"A primeira batalha da próxima guerra". China "seria derrotada" numa invasão a Taiwan mas EUA perderiam "dezenas de navios, centenas de aeronaves e milhares de militares"

10 jan, 08:00
Exército de Taiwan (Getty Images)

A invasão começa sempre da mesma forma e acaba quase sempre com o mesmo resultado. Think Tank americano fez 24 simulações de uma invasão chinesa a Taiwan e o resultado não é muito animador

Uma derrota terrível para o invasor, mas uma vitória muito cara para quem defende. Uma invasão chinesa a Taiwan em 2026 levaria a uma derrota estratégica para Pequim, com um enorme rasto de destruição e milhares de mortos, afirma o mais recente relatório do Center for Strategic and Internacional Studies (CSIS), um think-thank norte-americano.

As perspectivas não são muito melhores para o lado dos defensores, com os exércitos dos Estados Unidos da América e do Japão a ficarem num estado de degradação muito avançado ao perder uma parte significativa da sua marinha, incluindo alguns dos seus mais importantes porta-aviões. Os analistas acreditam mesmo que o resultado do conflito acabaria por diminuir o estatuto dos EUA no palco mundial. 

O estudo intitulado “A primeira batalha da próxima guerra” simulou um conflito entre a China e Taiwan, que contava com as intervenções norte-americana e japonesa. Nesta que é descrita como uma das simulações completas e “extensivas”, o think-tank norte-americano analisou duas dezenas de cenários e fez 24 simulações que pretendiam responder a duas questões: uma invasão teria sucesso e a que custo?

“Os Estados Unidos e o Japão perdem dezenas de navios, centenas de aeronaves e milhares de militares. Tais perdas prejudicariam a posição global dos EUA por muitos anos. A China também sofre muito. A sua marinha está em frangalhos, o núcleo das suas forças anfíbias está quebrado e dezenas de milhares de soldados são prisioneiros de guerra”, escrevem os especialistas no relatório.

A invasão começa sempre da mesma forma e acaba quase sempre com o mesmo resultado. A China começa por bombardear intensamente os alvos militares taiwaneses, afunda a vasta maioria da marinha de Taiwan e destrói uma grande parte dos aeroportos e aeródromos, bem como os seus aviões. Segue-se o cerco total, com a marinha chinesa – a maior do mundo em número de embarcações – a interditar qualquer tentativa de fazer chegar ajuda a Taiwan por via marítima.

Marinha taiwanesa faz exercícios militares (Getty Images)

Depois, vem a onda humana: a invasão. Uma maciça operação anfíbia, apoiada por milhares de pequenas embarcações que transportam fuzileiros chineses, veículos blindados e carros de combate e as respectivas munições. Mas é nesta fase que o pesadelo começa para o exército chinês. Apesar da maciça campanha de bombardeamento, os especialistas acreditam que o exército taiwanês conseguiria cercar as tropas chinesas acabadas de desembarcar, impossibilitando a chegada de reforços e de munições.

É nesta fase que começa a surgir a primeira ajuda dos Estados Unidos e do Japão. Submarinos, bombardeiros e caças começam a causar sérios problemas à marinha chinesa que tenta criar um bloqueio à ilha, aumentando a vulnerabilidade das dezenas de milhares de militares que se encontram à espera de desembarcar em Taiwan. Segue-se o confronto entre as mais poderosas marinhas do mundo, mas o resultado, na vasta maioria das 24 simulações, é quase sempre o mesmo: Taiwan continua independente.

Tudo depende de um grande “senão”. Taiwan tem de decidir dar luta e resistir e não se render antes da chegada de ajuda. O relatório estima que, da parte chinesa, mais de dez mil soldados perdem a vida, 138 navios são afundados e 155 aeronaves são destruídas. Tudo isto apenas nos primeiros dias.

Apesar da China ser o principal derrotado, a destruição causada em Taiwan não deixaria espaço para grandes celebrações. Mesmo não sendo bem-sucedida, a invasão deixaria uma grande parte das infraestruturas taiwanesas completamente destruídas e a vasta maioria das infraestruturas críticas ficariam inoperacionais. Mais de 3.500 soldados taiwaneses perderiam a vida e todos os 26 navios da sua marinha seriam afundados.

Os autores do estudo admitem que uma guerra por Taiwan não é um cenário “inevitável ou mesmo provável”, até porque a liderança chinesa pode adotar uma estratégia de “isolamento diplomático” ou de coerção “económica contra Taiwan”.

Exército taiwanês leva a cabo exercícios miltiares em resposta à China (Getty Images)

Porém, o Pentágono não partilha desta visão e apelida o regime chinês e as suas ambições para a região como “uma ameaça”. No relatório produzido pela defesa norte-americana no final do ano passado, os líderes militares americanos acreditam que a China pode chegar a ter 1.500 armas nucleares até 2035. A situação já levou os Estados Unidos a começar o trabalho de integração militar do exército americano, japonês e filipino.

Segundo o jornal Financial Times, o comando miliar americano no japão está a ser integrado a um ritmo acelerado, de forma a coordenar ações militares caso um conflito estale na região. O tenente-general dos fuzileiros James Bierman revelou em entrevista que os EUA estão a tentar desenvolver o trabalho que permita ao Ocidente prestar o apoio necessário a Taiwan em caso de invasão, à semelhança do que aconteceu com a Ucrânia.

“Porque é que alcançámos o nível de sucesso que alcançámos na Ucrânia? Grande parte porque, após a agressão russa em 2014 e 2015, conseguimos preparar-nos seriamente para um conflito no futuro: treinámos os ucranianos, pré-posicionamento de mantimentos, identificação de locais a partir dos quais poderíamos operar, apoiar, sustentar as operações. Chamamos a isto criar o teatro de operações. E estamos a montar o teatro de operações no Japão, Filipinas e outras localidades”, revelou.

E para Taiwan e para o Ocidente é bom que isso aconteça, uma vez que o estudo do CSIS antevê fortes perdas para as forças japonesas, com a perda de mais de uma centena de aeronaves, 26 navios de guerra e com as bases militares americanas no seu território a serem alvo de fortes bombardeamentos chineses.

Força aérea de Taiwan (Getty Images)

O aprofundar de relações diplomáticas com o Japão é precisamente uma das condições obrigatórias que o relatório sugere para o sucesso do Ocidente no campo de batalha, uma vez que os EUA vão precisar de usar as suas bases militares. Mas além disso, os EUA e os seus aliados precisam de treinar e fortalecer o exército taiwanês, para que este seja capaz de sobreviver ao primeiro impacto das hostilidades.

Este conflito não vai poder ter a Ucrânia como modelo. No caso da invasão à Ucrânia, a Rússia foi incapaz de cortar o fornecimento de material de guerra por parte do Ocidente, o que permitiu aos ucranianos não só lutar, como utilizar sistemas mais eficientes e mortíferos contra as tropas russas, acabando por frustrar os planos das chefias militares russas. O mesmo não acontecerá numa invasão a Taiwan. Por isso, o CSIS acredita que a América deve armar Taiwan em tempo de paz e intervir rapidamente em caso de guerra.

“Em tempos de paz, os Estados Unidos e Taiwan devem trabalhar juntos para fornecer a Taiwan as armas de que necessita; em tempo de guerra, se os Estados Unidos decidirem defender Taiwan, as forças dos EUA deve entrar rapidamente em combate”, sugere o relatório.

Mas uma vitória dos Estados Unidos poderia ser muito mais cara do que se pensa, sofrendo mais a longo prazo do que os chineses “derrotados”. Para mitigar esse risco, o relatório sugere a fortificação das bases militares no Japão e na ilha de Guam, bem como uma reestruturação total da força aérea e da marinha, mais focadas em navios pequenos e aviões mais baratos e rápidos de produzir.

A intensidade do conflito entre potências poderia levar os Estados Unidos a ficar sem navios e aviões após um conflito tão intenso.

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