Empoleirada numa prancha de surf e reduzida a um ponto minúsculo perante uma torre de água cerca de 10 vezes maior do que ela, o medo é uma das primeiras emoções que a surfista de ondas gigantes Laura Crane sente antes de descer a pique um colosso de 18 metros.
"Desde o momento em que largas a corda e vês esta montanha de água a crescer atrás de ti, surgem sentimentos instantâneos de medo, que são, claro, uma reação corporal", explica Laura Crane à CNN.
Com ondas que variam entre os 7,5 metros e, por vezes, mais de 21 metros de altura, os surfistas de ondas gigantes podem atingir velocidades de até 100 km/h ao descerem estas paredes de água. Se caírem ou sofrerem uma queda, o impacto pode ser o mesmo do que o de um acidente de carro.
Mas, longe de a dissuadir de enfrentar o topo das águas rugidoras, a britânica Laura Crane utiliza o medo como combustível.
"Vejo o medo mais como um catalisador para algo incrível que está prestes a acontecer e que me entusiasma - prepara-me para enfrentar o que estou prestes a enfrentar. Deixa-me muito alerta e também me lembra de me acalmar e de provar a mim própria que consigo manter a calma nesses momentos de medo", acrescenta.
Laura Crane é uma das poucas mulheres que já enfrentaram as ondas na Nazaré, a vila piscatória portuguesa conhecida pelas suas ondas gigantes de 30 metros.
A ameaça dessas ondas não é infundada: o lendário surfista Mark Foo morreu em Mavericks, na Califórnia, em 1994, enquanto o havaiano Todd Chesser perdeu a vida ao surfar uma grande ondulação num recife ao largo da costa norte de Oahu em 1997. Concussões, ossos partidos e lesões na coluna são comuns neste desporto, e os condutores de motas de água têm de estar prontos para resgatar os atletas.
"Quando as ondas são mesmo, mesmo, mesmo grandes, é quase como ser atropelado por um comboio se caíres", afirma a surfista guatemalteco-americana Polly Ralda, em declarações à CNN.
"Às vezes, cais e não acontece nada. Outras vezes, cais e és destruída - ombros deslocados, pernas deslocadas - e isso acontece a toda a gente".
"É impiedoso: é muito perigoso, já desmaiei, já estive tantas vezes à beira da morte", acrescenta Polly Ralda.
"Muda a perspetiva sobre o que acham que as mulheres conseguem fazer"
As raízes do surf remontam ao século XII, no Havai e na Polinésia pré-moderna, e o surf de ondas gigantes tem vindo a conquistar espaço no panorama desportivo global, com competições em locais de renome como Nazaré, Pe’ahi (também conhecido por Jaws), em Maui, e Waimea Bay, em Oahu, a atrair grande atenção mediática.
Mas a inclusão em competições de prestígio - e os patrocínios e prémios monetários daí resultantes - nem sempre estiveram ao alcance das mulheres, que foram muitas vezes excluídas destes eventos.
Foi apenas em 2016 que as mulheres puderam competir, pela primeira vez, na competição de ondas gigantes da World Surf League (WSL), após anos de discussões entre surfistas e organizadores que, entre outras justificações, alegavam que estas competições eram demasiado perigosas para mulheres.
Ainda mais recentemente, em 2018, a WSL anunciou que iria oferecer prémios monetários iguais a atletas masculinos e femininos nas suas competições - tornando-se na primeira e única liga desportiva global com sede nos EUA a fazê-lo.
Na maioria das competições de ondas gigantes, os homens continuam a ter mais vagas do que as mulheres, com base nos critérios de qualificação.
A CNN contactou a WSL para mais informações sobre os requisitos e estipulações para entrar nas competições.
Quando Laura Crane era adolescente, disse a uma orientadora vocacional que queria ser surfista profissional.
"Ela riu-se literalmente de mim e disse: 'Oh, Laura, isso é tão querido. Mas sabes, és do Reino Unido, e as raparigas não fazem muito disso'", recorda.
Laura Crane afastou-se do surf durante vários anos depois de se sentir desiludida com a indústria, onde sentia que as mulheres eram valorizadas apenas pela aparência.
"Não havia muito espaço para as mulheres ultrapassarem os seus limites físicos e fazerem aquilo que eu realmente sentia paixão por fazer. Esperavam muito mais que posássemos de biquíni e conseguíssemos o maior número de visualizações possível", acrescenta.
Acabou por regressar ao surf e, desta vez, queria perseguir um destino maior e melhor.
"É preciso muita coragem para ir lá para fora nos dias de ondas maiores", explica.
"Definitivamente, tens de conquistar o teu respeito, como todos os outros, no mundo das ondas gigantes. Acredito que, num dia desses, todos são iguais, porque se estás lá, tens o respeito dos homens".
Ainda assim, Laura refere que existe uma disparidade entre aquilo que os surfistas masculinos e femininos podem ganhar nas suas carreiras.
"Pode não ser necessariamente uma questão de não pagarem o mesmo às mulheres, mas simplesmente as oportunidades são muito menos", explica, referindo-se ao menor número de vagas em competições e oportunidades de patrocínio para mulheres.
Quando as competições não têm vagas iguais para homens e mulheres, "isso não nos coloca na mesma plataforma", considera.
Polly Ralda concorda, dizendo que, tanto quanto sabe, apenas duas mulheres conseguiram patrocínio "exclusivamente por causa do surf de ondas gigantes".
"Como o Evel Knievel a saltar por cima de um desfiladeiro"
A realizadora Sachi Cunningham afirma que o surf feminino registou "o maior crescimento de sempre" nos últimos 15 anos, em declarações à CNN. No entanto, apesar disso, continua a haver falta de financiamento para filmes sobre mulheres no surf de ondas gigantes, ao contrário de documentários como "100 Foot Wave", centrados em homens no desporto.
"É um direito inato dos homens fazerem coisas perigosas e quebrarem barreiras. Para as mulheres, só recentemente é que isso foi sequer apresentado como uma possibilidade", explica.
"O surf de ondas gigantes é apenas um pequeno microcosmo de todos os corredores de poder. E acho que, até sermos iguais em todas essas arenas, há trabalho a fazer".
Para Sachi Cunningham, é evidente a importância de mostrar as trajetórias das mulheres no surf de ondas gigantes. "Vês esta pessoa minúscula numa onda de 18 metros e ficas de boca aberta: é como o Evel Knievel a saltar por cima de um desfiladeiro. Não é difícil perceber o quão extraordinário é este feito para qualquer ser humano - estão claramente a ultrapassar os limites do que os humanos conseguem fazer", afirma.
"E depois, quando percebes que é uma mulher, acho que isso muda completamente o mundo para muita gente - muda a perspetiva sobre o que acham que as mulheres conseguem fazer”.
Ainda assim, refere que há poucos filmes sobre mulheres no desporto.
"Há claramente interesse no surf de ondas gigantes, e ainda assim não existe praticamente nada sobre as mulheres no surf de ondas gigantes", acrescenta.
"Estamos lá fora nos dias de ondas maiores, como os homens, treinamos tanto quanto eles, deveríamos ter a mesma oportunidade", concorda Laura Crane.
Polly Ralda explica que, para além da falta de vagas em competições e da desigualdade salarial, há sinais ainda mais simples de que as mulheres não têm a mesma posição do que os homens no desporto.
"Estamos a usar fatos de surf masculinos: os coletes de inflação da Patagonia são feitos para homens, até os sistemas de flutuação, aqueles que puxamos, têm dois cartuchos aqui que não são pensados para pessoas com peito, com seios. Tudo é criado para homens", explica.
"Temos de ser corajosas o suficiente para criar os nossos próprios [equipamentos], e ao fazê-lo, temos de aceitar que não surfamos como os homens, e está tudo bem com isso: eu não sou um homem. Não devia surfar como um homem", acrescenta.
Recentemente têm sido feitas várias campanhas pela inclusão das mulheres nas competições de ondas gigantes já existentes. O próximo filme de Sachi Cunningham, "SheChange", ainda em fase de produção, segue as surfistas profissionais Bianca Valenti, Paige Alms, Keala Kennelly e Andrea Moller na sua luta por acesso e remuneração igualitária na competição de ondas gigantes Mavericks, nomeada a partir de uma famosa zona de rebentação ao sul de São Francisco.
"Algumas das pioneiras do desporto, como aquelas que vieram antes de mim, decidiram adotar a abordagem de: 'Queremos ser incluídas nos mesmos eventos. Surfamos de forma igual'. E eu discordo. Acho que é muito diferente', afirma Polly Ralda, fundadora do grupo feminino de surf "Big Wave Babes".
Polly e outras surfistas prefeririam competições separadas. "O que fazemos como mulheres a surfar ondas gigantes, não é como os homens, os nossos corpos são diferentes. Somos mais propensas a lesões, especialmente nos joelhos, porque não temos os mesmos músculos. Eu não quero surfar com os rapazes. Quero outra competição com as raparigas. 7,5 metros já é enorme (para mim)".
"Quero defender oportunidades diferentes, não a mesma oportunidade. Não há maneira de brilhar se fores comparada com os melhores surfistas de ondas gigantes do mundo, que são homens".
Laura Crane afirma que, desde que entrou no surf - e mais tarde, no surf de ondas gigantes - a indústria tem mudado para melhor.
"Acho que há muito respeito, definitivamente, dentro da indústria. Mas acredito que ainda há algum receio em dar às raparigas demasiado protagonismo", declara.
"No entanto, acho que há quem esteja a perceber que nós também somos comercializáveis por direito próprio. Finalmente. E penso que talvez ainda haja um lado que não está completamente pronto para esse momento - mas ele vai chegar", conclui.
