Visita "envenenada" de Pelosi a Taiwan coloca Xi Jinping em xeque. "Para o Kremlin, isto é ótimo"

2 ago, 22:00

A chegada da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos à ilha acontece quando as relações entre EUA e China estão num dos momentos mais baixos de sempre - e beneficia a Rússia, explicam à CNN Portugal especialistas em relações internacionais.

Nancy Pelosi chegou a Taiwan na tarde desta terça-feira (às 15:43 de Lisboa, 22:43 em Taipé) e foi rodeada por centenas de pessoas exibindo cartazes encarnados com gritos de ordem pedindo a independência de Pequim. Minutos depois, o Presidente chinês, Xi Jinping, fez saber, através de um comunicado, que a aterragem da terceira figura dos Estados Unidos na região “desconsiderou as severas advertências” dos últimos dias e cruzou as linhas vermelhas colocadas pelo Partido Comunista. Ao mesmo tempo, Putin pode estar a esfregar as mãos de contente. “É que, deste extremar de posições, Pequim vai lançar cada vez mais os braços à Rússia”, explica o major-general Agostinho Costa, apontando para a forma como o Kremlin seguiu a retórica chinesa e acusou a administração Biden de “destabilizar o mundo” com esta visita.

Perante a paragem em Taipé, que inicialmente não estava prevista na "digressão" de Pelosi à Ásia, é inevitável que Pequim esteja a preparar um contrataque económico e político-diplomático, consideram os analistas ouvidos pela CNN Portugal. 

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O presidente chinês saiu ferido deste braço-de-ferro, dizem, numa altura em que prepara a sua reeleição para um terceiro mandato em novembro.

“Isto é uma derrota para Xi Jinping. Com todas as letras. Claramente, se Nancy Pelosi está em Taiwan, então os Estados Unidos conseguiram uma vitória clara perante o regime de Pequim, que entende esta visita como uma afronta à sua soberania”, interpreta Agostinho Costa, acrescentando que este foi um “incidente grave” e que os “norte-americanos quiseram provar que vão para onde querem sem serem intimidados”. “Neste momento, neste jogo de xadrez, a iniciativa foi americana e isso é um xeque a Xi Jinping”.

Receção de Nancy Pelosi pelo ministro dos negócios estrangeiros de Taiwan, Joseph Wu (Foto Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan via AP)

Também Tiago André Lopes, professor de Diplomacia e Estudos Asiáticos da Universidade Portucalense, concorda que a chegada da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos à região causou danos à reputação de Xi. “Há um claro receio de que facções do Partido Comunista organizem uma forte oposição por causa deste incidente”, diz. Aliás, explica o professor, o pior que podia acontecer ao Presidente chinês “era ver-se ultrapassado por um candidato emergido pelas elites e que coloque em causa o seu legado”.

Uma visita que começa envenenada

Ainda que a visita possa ser vista como uma vitória face a Pequim, há no entanto nela uma clara infração das convenções internacionais. “É uma visita que começa envenenada, já que a China não a autorizou, pelo que viola a Convenção de Viena”, afirma André Lopes, sublinhando que isto vai manchar a credibilidade dos Estados Unidos, quando alegam que a Rússia tem ido contra o direito internacional nos seus ataques na Ucrânia.

“Para o Kremlin, isto é ótimo, porque prova aquilo que dizem há 20 anos: que os EUA não cumprem tratados e convenções e estão na origem de conflitos internacionais”. 

Contudo, refere o especialista em relações internacionais Jorge Tavares da Silva, este incidente entre Washington e Pequim não pode ser indissociável da figura de Nancy Pelosi, “alguém que tem no seu ADN um histórico de confrontação em relação a algumas das atitudes do governo chinês durante algumas décadas”. Como exemplo, Tavares da Silva descreve o episódio em que, durante uma visita de congressistas à China, Pelosi se desviou da sua comitiva e foi à Praça Tiananmen com uma faixa a dizer “por aqueles que morreram pela democracia na China”.

 Nancy Pelosi aterra em Taiwan (AP)

Além disso, num artigo de opinião no jornal Washington Post, publicado momentos após ter aterrado em Taiwan, Nancy Pelosi escreve que os EUA devem cumprir a Lei das Relações de Taiwan - assinada pelo Presidente Jimmy Carter - de apoiar a auto-defesa da região que está "sob ameaça" de Pequim, que tem intensificado as patrulhas militares e lançado ciberataques contra as agências governamentais taiwanesas”.

"Face à agressão acelerada do Partido Comunista Chinês, a visita da nossa delegação do Congresso deve ser vista como uma declaração inequívoca de que a América está com Taiwan, o nosso parceiro democrático, na defesa de si própria e da sua liberdade", escreveu Pelosi, naquilo que Jorge Tavares da Silva identifica como um “longo percurso de afrontamento a Pequim” e que sabia que “não iria recuar e demonstrar fraqueza” perante as advertências da China. 

Xi Jinping está "obviamente nervoso"

A visita de Pelosi a Taiwan ocorre também num momento em que as relações entre a China e os Estados Unidos estão no momento mais baixo dos seus últimos 40 anos, muito por causa da parceria que Xi Jinping tem desenvolvido com Putin. Mas ela desperta também antigos receios. “Além disto, o Presidente chinês está obviamente nervoso, de que os Estados Unidos tenham em curso um projeto de substituição da China por Taiwan”, afirma Tiago André Lopes.

Para o professor universitário, a visita mostra por outro lado que os Estados Unidos estão a deixar de ter estratégias para combater a influência russa.

“Num momento em que se nota o cansaço da guerra, e em que a China continua a ser instrumental para que a Rússia resista às sanções, os Estados Unidos estão a recorrer a um dos seus últimos trunfos para pressionar Xi Jinping” a condenar Putin pela invasão da Ucrânia". Algo que o especialista entende como “abrir uma porta perigosa perante várias frentes de tensão diplomática”.

Assim, descreve o major-general Agostinho Costa, o mundo está mais perto de um conflito de grande escala entre os Estados Unidos e a China do que estava ontem. "A verdade é que vai existir uma Taiwan pós-Pelosi", diz. “O pote vai enchendo até que transborda, caminhamos decididamente para uma confrontação direta e, quando um líder está em crise, uma das formas que tem de se manter no poder é fazer uma guerra".

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