através dos transmissores e confirmados por múltiplas passagens de satélites comerciais. 

Durante a madrugada, aproximaram-se discretamente da costa. Horas depois, as imagens mostravam os cargueiros comerciais a encostar ao areal e a descarregar veículos através de rampas próprias, uma técnica até agora nunca documentada num exercício do Exército de Libertação Popular (ELP). Só numa manhã, foram detetados mais de 300 veículos acumulados na zona do desembarque. 

Especialistas em guerra anfíbia de Taiwan e dos EUA ouvidos pela Reuters confirmam que é a primeira vez que se observa navios civis de carga a operar como verdadeiros navios de desembarque, um passo que consideram "significativo" no aumento da capacidade da China para projetar forças numa primeira vaga de ataque. 

Thomas Shugart, antigo oficial submarinista norte-americano, descreve esta evolução como "um aumento enorme da capacidade de levar veículos pesados diretamente para a praia na primeira vaga", destacando que altera de forma substancial o cálculo estratégico para uma invasão.

Porquê estes navios? Porque são muitos - e baratos

A indústria naval chinesa, responsável por mais de metade da construção de navios do mundo, produz centenas de cargueiros de convés raso que podem ser rapidamente adaptados. Um navio destes pode custar menos de três milhões de dólares, uma fração do investimento exigido para navios militares.

O ELP tem autoridade legal para requisitar navios civis em caso de necessidade militar, e investigadores do setor afirmam que muitos destes navios são concebidos desde logo com requisitos de "dupla utilização" incorporados no projeto. Os ferries roll-on roll-off, capazes de carregar veículos anfíbios diretamente da água ou de rampas improvisadas, por exemplo, têm sido observados em exercícios desde 2019. 

A China possui atualmente navios militares suficientes para transportar cerca de 20 mil soldados na primeira vaga de uma operação anfíbia, um número considerado insuficiente pelos analistas para superar as defesas taiwanesas. Os cálculos mais consensuais apontam para a necessidade de mobilizar entre 300 mil e um milhão de militares ao longo de várias ondas. 

É neste ponto que a "marinha-sombra" civil se torna essencial. Cada cargueiro pode transportar dezenas de veículos. Cada ferry, centenas de tropas e viaturas adicionais. Uma armada desta escala poderia multiplicar por várias vezes a capacidade de projeção inicial da China e permitir ataques simultâneos em múltiplos pontos da costa taiwanesa, dificultando a resposta defensiva. 

Lee Hsi-min, antigo chefe do Estado-Maior de Taiwan, interpreta estes exercícios como um sinal de que o ELP procura desenvolver uma força numerosa de pequenas embarcações anfíbias apoiadas por navios civis, criando cenários de desembarques múltiplos de menor dimensão, mas mais difíceis de travar. 

Uma estratégia que vai além do militar

Embora as imagens mostrem técnicas novas, as autoridades taiwanesas alertam que parte deste esforço tem também um objetivo psicológico. Um alto responsável da Defesa de Taiwan, citado pela Reuters, descreve esta campanha como "guerra cognitiva", destinada a influenciar a opinião pública e a vontade política da ilha e dos seus aliados através da demonstração de força.

Uma eventual invasão de Taiwan seria, segundo todos os analisas citados, uma operação de risco extremo. O estreito é conhecido por uma meteorologia imprevisível e fortes correntes. A costa de Taiwan é montanhosa, densamente povoada e fortemente fortificada nos locais identificados como possíveis zonas de desembarque. J. Michel Dahm, antigo oficial de inteligência naval dos EUA, alerta que demonstrar capacidade num único dia não prova que Pequim consiga manter operações logísticas sustentadas durante semanas, um requisito que considera essencial para conquistar e manter território.

A 3 de setembro, dias depois das manobras, Xi Jinping presidiu a um desfile militar em Pequim, onde voltaram a desfilar veículos anfíbios idênticos aos observados nos exercícios. O líder chinês não mencionou Taiwan, mas o objetivo de unificação permanece prioritário para Pequim.

No final dos exercícios, os navios regressaram rapidamente às suas rotas comerciais habituais, desaparecendo da costa de Guangdong como se nada tivesse acontecido. No entanto, para os especialistas consultados pela Reuters, a investigação mostra que a China não só melhora a sua marinha militar, como expande e integra o seu vasto setor naval civil numa estratégia anfíbia cada vez mais sofisticada.

“Isto mostra que estão a ser muito sérios quanto à colocação de tropas em terra”, afirma o antigo oficial taiwanês Yuster Yu. A dúvida que permanece e que nenhum especialista se arrisca a dissipar é se Pequim já se considera preparada para dar esse passo. Mas todos concordam que, quando se trata de Taiwan, a China está a treinar para a possibilidade de que um dia, a decisão seja tomada.

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