Surfistas enfrentam frio extremo e risco de sofrer queimaduras para apanhar ondas em águas geladas
(Na foto acima: Tim Latte e Dylan Graves com as suas pranchas de surf, em Finnmark, na Noruega. Max Emanuelson)
Foi apenas depois de sair do gelado Mar de Barents, quando parou para admirar a tundra gelada à sua volta, que o surfista Dylan Graves se apercebeu do frio.
Pensando melhor, era óbvio: estava numa praia na ponta norte da Noruega em dezembro, rodeado de gelo e neve, vestido com um fato de neoprene. O frio era inevitável. Além disso, ele e os outros surfistas tinham caminhado durante mais de uma hora pela neve apenas para chegar ao oceano.
“Parecia que estava nalgum planeta de gelo de ‘Star Wars’ ou algo assim”, conta Graves à CNN.
Os surfistas estavam a sentir os efeitos de um vórtice polar — uma grande área de baixa pressão com ar frio em rotação — e a temperatura do ar tinha descido de cerca de -5 ºC para entre -15 e -20 em apenas alguns minutos. Distraído com as paisagens épicas e as ondas incríveis, Graves quase se tinha esquecido da temperatura. Agora, fora de água, percebeu que tinha perdido a sensibilidade nas mãos e nos pés.
“Pensei: isto provavelmente não é bom”, diz. Virando-se para o colega surfista, o sueco Tim Latte, perguntou: “Então, como é que funciona isso das frieiras e das queimaduras de frio?”, recorda.
Depois de decidirem que teriam de ir às urgências se ele não recuperasse a sensibilidade em 30 minutos, começaram a caminhada de uma hora de volta ao carro. Em Finnmark, naquela altura do ano, quando o sol não nasce acima do horizonte, há apenas cerca de três horas de luz por dia — e já estava a desaparecer rapidamente.
“Se imaginarmos um deserto seco, é a mesma coisa, mas com neve e gelo. Quando estamos num lugar extremo como aquele, é outro nível de frio, porque não há onde nos escondermos — o vento aparece e atravessa-nos completamente, não há proteção”, explica Graves.
“Comecei a concentrar-me na caminhada e depois a sensibilidade voltou, e ficou tudo bem, mas foi definitivamente o mais perto que estive de sofrer uma queimadura de frio”, acrescenta.
Isto pode parecer extremo para a maioria das pessoas, mas para o surfista sueco Latte, o clima — e as ondas que ele produz — é uma das melhores coisas da Escandinávia.
Criado em Estocolmo e apaixonado pelo desporto depois de o experimentar durante férias em Fuerteventura, ao largo da costa noroeste de África, Latte não vivia perto de bons locais para surfar, nem de muitas pessoas que partilhassem a sua paixão. Embora hoje o desporto tenha crescido em popularidade na Escandinávia, há 20 anos, “se tivesses um amigo para ir surfar contigo, já era uma sorte”, recorda.
Rapidamente, como muitos surfistas, começou a viajar pelo mundo para competições — muitas vezes em águas bastante mais quentes do que aquelas a que estava habituado.
“Sou da Escandinávia, cresci a surfar aqui, e somos quase condicionados a achar que temos de ir para o estrangeiro para surfar — temos de ir para a Austrália, Estados Unidos, Portugal, e estamos sempre a viajar”, diz. “Fazer isso ano após ano acaba por cansar.”
Depois de procurar ondas no Báltico e passar mais tempo na costa da Noruega, de onde a mãe é natural, Latte percebeu que a Escandinávia era onde queria passar o tempo a surfar e a explorar, muitas vezes longe das multidões que as águas mais quentes atraem.
“Está tudo praticamente por descobrir”, afirma. “Dá para surfar o ano inteiro, mas a melhor altura é no inverno.”
Foi exatamente para experimentar isso que Graves viajou 35 horas desde a sua casa na Austrália. Como apresentador da popular série de YouTube “Weird Waves”, ele explora e surfa algumas das linhas costeiras mais interessantes do mundo e mostra as suas comunidades. Por isso, quando ele e Latte começaram a falar sobre a possibilidade de surfar numa plataforma marítima do Ártico, ao largo de Finnmark — que faz fronteira com a Lapónia finlandesa a sul e com a região russa de Murmansk a leste — aceitou imediatamente.
A região é o lar da maior população do povo indígena Sami na Noruega. Estima-se que existam cerca de 80.000 samis a viver na Lapónia, a sua terra ancestral, que se estende pelas zonas mais a norte da Escandinávia e pela península de Kola, na Rússia.
Tendo crescido em Porto Rico e a viver agora na Austrália, Graves diz que experimentar uma cultura onde a criação de renas é tão importante para a vida quotidiana foi revelador.
“O nosso Airbnb era de um habitante local e deixaram-nos um coração de rena com um bilhete muito engraçado a dizer: ‘Bem-vindos ao vosso Airbnb. Aqui têm um coração de rena. Fica bom com cerveja e batatas fritas.’ Para mim, isso é incrível.”
“Estar numa viagem de surf e ter experiências destas deixa-me muito feliz e entusiasmado, porque é uma experiência de surf muito única.”
Com o frio e as ondas espetaculares, Graves diz que foi uma oportunidade perfeita para testar os seus limites.
“Que outra oportunidade vou ter para apanhar ondas muito boas sem ninguém por perto — o que hoje em dia já é raro por si só — e ao mesmo tempo sentir-me completamente fora do meu ambiente normal?”, questiona.
“Fui confrontado com algo completamente desconhecido para mim”, acrescenta. “O surf, no geral, ensina muito isso, porque muitas vezes estamos quase noutro mundo. E sinto que me ensinou muitas lições.”