“É abatê-los”, diz comentador chinês sobre eventual paragem de Pelosi em Taiwan

1 ago, 08:09

A China desconfia que a líder da Câmara dos Representantes ainda planeia visitar Taiwan durante a atual viagem à Ásia. Jornal oficial chinês escreve que o país “continuará a manter os preparativos militares para impedir” essa visita

O facto de Taiwan não integrar o itinerário oficial da viagem de Nancy Pelosi à Ásia não tranquilizou a China em relação às intenções da líder da Câmara dos Representantes. 

Pelosi começou ontem a sua digressão asiática, com uma curta comitiva, que integra o presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes. A primeira paragem foi no Havai, e esta segunda-feira a delegação está em Singapura. Seguem-se visitas, com encontros ao mais alto nível, na Malásia, Coreia do Sul e Japão - todos fortes aliados dos EUA nesta parte do globo.

No comunicado oficial com que Pelosi anunciou a viagem, não há qualquer referência a Taiwan - nem como destino de viagem, nem colocando de lado qualquer hipótese de a comitiva aterrar na ilha. Ora, sendo Taiwan o ponto mais delicado da viagem, que levou a avisos muito sérios de retaliação por parte de Pequim, e sendo certo e seguro que Pelosi queria mesmo ir à ilha, tendo convidado alguns dos membros da comitiva precisamente com esse argumento, a total omissão desse assunto está a deixar as autoridades chinesas desconfiadas.

Um especialista chinês em relações internacionais citado pelo jornal oficial chinês Global Times, chama a atenção de que “o facto de Pelosi não mencionar diretamente Taiwan no seu itinerário significa que não ousa desafiar direta e publicamente a China, mas não pode ser excluída a possibilidade da sua visita a Taiwan, sem qualquer anúncio, durante as ligações entre qualquer das quatro paragens na Ásia”.

Não são apenas os chineses que desconfiam que a viagem de Pelosi poderá ter Taiwan escondida com o rabo de fora. Diversos meios de comunicação social de Taiwan têm especulado sobre uma visita não anunciada, à semelhança do que têm feito os chineses. Em Taiwan tem sido referida hipótese de Pelosi chegar à ilha a partir das Filipinas - a viagem prevê uma paragem técnica para reabastecimento numa base aérea norte-americana naquele país, e tem sido aventada a possibilidade de o avião de Pelosi descolar daí rumo a Taipei. Nesse caso, a visita poderia acontecer no dia 4, após as paragens em Singapura e na Malásia, e antes da Coreia do Sul e do Japão. A imprensa chinesa também especula sobre a possibilidade de a líder da Câmara dos Representantes acrescentar uma etapa ao seu périplo depois de sair de Tóquio, tendo em conta que  o Japão fica bastante perto de Taiwan.

Pentágono continua preparativos

Segundo o jornal online Politico, normalmente bem informado sobre os bastidores da política e diplomacia norte-americana, o Pentágono continua a preparar tudo com as autoridades de Taiwan para uma eventual visita de Pelosi ao território.

Entretanto, os falcões do Partido Republicano exortam Pelosi a fazer frente aos chineses, com o argumento de que os EUA não se podem vergar às ameaças de Pequim. Newt Gingrich, o último líder da Câmara dos Representantes que visitou Taipei, em 1997, incentivou Pelosi a fazer o mesmo, mesmo que isso irrite os chineses, tal como aconteceu há 25 anos.  Mike Pompeo, que foi o chefe da diplomacia americana no tempo de Trump, escreveu no Twitter que está disponível para ir a Taiwan com Pelosi (trata-se do mesmo Pompeo que tinha dito que visitaria a ilha nos últimos dias do seu mandato, em 2021, mas acabou por desistir da ideia…)

Contra esta vertigem de lançar gasolina na fogueira, a Casa Branca tem tentado travar Pelosi, e o New York Times publicou há dias um texto em que dois respeitados académicos norte-americanos escreviam que "a viagem de Nancy Pelosi a Taiwan é demasiado perigosa". "Os Estados Unidos e a China estão em rota de colisão no Estreito de Taiwan", e "uma única faísca pode incendiar esta situação inflamável para uma crise que se agrava para um conflito militar. A visita de Nancy Pelosi a Taiwan poderia proporcionar isso", avisavam os autores.

Em Hong Kong, o South China Morning Post, um dos últimos jornais do território com alguma margem de liberdade, escreveu em editorial que “uma escala [de Pelosi em Taiwan] agravaria as relações entre Pequim e Washington, agravaria a tensão e aumentaria a incerteza sobre o Estreito de Taiwan.” O mesmo texto lembra que Xi Jinping disse que Pequim será obrigado a agir em relação Taiwan, salvaguardando a soberania nacional e a integridade territorial da China, e que isso é "a vontade firme dos mais de 1,4 mil milhões de chineses".

China “totalmente preparada para o conflito militar”, escreve Global Times

“Independentemente do que aconteça, a China manter-se-á em alerta máximo para estar totalmente preparada para o conflito militar”, escrevia esta manhã o Global Times, jornal em língua inglesa do Partido Comunista Chinês (PCC), que normalmente escreve aqui que as elites políticas de Pequim pensam, mas por vezes não podem dizer abertamente.

Hu Xijin, comentador habitual do mesmo jornal - e uma voz que muitas vezes veicula posições que não podem ser assumidas oficialmente -, foi mais longe e escreveu no Twitter: "Se os caças americanos escoltam o avião de Pelosi para Taiwan, isso é uma invasão. O Exército de Libertação Popular [ELP, nome oficial das Forças Armadas chinesas] tem o direito de expulsar à força o avião de Pelosi e os caças americanos, incluindo disparar tiros de aviso e fazer movimentos tácticos de obstrução. Se forem ineficazes, então é abatê-los". O comentário tornou-se viral no fim de semana, mas foi apagado pelo Twitter, por violar as regras daquela plataforma. 

Embora em linguagem ligeiramente mais contida, o comentador do Global Times (a quem o ex-secretário de Estado americano Mike Pompeo chamou papagaio do PCC) continua a acenar com um conflito militar. “Pelosi está em Singapura e voará para a Coreia do Sul, na rota de Taiwan, depois de visitar a Malásia. O ELP tem sido claramente bem preparado. Se ela ousar parar em Taiwan, será o momento de acender o barril de pólvora da situação no Estreito de Taiwan”, lê-se no seu último tweet, já com a política norte-americana em viagem pela Ásia.

Antes ainda de Pelosi ter descolado de Washington, Hu escreveu um dos seus inflamados textos de opinião no Global Times em que aconselhava os EUA a “manter a calma”, lembrando que “a China tem reforçado rapidamente a sua dissuasão nuclear nos últimos anos”. E elencou algum desse poderio nuclear: “No desfile militar da Praça Tiananmen em 2019, havia 16 novos lançadores estratégicos de mísseis nucleares do tipo Dongfeng-41, todos com múltiplas ogivas. Nessa altura, a China tinha mais de 16 desses mísseis. Quase três anos mais tarde, Dongfeng-41 tornou-se a principal força de dissuasão estratégica da China com mísseis intercontinentais terrestres contra os EUA. Os EUA também desconfiam muito da instalação de um grande número de silos de mísseis estratégicos em Gansu e Xinjiang na China, e altos funcionários dos EUA disseram que o progresso da energia nuclear chinesa era "de cortar a respiração". Os EUA não têm hoje qualquer influência para pressionar a China a recuar na questão de Taiwan.”

Exercício militares com fogo real

Nos media chineses, a pergunta não é se a China retaliará no plano militar contra uma visita de Pelosi a Taiwan, mas qual será essa retaliação militar. Do ponto de vista diplomático, a reação é mais fácil de prever: a aposta é que, no mínimo, o embaixador chinês em Washington será chamado a Pequim, um prelúdio de um eventual corte de relações.

E no plano militar? Há muita especulação nos jornais, e o cardápio de possibilidades cresce a cada novo texto publicado e a cada novo comentador ouvido.

Num simpósio recente que reuniu diversos especialistas chineses sobre relações internacionais, segurança e defesa, ficou claro que “há várias medidas que o ELP pode tomar quando Pelosi voa para a ilha de Taiwan. Por exemplo, os caças chineses podem voar juntamente com e monitorizar o avião de Pelosi, e sobrevoar o aeroporto onde o seu avião aterra em Taiwan”, segundo Wang Yunfei, um perito naval.

“O ELP pode também declarar zonas aéreas e marítimas em redor da ilha de Taiwan como zonas restritas, para travar o avião de Pelosi. Os caças chineses também podem voar sobre a ilha para iniciar um novo modelo de luta contra as ações militares dos secessionistas na ilha”, disse o mesmo perito, citado pelo Global Times. E acrescentou que “o envio de mísseis em redor da ilha de Taiwan e a realização de exercícios militares também são opções”.  

Mas há mais: a China poderá realizar exercícios militares em grande escala em torno da ilha de Taiwan, incluindo nas águas entre a ilha de Taiwan e o Japão, bem como entre a ilha de Taiwan e Guam, onde Pelosi acaba de fazer também uma escala. Os exercícios poderiam incluir todos os ramos das forças armadas chinesas, com todos os elementos de combate, “incluindo guerra electrónica, ataques de mísseis e foguetes de longo alcance, conquista de superioridade aérea e controlo do mar, aterragem anfíbia, bem como forças anti-acesso e negação de área contra interferência militar externa”, escreve o mesmo jornal

Para já, a China está a realizar um grande conjunto de exercícios militares com fogo real, que começaram no sábado em Pingtan, a 125 quilómetros de distância da ilha de Taiwan.

Outro perito - Wu Yongping, director do Instituto de Estudos de Taiwan, na Universidade de Tsinghua - admitiu que a China pode transformar um incidente com Pelosi numa oportunidade para “assumir o controlo da situação do Estreito de Taiwan e impulsionar o processo de reunificação”. Nesse caso, disse Wu, igualmente citado pelo Global Times, essa consequência seria responsabilidade de Taiwan e dos Estados Unidos, “uma vez que a comunidade internacional também verá claramente a provocação dos EUA”, enquanto a China estaria apenas a “defender a sua soberania”. 

Problemas com o avião? Nós ajudamos

“A China continuará a manter os preparativos militares para impedir qualquer movimento surpresa da Pelosi nos próximos dias, e isto não lhe dará qualquer hipótese de desafiar a soberania da China”, garante um editorial do GT. Mesmo que os EUA se refugiem no velho subterfúgio da emergência com o avião de Pelosi, ou necessidade de reabastecimento, para justificar uma aterragem não prevista em Taipé. 

“Ainda é possível que Pelosi queira fazer uma jogada arriscada e perigosa, tentando aterrar num aeroporto de Taiwan com desculpas de emergência como uma falha de avião ou reabastecimento, pelo que as patrulhas militares chinesas, controlos de radar e exercícios relevantes devem continuar em alerta máximo nos próximos dias”, disseram outros analistas ao jornal em lingua inglesa do Partido Comunista Chinês. 

“Se o avião de Pelosi tiver realmente problemas de emergência durante a sua viagem ao largo da China, o avião do Exército de Libertação Popular pode proteger ao seu avião e deixá-lo aterrar em aeroportos na cidade chinesa de Sansha, na província de Hainan, no Mar do Sul da China, ou noutros aeroportos no continente chinês que possam fornecer serviços e assistência profissional, desde que o avião da speaker permaneça afastado da Taiwan chinesa.”

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