Encontrámos um dos mais famosos adeptos do Sporting e da Seleção e dois irmãos gémeos que nunca abandonam o Benfica
Dentro de campo, já sabemos como correu a Supertaça Cândido de Oliveira 2025. Vangelis Pavlidis marcou um golo solitário que entregou o primeiro título da nova temporada ao Benfica, quebrando uma malapata recente dos encarnados diante do Sporting. Mas um jogo de futebol envolve muito mais do que isso. A Supertaça trouxe uma verdadeira romaria de adeptos de futebol até ao extremo sul do país e pintou as imediações do Estádio Algarve de verde e vermelho.
O Maisfutebol falou com adeptos dos dois lados da barricada antes do jogo. Nenhum deles acertou no prognóstico, mas já têm opinião formada sobre a temporada que agora se inicia. Os sportinguistas lamentam as saídas, mas ostentam ainda a recente ‘dobradinha’. Os benfiquistas confiam ainda num grande trunfo até final do mercado. Mas há mais coisas a uni-los do que a separa-los: a bifana, a cerveja e a alegria fazem são comuns à festa.
Algarve, Arménia, Qatar e as saudades daquele sueco
Partimos para a fanzone leonina com uma missão que, à partida, podia ser espinhosa: encontrar uma camisola com Gyökeres e o número nove nas costas. Mesmo já não estando no Sporting, o sueco continua, por estes dias, a ser tema de conversa nas hostes sportinguistas.
Que o diga Eduardo Paula, 60 anos, que, não tendo o nome do goleador na sua camisola, não deixou de querer comentar a saída de Gyökeres.
Sentado numa mesa de campismo, com uma cerveja à frente, este transmontado, que mora em Lagos há décadas, não tem dúvidas: «ninguém se vai comparar» com o sueco.
«Se o Luís Suárez estará à altura não sei… O Gyökeres não é comparável com ninguém, nem haverá substituto», vaticinou. Mas a esperança, como não podia deixar de ser, também é verde: «acredito que o Suárez deixará um cheirinho de Gyökeres».
Ainda assim, confessou, a saída do avançado sueco não foi «saudável».
«Ainda estamos para saber o que se passou ao certo, mas o que interessa é o que ele fez pelo Sporting. Há um sentimento que é estranho: não é nem de afeto, nem de desafeto. Mas a saída podia ter sido melhor», atirou.
O estatuto de bicampeão – e de vencedor da dobradinha na última temporada – dá, contudo, esperanças fundadas a este sportinguista. A tarja que tem atrás de si não engana: «o tri começa aqui», lia-se em letras garrafais.
«Eu acredito que o tricampeonato começa aqui. Nunca vi, mas tenho fé e acredito que vai acontecer. Quanto ao plantel, ainda não é perfeito, mas tudo se irá ajustar», atirou, confiante.
E a Supertaça que o levou ontem ao Algarve? «Também é para ganhar». E até manda apontar um resultado: 2-1 para os leões, com a certeza de um golo de Harder. O jogo contou outra história.
Um dos grandes companheiros de futebol de Eduardo Paula é o amigo Carlos Brum. O estilo extravagante a remeter para um Johnny Depp salta logo à vista, mas é apenas quando ele aponta para a sua carrinha que nos apercebemos exatamente quem é.
Carlos é um dos mais conhecidos adeptos da seleção nacional: vai a todo o lado e costuma usar um género de cocar de penas, de várias cores. É, acima de tudo, uma figura carismática.
Desde 2002, na Coreia/Japão, que não falha um Mundial, mas ontem foi na condição de adepto do Sporting que esteve no Estádio Algarve.
«Sou sportinguista, sim. E quero que ganhemos. Mas que ganhe o que jogar melhor – e que seja um jogo sem problemas para, no final, estarmos todos a comer, a beber. Eu aceito aqui toda a gente: sportinguistas, benfiquistas, portistas», contou, sorridente.
A última epopeia de Carlos foi na Liga das Nações que Portugal ganhou: nos próximos compromissos da seleção, nomeadamente na Arménia, também marcará presença.
«Como é que consigo ter tempo? Eu trabalho por minha conta. Tenho uma loja e nunca vou de férias a lado nenhum: as minhas férias são ir ver a seleção, como fiz no Qatar em 2022», atirou.
Se possível, sempre com a sua carrinha. Esta, que comprou há uns anos, já tem 235 mil quilómetros: «mas isto faz um milhão. Tive foi outra que já vendi e tive pena».
Em relação a Gyökeres, Carlos Brum também tem uma palavra a dizer: «acho que esta questão abalou um bocadito psicologicamente. A equipa ainda não está bem formada, mas vamos ver».
Quando conversa termina, olhamos em frente e surge-nos o desejado adepto com uma camisola de Gyökeres.
Pensando bem, ele fez mesmo falta ao Sporting.
Benfiquistas pedem Dybala, Asensio e 'saco cheio'
Do lado do topo norte do estádio, com a serra como pano de fundo, os benfiquistas faziam a festa na zona destinada aos adeptos encarnados. O calor pedia sombra e cerveja. Com a temperaturas a ultrapassar os 30ºC, pedia-se calma em vez da típica euforia clubística. Muitos sentavam-se ora em cadeiras, ora em muros, como que a guardarem-se para as emoções do jogo.
Percorrendo a festa benfiquista, encontramos dois homens semelhantes, sentados lado a lado. Tirámos a dúvida – são irmãos gémeos, até na preferência clubística. «Somos companheiros nisto há muitos anos. Onde o Benfica vai, também vamos», confessa João Oliveira, o mais falador dos irmãos. O outro estava a comer uma bifana… e nós respeitamos esse momento sagrado. Naturais de Lisboa, os Oliveira vieram até ao Algarve de propósito para ver o jogo.
Há seis anos, assistiram neste local à goleada do Benfica sobre o Sporting, por 5-0. «Saco cheio é o que a ‘gente’ quer», resume João. Desta vez, são mais modestos nos prognósticos, ficando-se pelo 2-0, com golos de Pavlidis (acertaram) e Richard Ríos (nem tanto).
Sendo este o primeiro jogo oficial, trata-se de uma boa altura para perspetivar a época. João acredita na permanência de Bruno Lage até ao final da temporada, elogiando as «competências» do treinador e uma época 24/25 «muito boa».
Ainda há um mais um mês de mercado e ele gostava de ver mais uma grande contratação em agosto: «Falta um falso nove. O Dybala», atira. O irmão interrompe a bifana para acrescentar: «Ou o Asensio». «Qualquer um deles é ótimo, porque gosto muito de jogar para o ataque e de futebol bonito», resume João. Até fim do mês, tudo é possível.
Noutra ponta da fanzone, testemunhamos um momento de desportivismo. Dois adeptos benfiquistas e outro sportinguista trocam ideias à sombra de um pinheiro. Dois deles são emigrantes portugueses no Luxemburgo e vieram de férias propósito para o Algarve, já tendo em vista este jogo.
David Faria é benfiquista e, ao contrário de João Oliveira, acredita que o plantel está bem servido para esta época. Não lamenta o facto de João Félix não ter regressado ao clube. «Percebo», admite, recordando os valores que são pagos pelo Al Nassr, da Arábia Saudita. Prefere olhar para os jogadores que efetivamente chegaram ao clube: «O Ríos é o que me chamou mais a atenção».
Enquanto num clube fala-se de chegadas, Lourenço Gomes, adepto do Sporting e amigo de David, tem-se confrontado especialmente com saídas. «Gyökeres vai deixar sempre saudades. É um jogador que marcou o clube», diz, sem hesitar. De forma algo premonitória, pelo menos que diz respeito ao duelo da Supertaça, Lourenço mostra reservas quanto ao momento do Sporting.
«Rui Borges soube colmatar a saída de Ruben Amorim. Agora, quer implementar o estilo dele, mas não está a correr bem. Na pré-época não vi grande qualidade de jogo», lamentou.
Não falámos com Lourenço à saída do estádio. Contudo, bem que nos podia ter dito ‘que nos tinha avisado’. O que lhe serve de consolo é que a Supertaça é apenas o primeiro de quatro troféus domésticos. Até ao Jamor, em maio de 2026, ainda haverá muita mais cerveja e bifana por consumir e, acima de tudo, amigos com quem partilhar a festa do futebol.
