Luiz Neto veio do Brasil de férias a Portugal quando tinha 15 anos e ficou por cá. Está a jogar no Campeonato de Portugal, mas já teve contrato com o empresário Jorge Mendes e no sábado vai jogar a Alvalade depois de uma semana terrível para o clube da Marinha Grande
O Marinhense está a passar por uma semana de emoções fortes. Na mesma altura em que o plantel está a preparar um dos jogos mais importantes da temporada, com a visita a Alvalade, para defrontar o Sporting, na Taça de Portugal, o treinador Rui Sacramento foi suspenso pelo clube, na sequência de uma denúncia anónima que fala em «abuso psicológico».
Fomos falar com o central Luiz Neto, um jovem brasileiro que veio de férias a Portugal em 2018, com os pais, quando tinha apenas 15 anos, e que acabou por cá ficar até hoje com a ambição de chegar ao mais alto nível.
Uma ambição reforçada quando assinou contrato com o empresário dos empresários, Jorge Mendes, quando ainda jogava nos juniores do Vizela [contrato expirou em 2024].
Uma entrevista em que Luiz Neto explica como é o plantel optou, a dois dias doo jogo com o Sporting, por colocar o problema do treinador numa caixa impenetrável para se concentrar totalmente no jogo do próximo sábado em Alvalade que, afinal de contas, pode mudar a vida de todos.
Tem sido uma semana complicada para o Marinhense. Como é que o plantel está a viver esta situação?
Sobre essa situação, não posso falar muita coisa. O caso já está a ser investigado, os órgãos do clube já tomaram conta do processo, nem tenho muito mais a adiantar.
O Sindicato dos Jogadores revelou que recebeu várias queixas da parte de jogadores que falavam em racismo e abuso psicológico…
O caso surgiu através de uma denuncia anónima, não posso dizer muito mais do que isso.
Mas como é que os jogadores prepararam o jogo nestas condições? É uma semana importante para vocês e vão a Alvalade sem treinador [o clube revelou, já depois desta entrevista ser feita, que a equipa vai ser comandada por um treinador interino]?
É uma situação complicada que apanhou os jogadores pelo meio. Era para ser uma semana feliz, mas foi uma semana mais complicada como muitas coisas a acontecerem, mas ontem mudámos a mentalidade, para nos concentrarmos no jogo, chegarmos a Alvalade a fazermos o nosso melhor, que é jogar à bola e divertirmo-nos. Com esta experiência incrível, ninguém tem com que reclamar.
Conseguiram abstrair-se do problema? Conseguiram treinar normalmente?
Sim, tem de ser, a vida continua. O nosso trabalho é o futebol e para conseguirmos frutos e continuarmos a ser alguém, este jogo vai ser muito importante. É um jogo que pode abrir portas para muitos jogadores, não vou mentir. Temos de chegar lá e aproveitar ao máximo.
Sentes que no sábado é um desses jogos que pode mudar a carreira de um jogador?
Claro, temos de ser sinceros. Vão estar muitas pessoas a assistir, vamos defrontar uma das maiores equipas de Portugal e não podemos negar que em todo o lado vai estar alguém a ver.
Antes de ser suspenso, o treinador atribuiu 99 por cento do favoritismo ao Sporting, mas também disse que Marinhense ia dar tudo pelo 1 por cento que sobrava. É esse o estado de espírito da equipa?
Não, vai ser um jogo com onze pessoas de cada lado, sabemos que eles estão num nível superior, mas também sabemos que são onze homens contra onze homens e o futebol é algo em que tudo pode acontecer.
O Sporting teve muitos jogadores fora nas últimas semanas, ao serviço das seleções. Que adversário é que esperas encontrar este sábado?
Sei que não vão jogar com uma equipa qualquer, vão jogar com uma equipa competitiva, sei que, tal como nós, vão jogar para ganhar. Não sei qual é o onze que vai jogar, mas acho que vai jogar o onze titular, mas posso estar errado.
És central, qual o jogador do Sporting que te pode proporcionar mais dificuldades?
Vamos lá. O Quenda é um jogador do c******* que nos pode colocar muitas dificuldades. Também têm o Alisson, o brasileiro, que tem vindo a fazer bons jogos e marcou um golo na Champions. Não vai ser fácil, mas, como já disse, são onze contra onze e cada um vai mostrar a sua habilidade. Não vai importar muito, acho que quando entras num jogo a olhar para os nomes das camisolas, já entras a perder. Temos que entender que o futebol é algo inesperado e que vai vencer o melhor.
Falaste no Quenda, aí no Marinhense tens o Batalha que também passou pela formação no Sporting…
É verdade, li uma reportagem sobre isso, mas ainda não comentei com ele até agora, queria ter comentado, mas não lembrei. Sei que ele foi considerado uma promessa na formação do Sporting. Olha, vou falar nisso com ele hoje, vou perguntar-lhe essas coisas todas.
O Marinhense já ganhou uma vez em Alvalade (2-1), já em 1964, também para a Taça de Portugal. É possível repetir esse feito?
Se disser que não é possível estou a ir contra as minhas convicções, acho que tudo é possível, basta a gente acreditar. É esse o lema que temos de seguir. Já vi jogos em que achei que era impossível e aconteceu o impossível. Muitos dizem que é impossível, mas a gente não sabe, pode acontecer alguma coisa e a gente sair vitorioso. O futebol é isso, não podemos dar nada como certo.
Como é que vai ser jogar num estádio como o de Alvalade. Que ambiente esperas encontrar?
É uma sensação incrível, estou ansioso por esse jogo. Não tenho dúvidas de que vai ser magnífico entrar naquele estádio, com todo aquele público à volta. Para uma pessoa que gosta muito de futebol, adoro aquilo, a pressão. Entrar naquele estádio junto com os meus companheiros e sentir que o cerco está fechado com os torcedores... Não vamos ter com que reclamar, é só jogar à bola.
O Marinhense vai levar muitos adeptos? Como é que a Marinha Grande está a viver este jogo?
Não tenho ideia, mas espero que sim, acho que a cidade podia ir ajudar a gente. Afinal de contas, é uma partida histórica que vai acontecer. Não sei mesmo como é que a comunidade aqui está a organizar-se, mas espero que estejam lá.
Sabes que o Sporting também tem um Luís Neto que também foi central e que agora está na equipa técnica…
Devemos ser da mesma família (risos). Quando cheguei aqui a Portugal, lá para 2019, reparei que havia um Luís Neto a jogar porque o meu nome estava a mudar para Neto dentro de campo.
Agora jogas com Netto na camisola, com dois T’s. Qual a explicação?
O meu nome é Luís Lopes Neto, só com um T, mas, por superstição minha, decidi jogar assim. Se jogasse com dois nomes, Luís Neto, seria só com um T, mas como é só Neto, achei que tinha de ser com dois T’s. Superstição…
Nasceste em Santos, em São Paulo, em 2003, como surgiu a oportunidade de vires para Portugal com 15 anos?
A oportunidade surgiu em 2018 quando um grande amigo meu, de Santos, jogava na formação do Rio Ave. Deram-me a oportunidade para vir fazer um teste, o clube queria que eu ficasse, mas senti que ainda não estava preparado para sair. Ainda era muito jovem. Sair do meu país, do meu conforto, não estava preparado.
Mas acabaste por vir uns meses depois…
Foi literalmente assim. Um ano depois, com 16 anos, a minha família veio fazer uma viagem a Portugal, para conhecermos alguns pontos na Europa, e reencontrei o tal amigo do Rio Ave. Estávamos sentados a conversar e passou um treinador, o Ricardo Braziela (sub-17 do Rio Ave). Estivemos a conversar e ele foi falar com o meu pai para eu ficar aqui. Vim com uma mala para passar um mês de férias e já cá estou cá há cinco, quase seis anos. É uma história louca.
Começaste por jogar na formação do Nogueirense, na Maia. Que recordações é que guardas desses primeiros tempos?
Só memórias boas. Tenho um carinho muito grande pelo Nogueirense, gosto muito de coração, vou sempre desejar o melhor para eles. Foi ali que fui inserido no futebol português. Cheguei um menino jovem que ninguém conhecia e foi ali que comecei a ter notoriedade, foi ali que começaram a saber quem eu era. Mesmo não sendo uma equipa grande, foi ali que comecei a ter o meu destaque. Só tenho de agradecer, foi uma família muito boa, cuidam muito bem de todos lá.
Depois foste para o Vizela ainda como júnior e chegaste até aos Sub-23. Estiveste mesmo ali à porta da equipa principal...
Cheguei a treinar com a equipa principal, mas nunca tive espaço para me estrear. Estive lá muito tempo, treinava durante a semana com o plantel principal, depois jogava aos fins-de-semana pelos sub-23.
Foi nessa altura que conheceste o empresário Jorge Mendes?
Acho que estava ainda nos Sub-19 do Vizela. Já treinava com os seniores, mas foi só ao fim de cinco meses que fui assinar contrato com o Jorge Mendes. Conheci o Jorge Mendes pessoalmente, mas não houve muita conversa. Ele é uma pessoa muito ocupada, está sempre a falar ao telemóvel.
Mas é uma grande vantagem para um jovem jogador ter a carreira gerida pelo maior empresário do mundo…
É um grande orgulho para mim, ainda por cima assinei contrato na presença dele, não foi apenas a empresa dele. Sinto-me lisonjeado porque nunca imaginei que fosse possível. Tenho de ser sincero, o maior empresário do mundo é o meu empresário… ainda hoje penso nisso, foi um grande momento.
Ele tem gerido a carreira de grandes figuras do futebol mundial, falou-te nalguma estratégia para a tua carreira?
O Jorge [Mendes] trata pessoalmente dos jogadores que estão acima, que estão noutro patamar, quem tratava de mim era o pai do João Neto [jogador do Bragantino].
O ano passado regressaste ao Brasil, jogaste no Maringa e ajudaste o Monte Azul a subir à Serie 2 do Campeonato Paulista. Pensaste em regressar definitivamente ao futebol brasileiro?
Sinceramente, senti-me meio perdido. Estive muitos anos sem morar no Brasil, mas como era jovem, sentia que precisava de voltar. Quando regressei, porém, percebi que o meu lugar já não era no Brasil. Tomei um choque de realidade em relação a muitas coisas.
É um futebol muito diferente?
Não é muito, é totalmente diferente. Lá não sou conhecido, não tenho uma história. Aqui em Portugal, querendo ou não, sabem quem eu sou. Lá tinha de conquistar tudo o que já tinha conquistado aqui. Há muitas coisas que são diferentes de Portugal e não me adaptei. Voltar para lá sem jogar futebol é uma coisa, mas com futebol não dá. A minha vida no futebol é aqui na Europa, não consigo voltar ao Brasil.
Adaptaste-te bem a Portugal? Já estiveste na Maia, Vizela, agora na Marinha Grande
Portugal é um lugar em que vim ainda criança como turista e, sem perceber muito bem como, vai ser muito difícil tirarem-me daqui. É mais fácil o Brasil ser o meu local de férias do que Portugal hoje em dia.
Para acabar, estás a jogar no Campeonato de Portugal, tens 22 anos, quais as expectativas para o futuro?
É subir. Depois desta paragem no Brasil, tive de descer alguns patamares, mas não vejo isso como um atraso na vida, mas sim como uma aprendizagem. O que almejo é sempre o melhor. Na minha cabeça, o que quero é ter notoriedade no futebol, quero subir à Liga e quero mostrar o meu valor. É isso que almejo.