Está a ver estes dois soldados taiwaneses? A China também. E os militares de Taiwan afastaram o drone chinês… com pedras

25 ago, 05:50
Soldados taiwaneses em Kinmen

Ministério da Defesa de Taiwan anunciou que a partir do próximo ano terá sistemas de defesa anti-drone, para impedir a aproximação de aparelhos chineses. Reação de dois militares de Taiwan quando viram um drone sobre as suas cabeças tornou-se viral nas redes sociais chinesas

Ontem foi um bom dia para a China na guerra de informação no Estreito de Taiwan, e de pressão psicológica sobre Taipé. A divulgação de imagens recolhidas por um drone sobre uma das ilhas de Taiwan mais próximas da China continental causou furor nas redes sociais chinesas, cujos utilizadores consideraram ridícula a reação de dois militares taiwaneses que tentaram abater o aparelho… atirando-lhe pedras.

A divulgação destas imagens - primeiro, uma fotografia dos dois militares taiwaneses, perfeitamente identificáveis e com ar incrédulo a olhar para o céu, e depois um vídeo em que os soldados atiram pedras contra o aparelho - permitiu à China passar duas mensagens importantes em termos de guerra de comunicação: 1) por um lado, Pequim mostrou que está em condições de sobrevoar território de Taiwan com aparelhos não tripulados, e fazê-lo a baixa altitude - tão baixa que é possível ver os rostos de militares que estão no terreno; 2) por outro lado, a reação dos soldados, atirando pedras ao drone, provocou um gozo geral entre os utilizadores chineses de redes sociais, que parodiavam a “sofisticação” da defesa taiwanesa, à base de pedradas.

Após este revés, o Ministério da Defesa de Taiwan anunciou esta quinta-feira que começará no próximo ano a instalar sistemas de defesa anti-drones nas suas ilhas. Segundo o Ministério da Defesa, os sistemas anti-drone começarão por ser colocados nas ilhas mais pequenas e mais próximas da China continental, como aquela onde aconteceu o incidente divulgado na quarta-feira. Para além de instalar os novos sistemas, o ministério taiwanês prometeu que “oficiais e soldados a todos os níveis continuarão a implementar a vigilância de acordo com o princípio de ‘não escalar os conflitos ou causar disputas’."

Sim, mas não é o que parece…

Terá sido, alegadamente, em cumprimento dessa regra que os militares taiwaneses surpreendidos pelo drone chinês recorreram ao lançamento de pedras para o tentar afastar ou derrubar. Segundo o Comando de Defesa de Kinmen - as ilhas onde se deu o incidente -, não foram disparados foguetes contra o drone porque este nunca entrou no espaço aéreo de Taiwan. Após os sentinelas terem seguido o procedimento operacional padrão de notificar e avisar a aeronave via rádio, "o drone voou rapidamente". Acontece que a versão oficial de Taiwan sobre este caso não bate certo com aquilo que as imagens mostram.

O caso começou quando surgiu na rede social chinesa Weibo (a versão local do Twitter, controlada pelas autoridades chinesas) uma foto de dois militares taiwaneses a olhar para o céu, com ar incrédulo. Os comentários davam conta de que um drone chinês estava sobre uma ilha de Kinmen, um pequeno arquipélago controlado por Taiwan, mas que fica muito perto da costa chinesa, em frente às cidades de Xiamen e Quanzhou.

Com a imagem a viralizar nas redes sociais, e havendo dúvidas sobre a sua veracidade, as autoridades de Taiwan acabaram por confirmar que sim, a fotografia era genuína; mas alegaram que não, as coisas não eram bem aquilo que pareciam.

Na terça-feira, o Comando de Defesa de Jinmen confirmou que o incidente ocorreu a 16 de agosto na ilhota Erdan. Segundo a declaração oficial, o Batalhão da Guarnição Lieyu avistou o que descreveu como um "drone civil" a voar perto da ilhota às 18h do dia 16 de agosto. 

Um porta-voz do Comando de Defesa Kinmen acrescentou ao Taiwan News que o drone era, de facto, civil e nunca terá entrado no espaço aéreo da ilhota, mas apenas sobrevoou as águas ao largo da costa do município de Lieyu. Este oficial salientou ainda que, “como se pode ver na fotografia”, um dos soldados está a segurar uma câmara na mão, para fotografar o veículo não tripulado, conforme ditam os procedimentos habituais em tais situações. Como o drone estaria sobre o mar, apenas foi emitido um aviso de rádio. 

Mais: segundo os militares da ilha, o aparelho chinês estaria a uma altitude de aproximadamente mil metros e tinha tirado a fotografia dos soldados com uma potente lente teleobjetiva. Ou seja, nunca estivera tão perto como a fotografia parece sugerir.

Porém, com a divulgação do vídeo em que se veem os soldados a atirar pedras ao drone, esta versão ficou seriamente comprometida - até porque fica claro nas imagens que uma das pedras quase atinge o aparelho. Se estivesse a mil metros de altitude, e sobre o mar, dificilmente uma pedra atirada à mão passaria tão perto. Depois do lançamento dessa pedra, surge outro soldado, com uma espingarda.

Soldados “atiraram espontaneamente pedras”

Numa nova declaração, ao final do dia de quarta-feira, o Comando de Defesa assumiu que também o vídeo era verdadeiro, e que os soldados tinham mesmo atirado pedras contra o alegado “drone civil”. Segundo o Centro de Comando, durante o incidente os oficiais e o pessoal alistado em serviço estavam "altamente vigilantes" e adotaram os procedimentos habituais, tais como identificação, resposta e notificação. Mas o comando reconhece que “oficiais fora de serviço e soldados alistados” que se encontravam no terreno fora da estação de vigilância "atiraram espontaneamente pedras e assediaram o drone, e este voou imediatamente para longe".

Segundo o Ministério da Defesa de Taiwan, os soldados estavam situados numa estação de monitorização especificamente posicionada para monitorizar as aeronaves das Forças Armadas chinesas que voam na área, e por isso o drone em causa não expôs uma grande base militar. de acordo com o ministério, as instalações e posições importantes naquela área foram ocultadas e cobertas. 

O governo taiwanês assegurou ainda que, com a utilização de métodos conjuntos de inteligência, vigilância e reconhecimento na zona de defesa, é capaz de monitorizar eficazmente a dinâmica das forças em presença naquela zona.

As tropas que guardam estas ilhas mais próximas da China seguem o princípio de "preparar a guerra sem procurar a guerra", e têm instruções para "não escalar o conflito e causar disputas"

Desde que a líder da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, visitou Taiwan, no início de agosto, Taipé tem assinalado repetidas incursões de drones chineses perto das ilhas exteriores, nomeadamente aquelas que estão mais próximas da China continental.

A China ainda não comentou este episódio, mas os milhões de partilhas nas redes sociais chinesas mostram que para muitos utilizadores a Defesa de Taiwan se tornou uma espécie de piada.

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