Taiwan: “Se houver uma guerra, vai destruir a economia mundial”

16 out 2022, 21:06

Entrevista a Tsung-che Chang, representante de Taipé em Portugal

A questão de Taiwan é tudo menos simples.  O presidente chinês, Xi Jinping - que se prepara para um terceiro mandato - insiste nos planos da chamada “reunificação”, aos quais Taiwan responde: Como, se “Taiwan nunca pertenceu ao regime comunista”?

Às repetidas ameaças da China – de recurso à força se a ilha se declarar um país independente -  Taipé mantém-se firme. Assegura que não vai haver nenhuma declaração de independência, porque, afinal de contas, “já temos um país independente desde 1912 até agora, muito mais antigo do que a China comunista”.

Estas declarações são do representante de Taiwan em Portugal, Tsung-che Chang, que aceitou receber a CNN Portugal no Centro Económico e Cultural de Taipé, em Lisboa.

Está a decorrer o 20º Congresso do Partido Comunista da China. Espera alguma mudança significativa?

Depois de 1949, qualquer acontecimento político na China é muito importante para Taiwan. O regime comunista não é um regime transparente. Não há eleições democráticas e por isso qualquer mudança de poder pode causar conflitos.

No entanto, acho que qualquer mudança não vai afetar muito o regime chinês. O comunismo chinês não tem a legitimidade do povo. A luta é sempre dentro do partido. Com estes últimos 10 anos de Xi Jinping, o mundo conhece a ambição dele de expandir a sua influência e território. Taiwan está preparado. Mas estamos a tentar evitar a guerra. Não queremos uma guerra.

Taiwan tem a maior produção de semicondutores do mundo. A Europa está a sofrer com esta guerra da Ucrânia. Sofre por causa da inflação. Mas imagine que acontece uma guerra entre Taiwan e a China?

O facto de Taiwan ser o principal fabricante dos chips mais avançados do mundo, é um fator dissuasor?

O fundador da TSMC disse que se a China considera a estabilidade económica, não avança para a guerra. Mas se houver uma guerra, vai destruir a economia mundial.

O mundo sabe que o fornecimento de semicondutores de Taiwan não é fácil de substituir. Não queremos uma guerra. Se houver guerra, o impacto económico vai ser muito grande. E a Europa vai sofrer mais.

É por isso que a nossa política internacional é de juntar os países com o mesma mentalidade e valores, para trabalhamos juntos e dizermos ao regime comunista: não abra uma guerra. Mas mesmo se houver, estamos preparados.

O mundo não sabia, mas nos últimos 70 anos temos estado sozinhos a lutar contra este totalitarismo da China. Agora conseguimos mais apoio do mundo, porque o mundo já conhece a importância de Taiwan.

É por receber esse apoio que considera que Taiwan está preparado? Porque conta com o apoio dos Estados Unidos?

Esse apoio tem duas partes. A primeira é o apoio militar. A maior parte das nossas forças armadas comprámos aos Estados Unidos. É o nosso maior aliado. A outra parte é que o mundo com os mesmos valores tem de saber que se apoiar Taiwan, moralmente ou de qualquer forma, é bem-vindo. Porque quando Taiwan está forte, mais forte, é um sinal para a China diminuir a possibilidade de guerra. Se Taiwan está fraco ou isolado, a China vai ter uma vantagem sobre Taiwan. E pode decidir quando e como fazer a guerra.

Como procura esse apoio? Que apoio, em concreto, Taiwan precisa?

O mundo tem de apoiar Taiwan a participar na ONU. Não estou a dizer para ajudar Taiwan a recuperar a posição que perdeu em 1979 na ONU. Mas mais na prática: participar em algumas organizações especializadas. Por exemplo, da aviação civil. Quantos aviões passam pelo nosso território diariamente? Se não tivermos informação de aviação pode haver risco de segurança.

Precisamos de participar na Interpol, no combate ao crime internacional. Taiwan tem essa capacidade, mas se não conseguirmos entrar no sistema de informação de Interpol vai ser difícil. E vai haver um buraco para o crime organizado.

Precisamos de participar nas mudanças climáticas. Taiwan tem tecnologia de ponta, mas ao mesmo tempo cuidamos do nosso ambiente. Temos um projeto para conseguirmos, até 2050, zero emissões. Todas essas organizações especializadas têm de nos abrir a porta.

Acredita que pode acontecer num futuro próximo?

Às vezes parece Mission Impossible, mas aqui no nosso vizinho Instituto Camões, ouvimos: “o homem sonha, a obra nasce”. Tudo é possível para mim, mas precisamos de trabalhar. Esse é o espírito de Taiwan.

Durante os últimos 70 anos estivemos sozinhos. Quem é que imaginava que íamos receber tanto apoio internacional? Vamos chegar ao nosso objetivo.

E qual é esse objetivo final?

O objetivo é mantermos o nosso sistema democrático e liberdade. São valores mundiais e importantes. Temos também de desenvolver a economia e tornar a nossa sociedade mais segura. Temos de manter também a nossa capacidade de defesa nacional, porque temos um vizinho que não é racional. Qualquer mudança na China continental pode afetar-nos.

O princípio “Um país, dois sistemas”, pensado por Deng Xiaoping e adotado por Macau e Hong Kong, ainda é uma possibilidade?

(risos) Veja Hong Kong agora. Ainda acredita no princípio “Um país, dois sistemas”? O regime comunista fala bonito e às vezes engana as pessoas. Hong Kong já não é um primeiro caso. Aconteceu o mesmo com o Tibete e depois com Xinjiang. A astúcia da China é como a história do rei vai nu. “Um país, dois sistemas” é assim: O rei está nu. Ninguém acredita nesse sistema. Quem conhece melhor a China somos nós e não acreditamos na palavra deles. Vimos o que fez com Hong Kong. Taiwan não quer ser um segundo Hong Kong. Já temos um país independente desde 1912 até agora, muito mais antigo que a China comunista. Não precisamos do sistema comunista. Se [a China] acha que o seu sistema é bom, podia fazer eleições para o povo decidir. Não tem coragem. Mantém o poder pela força militar.

Taiwan já teve no poder figuras mais próximas de Pequim. Nessa altura o princípio “Um país, dois sistemas” era uma possibilidade mais concreta…

O homem de negócios de Taiwan é igual a todo o mundo. Todo o mundo quer fazer negócios com a China. A China tem um mercado gigante. Ao mesmo tempo, tem de se ignorar algum defeito desse sistema e tolerar a censura [que faz] em quase todo o lado. Mas tudo tem um limite. O mundo não tolera mais essa censura e essa influência chinesa de maldade para o mundo. O mundo chega agora com um valor comum: a democracia.

Xi Jinping prepara-se para assumir um terceiro mandato e a vontade de fazer a chamada “reunificação” com Taiwan tem sido reiterada várias vezes.

Essa voz de reunificação é uma propaganda da China para enganar o povo. Quando se fala em reunificação, pressupõe que algo que pertencia deixou de pertencer, para depois se fazer a reunificação. Taiwan nunca pertenceu ao regime comunista chinês. Como fazer uma reunificação? São dois regimes independentes. Não é com uma arma de fogo na mão que se diz que vamos reunir. O casamento não é assim. Quem é que usa uma arma de fogo para um casamento?

E se usar?

Se usar precisamos de apoio e precisamos de ter capacidade de defesa. É isso que a Taiwan tem estado a fazer nestes dos últimos 70 anos. A prepararmo-nos para um conflito com a China.

Porque há um risco real. Os exercícios militares em resposta à visita de Nancy Pelosi deixaram evidente que é possível um bloqueio a Taiwan. Taiwan é uma ilha e pode ficar isolada…

O mundo fica enganado com esse termo: “Ilha”. Podemos dizer “ilhão” de Taiwan. Não é fácil de atacar.

A guerra da Ucrânia aconteceu muito rápido. Entre a Rússia e Ucrânia é tudo planície, é fácil de avançar. Mas entre Taiwan e a China há um estreito. Nesse estreito as ondas são violentas. Na história, nas tentativas de invadir Taiwan, os navios afundavam. Não é fácil. Se fosse fácil, a China já tinha atacado Taiwan. Não conseguiu ainda porque é preciso uma movimentação de grande escala, muito grande.

A tecnologia já avançou muito. E muitos dizem que a China tem mais capacidade para atacar. Mas veja: para atravessar um mar tão violento, precisa de muita preparação. A mobilização das tropas para passar o estreito precisa de um mês, e durante um mês, com toda a informação e tecnologia de satélite, vamos saber. Antes de atacar já sabemos.  Eles têm misseis. Nós também temos misseis. Essa tecnologia…estamos preparados. Por isso temos confiança que vamos consolidar a nossa democracia.

A única coisa que aChina pode fazer é ficar mais democrática. E assim podemos ter um canal de diálogo mais fácil. Temos o desejo e a vontade de manter a paz no estreito de Taiwan e na região. Mas a nossa vontade tem a base de defesa. Por isso, precisamos de muito apoio do mundo, sobretudo dos países ocidentais com os mesmos valores.

Taiwan não tem medo de uma possível intervenção militar da China?

Era melhor ter medo, não é? (risos). Mas realmente não há grandes receios na sociedade civil. Para o mundo esta é uma situação grave, mas nós enfrentamos estas ameaças há 70 anos. Não é notícia para nós. Precisamos de estar preparados.

Há 43 anos que Taiwan e Portugal não mantêm relações bilaterais. O que espera em concreto de Portugal?

Tenho estado a observar a política externa portuguesa. Apoiou muito a Ucrânia. Taiwan está com Portugal, e também apoia a Ucrânia. Mas se estudarmos bem a política portuguesa, sabemos que nunca condena muito claramente outro país. Mas esperamos que não seja preciso chegar ao ponto de guerra em Taiwan. Durante este tempo temos de reforçar a nossa cooperação.

Desde 79, até agora, não assinámos qualquer acordo bilateral. A nossa relação precisa de avançar.

Não temos negócios muito significativos com Portugal. No ano passado, chegámos aos 720 milhões, em valores. Não é muito. Mas com a capacidade de Portugal podemos avançar mais.

Uma coisa que podemos fazer: turismo. Antes da pandemia, Portugal recebia 24 milhões de turistas. E agora está a recuperar. Taiwan também. Tem uma população de 24 milhões, mas 16 milhões viajam pelo mundo anualmente (antes da pandemia). Se conseguirmos trabalhar bem, se conseguirmos atrair esses 16 milhões de turistas de Taiwan a vir até Portugal, o turismo de Portugal ficaria muito beneficiado.  

Vamos sonhar, depois a obra nasce (risos).

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