Há milhares de anos que usamos compressas de ervas. Investigadores estão agora a explorar a ciência por trás delas

CNN , Rebecca Cairns
7 fev, 16:00
Uma compressa de ervas é uma bola de plantas e especiarias secas, bem enroladas num pano de algodão (CNN)

Uma compressa de ervas é uma bola de plantas e especiarias secas, bem enroladas num pano de algodão, como pode ver na imagem principal deste artigo

O aroma perfumado da erva príncipe mistura-se com o gengibre terroso e com o tamarindo picante, pontuado pelo aroma forte e mentolado da cânfora. É um cheiro familiar para que costumam frequentar spas: uma tradicional compressa de ervas tailandesa.

O tratamento combina ervas num pano de algodão, que é enrolado numa bola compacta e aquecido a vapor por cerca de 10 minutos, antes de o terapeuta aplicá-lo no corpo, normalmente depois de uma massagem.

Há séculos que as compressas de ervas são usadas para dores musculares, dores nas articulações e para reduzir a inflamação. Contudo, não é claro que parte dos benefícios vem mesmo das ervas: um artigo de revisão de literatura científica, de 2015, destacava que os efeitos estavam principalmente associados ao calor, que aumenta o fluxo sanguíneo e reduz a dor.

Embora a medicina com ervas seja uma indústria multimilionária, espalhada por todo o mundo, o certo é que as diferentes práticas culturais, crenças e conhecimentos dificultam a sua padronização e regulamentação. Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2018, quase metade dos estados-membros não possuía uma política nacional sobre medicina tradicional - e apenas 64% tinham regulamentações sobre medicamentos fitoterápicos, isto é, assentes em plantas medicinais e nos seus derivados.

A OMS reconhece que a falta de dados resultantes de investigações científicas é uma das maiores barreiras para uma regulamentação eficaz.

Na Tailândia, o Centro de Excelência em Investigação Aplicada de Medicina Tradicional Tailandesa (também conhecido como CEATMR) da Universidade Thammasat, em Pathum Thani, tem como objetivo fornecer investigações sobre as propriedades únicas das ervas utilizadas em compressas fitoterápicas, tornando assim mais acessível este remédio antigo, afirma a diretora Arunporn Itharat.

As compressas de ervas são aquecidas, normalmente numa panela a vapor, antes de serem aplicadas (CNN)

 

As ervas – incluindo o açafrão, a erva príncipe e o tamarindo – são preparadas para fazer uma compressa de ervas (CNN)

Tal como acontece noutros países do Sudeste Asiático, as terapias alternativas são populares na Tailândia, com investigações a apontar o uso comum de ervas medicinais entre a população, principalmente em áreas rurais. No entanto, há muito conhecimento tradicional que precisa de ser comprovado cientificamente, afirma Itharat.

“As ervas têm variações significativas nas suas propriedades. Essa variabilidade é um dos principais desafios que enfrentamos”, descreve. “Temos de validar o processo de extração para garantir consistência em cada lote”.

Outro problema está no facto de “uma única erva poder ter muitas variedades diferentes”, refere Itharat, acrescentando que “a identificação incorreta é um grande problema na fitoterapia”.

Em 2020, a investigação de Itharat, publicada na revista científica Science & Technology Asia, apurou que há ervas podem contribuir de forma mais significativa para a eficácia de uma compressa de ervas. “Ao isolar e testar cada ingrediente, o estudo identifica componentes específicos que contribuem para o efeito anti-inflamatório geral”, diz.

Este centro de investigação está a aplicar conhecimentos tradicionais, de que é exemplo o momento ideal para a colheita das ervas, para tornar os extratos mais eficazes.

Por exemplo, com o Zingiber montanum, um tipo de gengibre conhecido como "plai" na Tailândia, “os mais velhos sempre enfatizaram que as raízes devem ser colhidas no inverno, quando a planta murcha e seus compostos ativos se concentram nas raízes”, exemplifica Itharat. Como este tipo de conhecimento tradicional costuma ser alvo de anedotas e não foi testado cientificamente, o CEATMR está a trabalhar para validá-lo e padronizá-lo.

“Podemos desenvolver o extrato para um medicamento pronto, tornando o seu uso mais conveniente. E, acima de tudo, podemos controlar a qualidade”, aponta.

Aplicações modernas

Uma mulher recebe uma massagem com compressa de ervas (CNN)

Estes extratos têm sido incorporados em produtos modernos, como emulsões em gel e cremes, que são vendidos na farmácia de ervas do CEATMR, na Universidade Thammasat.

Na sua investigação, Itharat está também a explorar outros métodos inovadores de aplicação, como um adesivo de hidrogel refrescante, que poderá permitir uma libertação mais controlada do extrato de ervas quando comparado com óleos e cremes. Outro exemplo passa por uma compressa elétrica de ervas, em colaboração com a Agência Nacional de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia da Tailândia e o Centro Nacional de Tecnologia Eletrónica e de Computadores.

Como funciona? Uma compressa condutora de calor, em formato de bola, é fixada a um longo cabo com uma bateria interna. Em vez de ervas envolvidas pela compressa, há um gel com extratos concentrados de ervas, que é aplicado na pele e massajado pela compressa elétrica.

“Normalmente, as compressas têm de esterilizadas a vapor e trocadas muitas vezes. Contudo, a nossa compressa elétrica pode ficar ligada até oito horas”, conta Itharat.

A aplicação direta do gel de ervas na pele oferece uma eficácia maior face à sua aplicação através de um pano de algodão. Além disso, permite uma dosagem padronizada e controlada do ingrediente ativo, argumenta a responsável. A compressa elétrica ainda está em desenvolvimento. A equipa está a tentar reduzir o tamanho da alça do protótipo, de modo a torná-la mais pequena e, logo, mais fácil de transportar.

Uma indústria em crescimento

O governo tailandês deu, este ano, um grande impulso àquilo que é o seu tradicional negócio do bem-estar. Desse esforço faz parte uma campanha nacional que promove o uso de medicina de ervas tailandesa, o lançamento de uma exposição nacional, bem como a integração de massagens tailandesas e de compressas de ervas no seu pavilhão na Expo 2025 em Osaka, no Japão.

Num comunicado de imprensa do Ministério da Saúde Pública da Tailândia, a primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra descreveu este pavilhão como uma “mostra de um dos maiores ativos da Tailândia: a integração do serviço médico com as práticas tradicionais tailandesas de saúde e bem-estar”. Shinawatra definiu a ambição de ter o país como um líder global no setor da saúde. Dela faz parte o esforço para reduzir a dependência das importações de medicamentos, aumentando o valor do negócio de ervas da Tailândia para 3 mil milhões de baht (cerca de 80 milhões de euros) até 2026.

A Tailândia é um dos poucos países que têm investido fortemente em investigação e legislação sobre medicina tradicional. Em 2021, a Universidade Thammasat começou a oferecer um mestrado em Clínica de Medicina Tradicional Tailandesa, o primeiro no país a integrar medicina tradicional e moderna.

O interesse científico em terapias tradicionais e nos efeitos da fitoterapia também está a crescer noutros pontos do globo: uma revisão da literatura científica, feita em 2020, notou um aumento acentuado nas publicações sobre plantas medicinais em todo o mundo desde 2001, com cerca de cinco mil publicações por ano na última década.

O Centro de Investigação em Medicina Tradicional Tailandesa da Universidade Thammasat fica em Pathum Thani, ao norte de Banguecoque (CNN)
A farmácia de ervas do centro possui uma variedade de géis, cremes e emulsões (CNN)

A China e a Índia, que têm os seus próprios sistemas de medicina tradicional, lideram a investigação nesta área, incluindo no trabalho de padronizar o conhecimento existente sobre ervas. Houve, por exemplo, investigadores na China e em Taiwan, a construir bancos de dados para a Medicina Tradicional Chinesa, compilando informações sobre milhares de ervas e a que doenças estão associadas, bem como semelhanças com medicamentos e respetivas interações.

Ainda existe, contudo, uma enorme lacuna nas informações que estão disponíveis. Há mais de 50 mil espécies de plantas que são usadas para fins medicinais em todo o mundo. E há pouca sobreposição entre os bancos de dados dos diferentes países. Os nomes das plantas também não costumam estar padronizadas, o que pode criar ambiguidades sobre que erva está mesmo em casa – ou correndo o risco de um tratamento ineficaz ou até mesmo de envenenamento.

Itharat espera que mais conhecimento tradicional venha a ser validado, para que seja introduzido através de terapias complementares, ajudando os pacientes a recuperarem (ou até mesmo a curarem-se) mais depressa.

“A humanidade depende da natureza para medicamentos há milhares de anos. Por isso, a ligação entre a natureza e a saúde humana é inegável”, resume Itharat. “O desafio está em tornar este conhecimento tradicional mais acessível, preservando-o para as gerações futuras e partilhando-o globalmente”, remata.

Saúde

Mais Saúde