A sustentabilidade energética é um dos desafios mais prementes da economia global, sobretudo em setores tradicionalmente mais poluentes, como a indústria transformadora e a mobilidade. Sendo grandes consumidores de energia proveniente da combustão de hidrocarbonetos, estes setores enfrentam uma crescente pressão regulatória e social para a redução da emissão de gases com efeito estufa. Ou seja, a viabilidade a médio-longo prazo depende de uma rápida transformação direcionada para reduzir o seu impacto ambiental.
Para alcançar a transição para tecnologias mais limpas, a adoção de práticas sustentáveis e a inovação tecnológica, são assim determinantes para que várias indústrias e serviços continuem a operar de forma viável e competitiva. É neste contexto que o hidrogénio verde surge como potencial pilar da descarbonização da indústria, e, portanto, da economia. De facto, dados do Parlamento Europeu indicam que a sua utilização poderá representar até um quinto do cabaz energético europeu em 2050, quando hoje totaliza apenas 2%.
Portugal está em situação privilegiada para aproveitar esta oportunidade emergente e capitalizar a utilização de uma nova fonte de energia limpa, estando assim na dianteira dos seus parceiros europeus: tem localização geográfica estratégica (com destaque para a região de Sines), custos de produção energética baixos em comparação com a média europeia e uma infraestrutura de gás natural relativamente moderna.
A competitividade do hidrogénio verde como portador de energia exige, no entanto, a otimização de toda a cadeia de valor do hidrogénio. Nomeadamente, colocam-se vários desafios tecnológicos: são essenciais o desenvolvimento de eletrolisadores mais eficientes e a utilização de energias renováveis (de baixo custo) nos processos químicos associados à produção de hidrogénio limpo; é também necessária a conversão de infraestruturas, para ultrapassar desafios como a elevada inflamabilidade e a dificuldade na seleção de materiais para o armazenamento e distribuição de hidrogénio, dada a elevada solubilidade em alguns metais; adicionalmente, a competitividade do hidrogénio verde depende também da adesão dos consumidores e da robustez do sistema de distribuição.
Portugal demonstrou já forte compromisso com esta transformação, posicionando-se como um dos países europeus mais ambiciosos na adoção do hidrogénio verde. Exemplo disso é a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (EN-H2), apresentada em 2020, que define metas ambiciosas para a incorporação do hidrogénio verde nos setores de energia, transportes e indústria. No entanto, é urgente a definição de uma estratégia nacional para as redes de transporte e distribuição, incluindo o volume a injetar na rede e respetivo preço e a revisão de infraestruturas - a exemplo da estratégia para produção de energia renovável eólica, hídrica e fotovoltaica desenvolvida no passado. Adicionalmente, a implementação da indústria de hidrogénio verde em Portugal, nomeadamente em indústrias grandes consumidoras de energia como a cimenteira, vidreira e cerâmica, requer investimentos importantes em políticas de apoio e incentivos fiscais. Apesar da imaturidade do processo de transição, em Portugal existem já em desenvolvimento alguns projetos de vanguarda, com grande escala. É o caso do MadoquaPower2X (MP2X), para produção de hidrogénio verde e amoníaco, em Sines. Também a Galp tem em construção um projeto de 100 MW de hidrogénio verde para consumo na Refinaria de Sines - curiosamente, o setor com maior potencial para liderar esta mudança é o dos combustíveis fósseis, já que as suas redes e equipamentos estão preparados para a circulação de hidrogénio de cracking catalítico.
É fundamental para Portugal posicionar-se neste desafio, num momento em que poder político, reguladores e setor privado europeus projetam de raiz o mercado interno do hidrogénio.
