Oficial chinês na reserva admite recurso ao nuclear para que os EUA se afastem de Taiwan

12 ago, 06:02
Mísseis balísticos DF-17 numa parada militar em Pequim, no 70º aniversário da República Popular da China

A presença chinesa é menor no Estreito de Taiwan, mas as manobras continuam e a líder de Taipé diz que "a ameaça não diminuiu". Um oficial chinês na reserva diz que a China usará a ameaça atómica para impedir os EUA e outros aliados de ajudar Taiwan em caso de invasão da ilha

Um coronel na reserva do Exército de Libertação Popular (ELP), designação oficial das Forças Armadas da China, admitiu esta quinta-feira que Pequim poderá recorrer ao seu arsenal de armas nucleares para travar um envolvimento militar dos EUA ou dos seus aliados na defesa de Taiwan, em caso de invasão da ilha. As declarações foram feitas ao influente jornal de Hong Kong South China Morning Post, e tiveram eco em diversos meios de comunicação social de Taiwan e da região. As afirmações do oficial chinês na reserva mereceram destaque no CNA, canal de informação de Singapura com emissões em diversas línguas, incluindo inglês e mandarim.

Segundo Yue Gang, os grandes exercícios militares da China nos últimos dias serviram vários objetivos, incluindo ensaiar combates reais e preparar uma eventual invasão de Taiwan, mas também foram um "dissuasor" contra o estreitamento dos laços entre Taiwan e os Estados Unidos, nomeadamente no plano militar.

Yue, que é por vezes citado pelo jornal chinês Global Times - tabloide nacionalista do Partido Comunista Chinês - está entre os que não acreditam na hipótese de um bloqueio prolongado à ilha mas, antes, numa “guerra rápida”. "Para atacar Taiwan pela força no futuro, temos de conseguir um efeito repentino, que apanhe Taiwan desprevenido e atinja o objetivo estratégico num curto período de tempo", disse Yue ao SCMP. Isso poderia passar por ataques de decapitação, para paralisar a estrutura de comando civil e militar de Taiwan, destruir o principal equipamento de combate da ilha e minar a moral do exército taiwanês.

O problema, admite Yue, é a possibilidade de os EUA virem em socorro de Taiwan, eventualmente acompanhados pelo Japão ou, até, por forças de países da NATO. Para travar essa hipótese, o ELP deve preparar-se para lançar uma "operação conjunta de bloqueio" que impeça que forças estrangeiras prestem auxílio militar a Taiwan. 

E, de facto, terá sido também isso que aconteceu nos últimos dias, com o envolvimento de forças dos diversos teatros de operações das Forças Armadas chinesas. Apesar das manobras terem sido lideradas pelo Comando do Teatro Oriental, terão sido chamados meios da Força Aérea dos comandos Norte e Sul, para reforçar a capacidade de controlo de acesso à área de operações, travando a possibilidade de meios de outros países entrarem no confronto. 

"Uma possível guerra sobre Taiwan é uma operação complicada e abrangente de A2/AD [anti-acesso e de controlo de área], exigindo que a Força Aérea e os navios de guerra dos três comandos de teatro [operacional] partilhem papéis diferentes nas suas tarefas para impedir intervenções militares estrangeiras a partir do sul e do norte", explicou outro militar chinês, citado pelo mesmo jornal.

E se isso não chegar para manter americanos, japoneses ou outros aliados de Taiwan longe do conflito? "A China não tem medo de uma luta de vida ou morte com os EUA e o Japão, e atrever-se-ia a lançar bombas nucleares para os dissuadir de brincar com o fogo e de se incendiar", afirmou Yue Gang ao jornal de Hong Kong.

Pequim irá retomar os ensaios nucleares?

Pequim tem garantido que cumprirá sempre o princípio de não ser o primeiro a usar armas atómicas em caso de conflito, e em junho o ministro da Defesa chinês assegurou que o investimento do seu país em mais ogivas nucleares se destina apenas a “auto-defesa” e “dissuasão” de ataques por parte de outros países. Mas também acrescentou que as armas nucleares exibidas em Pequim, em 2019, numa parada militar em Pequim (incluindo lançadores modernizados para os mísseis balísticos intercontinentais da China DF-41) estão operacionais e posicionadas.

"A China tem desenvolvido as suas capacidades há mais de cinco décadas. É justo dizer que tem havido progressos impressionantes", admitiu então Wei Fenghe, o ministro da Defesa chinês .

No ano passado, o Departamento de Estado dos EUA considerou “preocupante” a acumulação de poder nuclear por parte da China nos últimos anos, que parece indicar que Pequim estará a desviar-se de décadas de estratégia nuclear baseada numa dissuasão mínima.

Já no início deste mês, o jornal Nikkei Asia revelou que a China está a expandir rapidamente as suas instalações de testes nucleares no oeste de Xinjiang - informação confirmada por fotos de satélite. A notícia reavivou os receios de uma nova corrida ao armamento nuclear, à medida que as tensões ferverem sobre Taiwan. No fim de semana passado, por ocasião dos 77 anos do bombardeamento atómico de Hiroshima, António Guterres chamou a atenção para essa nova corrida às armas, mas absteve-se de referir a China - apontou o dedo à invasão russa da Ucrânia, à Coreia do Norte, e a alguns estados, que não especificou, do Médio Oriente.

Segundo a notícia do Nikkei Asia, as imagens de satélite mostram uma construção extensiva no local de ensaios nucleares de Lop Nur, um lago de sal seco na região desértica de Xinjiang, que faz fronteira com o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão e Paquistão.

Com base nessas imagens e na análise de peritos internacionais, o Nikkei Asia escreveu que a China pode estar a construir um sexto túnel para testes subterrâneos - indício disso é a acumulação de rochas partidas, empilhadas nas proximidades, e grandes camuflagens erguidas numa montanha próxima. As fotografias de satélite mostram também cabos de energia, possíveis instalações de armazenamento de explosivos elevados e estradas não pavimentadas a partir de centros de comando.

"A China poderá realizar testes nucleares a qualquer momento, especialmente porque a linha elétrica e o sistema rodoviário ligam agora as instalações de testes nucleares militares ocidentais de Lop Nur a novas áreas de testes possíveis no leste", garantiu um especialista ouvido pelo jornal japonês.

Mais: apesar de não existirem centrais nucleares na Região Autónoma de Xinjiang, o Xinjiang Production and Construction Corps (XPCC), uma organização paramilitar na dependência do Partido Comunista Chinês, anunciou que este ano ano irá “reforçar a capacidade de monitorização da radioatividade" naquela região, e procedeu à compra de material relacionado com medição de radioatividade, como alarmes de radiação e fatos protetores.

Mísseis lançados sobre Taiwan podem transportar ogivas

A China não conduz qualquer teste nuclear desde 1996, mas tem aumentado o seu arsenal atómico e tem investido fortemente na capacidade dos seus novos mísseis balísticos para o transporte de ogivas nucleares. Crê-se que a China terá atualmente cerca de 350 ogivas nucleares, mas o seu objetivo é chegar às mil até 2030 - embora esteja muito atrás dos arsenais da Rússia ou dos EUA, é o país asiático com maior arsenal atómico.

Nas manobras militares dos últimos dias, foram mobilizadas as unidades de mísseis do ELP, que dispararam 11 mísseis Dongfeng, incluindo os mísseis de médio alcance DF-15B. Vários sobrevoaram a capital de Taiwan, Taipé, e cinco caíram na zona económica exclusiva do Japão, provocando um protesto das autoridades de Tóquio. Os militares chineses têm desenvolvido os mísseis DF, incluindo mísseis balísticos intercontinentais DF-5B com um alcance até 15 mil quilómetros, que podem atingir o continente americano, bem como mísseis hipersónicos.

"Todos os mísseis do tipo Dongfeng são capazes de lançar ogivas nucleares para atingir os navios de guerra e território americanos, o que significa que o ELP está a jogar à dissuasão nuclear para avisar os EUA passo a passo", segundo Andrei Chang, diretor da revista militar canadiana Kanwa Asian Defence.

Presidente taiwanesa diz que ameaça não diminuiu

Depois de a China ter anunciado o fim dos exercícios militares massivos que começaram após a visita de Nancy Pelosi a Tawain, uma fonte taiwanesa disse à Reuters que o número de navios de guerra próximos da “linha mediana” do Estreito de Taiwan foi "grandemente reduzido" em relação aos dias anteriores. A “linha mediana” é uma demarcação não oficial, mas reconhecida há décadas, que separa o lado de Taiwan e o lado da China ao longo do Estreito de Taiwan.

Apesar desta diminuição, vários navios da Marinha chinesa continuavam esta quinta-feira a conduzir missões ao largo da costa Leste de Taiwan e perto da ilha japonesa de Yonaguni, segundo a mesma fonte, não identificada pela agência de notícias.

Na quinta-feira à noite, a Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, avisou que, apesar de a China ter anunciado o fim dos seus maiores jogos de guerra de sempre, a ameaça militar chinesa não diminuiu. "Atualmente, a ameaça da força militar chinesa não diminuiu", disse Tsai a um grupo de oficiais da Força Aérea, de acordo com uma declaração do seu gabinete.

A líder taiwanesa assegurou que a ilha não irá escalar o conflito nem provocar disputas, mas acrescentou: "Defenderemos firmemente a nossa soberania e segurança nacional, e aderiremos à linha de defesa da democracia e da liberdade".

Taiwan também tem vindo a realizar exercícios militares, embora a uma escala relativamente pequena, quando comparados com as manobras ordenadas por Pequim. Os exercícios militares taiwaneses ocorrem todos os anos por esta altura, com o objetivo de preparar os militares para um eventual ataque chinês, e já estavam programados antes do pico de tensão dos últimos dias.

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