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Suplementos para ganho muscular podem colocar adolescentes em risco de transtorno de imagem corporal

CNN , Madeline Holcombe
16 mar 2025, 09:00
Batido de proteína (pexels)

Batidos de proteína, misturas pré-treino e outros suplementos para ganho de massa muscular nem sempre são só parte de uma rotina de treino. Em adolescentes e jovens adultos, estes produtos podem estar relacionados a um transtorno de imagem corporal com impacto patológico no desenvolvimento muscular e na magreza, de acordo com um novo estudo.

“O uso de seis suplementos alimentares diferentes destinados à construção muscular foi associado a maiores sintomas de dismorfia muscular”, começa por explicar, por escrito, Kyle Ganson, autor principal do estudo e professor assistente na Factor-Inwentash Faculty of Social Work da Universidade de Toronto. “Isso inclui proteína de soro de leite em pó e creatina, ambos comumente usados ​​entre jovens que tentam ganhar músculos”.

A associação foi especialmente notória com suplementos para ganho de peso ou massa muscular, e os sintomas, como tempo excessivo de treino e obsessão pela ingestão de determinados alimentos, aumentaram à medida que o número de suplementos usados também aumentou, de acordo com um novo estudo publicado na revista PLOS Mental Health .

A equipa do estudo analisou dados de 2.731 participantes com idades entre 16 e 30 anos do Estudo Canadiano sobre os Comportamentos de Saúde dos Adolescentes, que visa reunir informações sobre alimentação irregular, comportamento de construção muscular, imagem corporal e saúde social. Os cientistas analisaram os relatos dos participantes sobre o uso de suplementos em relação aos seus sintomas de dismorfia muscular, que foram avaliados através do modelo de avaliação Muscle Dysmorphic Disorder Inventory, diz este novo estudo.

O estudo em causa foi observacional, o que significa que é difícil dizer se o uso de suplementos aumentou os sintomas de dismorfia muscular ou se pessoas com mais sintomas de dismorfia muscular eram mais propensas a tomar mais suplementos, adianta Gail Saltz, professora clínica associada de psiquiatria no NewYork-Presbyterian Hospital e no Weill Cornell Medical College. Saltz não esteve envolvida nesta investigação.

Este estudo mostra que as pessoas mais jovens talvez não estejam a usar esteroides anabolizantes, que foram considerados prejudiciais, mas que podem estar a tomar outras substâncias para tratar a sua dismorfia muscular, e o público precisa estar mais ciente disso, vinca Saltz.

“Muitas pessoas acham que os suplementos são seguros porque são apenas suplementos”, atira, acrescentando: “Mas, na verdade, nem sempre é esse o caso.”

O que é transtorno dismórfico muscular?

A dismorfia muscular é um subconjunto do transtorno dismórfico corporal, no qual uma pessoa está preocupada com um defeito imaginário na sua aparência, explica Saltz. Quem tem dismorfia muscular acredita que o seu corpo deveria ser mais magro e musculado.

“As pessoas que sofrem de dismorfia muscular enfrentam, frequentemente,  desafios significativos nas suas vidas sociais e podem experimentar sofrimento emocional severo”, adverte Ganson. “Sem mencionar que essas pessoas podem ir a extremos para atingir o seu corpo ideal, como usar esteroides anabolizantes”.

E não é só uma questão de confiança diminuída, acrescenta Saltz. Mesmo que as pessoas com este transtorno alcancem a imagem ideal que estão à procura, isso não diminui a angústia. “Quando se olham ao espelho, não veem o que outra pessoa vê quando olha para eles”, continua a especialista.

Outros sinais de alerta incluem ter uma rotina rígida de exercícios, passar por sofrimento emocional e enfrentar dificuldades para cumprir expectativas na escola ou no trabalho, adianta Ganson.

É também provável ver pessoas com transtorno dismórfico muscular a evitar a exposição corporal socialmente normal - como tirar a roupa na praia - ou a faltar a reuniões sociais por causa de sentimentos relacionados com a sua aparência, diz Saltz.

O que há de tão mau nos suplementos?

É comum usar suplementos para mudar a aparência do corpo. Enquanto 2,2% dos homens adultos jovens relatam usar esteroides, 36,3% relatam usar suplementos proteicos e batidos de proteína, enquanto 10,1% disseram usar outras substâncias para construção muscular, como creatina e hormonas de crescimento, de acordo com um estudo de junho de 2022 .

A maioria dos suplementos está prontamente disponível com pouca ou nenhuma regulamentação, e os “estudos que analisam esses produtos descobriram que muitos são rotulados incorretamente e contaminados com substâncias nocivas, como esteroides anabolizantes”, diz Jason Nagata, coautor do estudo e professor associado de pediatria na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

A Food and Drug Administration dos EUA monitoriza os impactos adversos à saúde, mas só ocasionalmente é que inspeciona instalações de fabrico. No entanto, sob o Ato de Saúde e Educação sobre Suplementos Alimentares, a agência não tem jurisdição para aprovar suplementos alimentares antes que entrem no mercado. Também há poucos estudos sobre a segurança e eficácia dos suplementos, acrescenta Nagata.

“Os suplementos de ganho muscular, que podem ser legais, podem servir como produtos de entrada para o uso de esteroides”, vinca Nagata, que diz que a sua equipa já tinha descoberto que “jovens adultos que usam estas substâncias de ganho muscular tinham três vezes mais probabilidade de começar a usar esteroides anabolizantes sete anos depois”.

Os suplementos pré-treino por norma contêm cafeína - alguns com a mesma quantidade encontrada em várias chávenas de café, alerta o especialista, adiantando que algumas pessoas “ingerem uma colherada seca” destes suplementos antes do treino ou consomem proteína em pó seca, sem misturar com água.

“A ingestão a seco é uma prática particularmente perigosa porque fornece uma dose alta e potente de um produto que deve ser diluído em água”, alerta, explicando que “a ingestão a seco fornece uma explosão pura e altamente concentrada de um produto que pode ter efeitos tóxicos.”

Como tratar a dismorfia muscular

Um passo importante é desafiar as informações e os ideais que saem das redes sociais, especialmente para adolescentes que estão a passar por mudanças rápidas e a fazer comparações frequentes com outros durante a puberdade.

“As publicações nas redes sociais sobre suplementos de ganho muscular e esteroides anabolizantes demonstram esmagadoramente os efeitos positivos do ganho muscular. [Mas] As redes sociais podem exacerbar comparações corporais e levar à insatisfação muscular e ao uso de esteroides anabolizantes ou outras drogas e suplementos de construção muscular em adolescentes”, adverte.

A publicação deste tipo de conteúdos nas redes sociais é particularmente comum entre rapazes, que são mais propensos a permitir seguidores públicos do que as raparigas e também são mais propensos a exibir músculos online do que rostos.

“Os corpos dos homens estão mais expostos do que nunca nas redes sociais, especialmente através de contas de influenciadores. Os corpos idealizados que os influenciadores publicam podem ser fortemente filtrados ou o melhor de centenas de fotos”, atira.

Quando se trata de tratar dismorfia muscular, há muitos métodos que podem ser úteis, incluindo diferentes formas de terapia cognitivo-comportamental que ajudam a examinar padrões de pensamento e reformular percepções. Às vezes, medicamentos - como os que são usados ​​para tratar a ansiedade, a depressão e o transtorno obsessivo-compulsivo - também podem ser necessários. Mas neste processo, também as famílias, os profissionais de saúde e os treinadores desportivos são essenciais para ajudar a identificar a dismorfia muscular em adolescentes e jovens adultos, diz Saltz, acrescentando que, como o defeito imaginado parece tão real para a pessoa que vivencia esta condição, pode ser difícil ter uma visão do problema. As pessoas ao redor de alguém com dismorfia muscular podem ajudar sabendo o que procurar.

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