Porque as pessoas odiavam carrinhos de compras quando eles apareceram

CNN , Nathaniel Meyersohn
16 mai, 13:44
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Vivemos num mundo moldado por carrinhos de compras. As carripanas omnipresentes e pouco amadas são uma característica fundamental da economia. (Sim, são mesmo.)

O nascimento dos carrinhos de compras no início do Século XX ajudou a inaugurar uma era de consumo em massa, e permitiu que mercearias e marcas expandissem os seus produtos – sem que os clientes se preocupassem com como levariam as coisas para o carro.

Para atrair a atenção dos compradores e estimular os seus sentidos enquanto empurravam os carrinhos, as marcas começaram a acrescentar desenhos animados nas caixas, embalagens brilhantes e logótipos cativantes com pontos de exclamação.

Os carrinhos também estimularam o aumento da compra por impulso, diz Andrew Warnes, professor de literatura americana da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e autor de "How the Shopping Cart Explains Global Consumerism".

"O carrinho de compras é o que permitiu esse movimento rápido de objeto em objeto", afirma Warnes, em respostas enviadas por e-mail. "Ele deu às pessoas um recetáculo com rodas no qual eles poderiam atirar as suas escolhas e passar para as próximas."

O humilde carrinho de compras, motor da economia de consumo.

Mas, no início, os clientes desconfiavam dos carrinhos de compras, para surpresa do homem que acabou por se responsável por torná-los num objeto do dia a dia.

"Achei que seria um sucesso imediato", explicou numa entrevista na televisão em 1977 Sylvan Goldman, dono de uma mercearia de Oklahoma, nos Estados Unidos, considerado o pai do carrinho de compras moderno. "Eu estava tão entusiasmado com o carrinho!"

No primeiro dia em que eles apareceram nas suas lojas, Goldman esperava ver longas filas de clientes à espera de usá-los. "Tinha gente a fazer compras. Nenhuma estava a usar carrinho."

As mulheres diziam: 'Não, já empurramos carrinhos de bebé suficientes - não vamos empurrar carrinhos nas lojas'", lembrou Goldman numa carta de 1972. Os homens achavam que os carrinhos fá-los-iam parecer fracos. "Os clientes homens diriam: 'Com os meus braços grandes, posso carregar os meus cestos, não estou para empurrar uma dessas coisas'", contou ele.

A chegada dos supermercados

A adoção de carrinhos de compras veio justamente quando os supermercados entraram em cena.

Antes dos supermercados, os compradores iam à mercearia local e um funcionário atendia os seus pedidos ao balcão ou era chamado para fazer entregas.

Mas os supermercados de auto-atendimento, que foram desenvolvidos pela Piggly Wiggly em Memphis em 1916, permitindo que os compradores escolhessem os artigos nas prateleiras, começaram a substituir esse modelo. Nas décadas seguintes, à medida que mais americanos começaram a conduzir, supermercados maiores com parques de estacionamento começaram a abrir em novos subúrbios.

Como as pessoas compravam antes de os carrinhos chegarem.

No entanto, apesar de os compradores terem bagageiras e novos frigoríficos em casa para manter os alimentos frescos durante mais tempo, ainda carregavam cestos enquanto vasculhavam as lojas, e era improvável que acumulassem.

"Começa-se com um self-service com um cesto. Quando as pessoas começam a conduzir carros, quer-se comprar mais do que se consegue transportar ", explica a historiadora Susan Strasser, autora de "Satisfaction Guaranteed: The Making of the American Mass Market".

Uma cadeia de supermercados no Texas oferecia carrinhos no início de 1900, mas eles não ganharam força, em parte porque os cestos eram consideradas aristocráticos. "Houve uma espécie de constrangimento em pedir aos clientes que empurrassem os carrinhos", disse Warnes.

Uma cadeira dobrável sobre rodas

Goldman, um pioneiro dos supermercados de Oklahoma com as lojas Standard Food Markets e Humpty Dumpty, observou que os clientes paravam de comprar quando o cesto estava cheio ou ficava muito pesado.

A sua primeira solução foi encaminhar os balconistas para levar um segundo cesto aos clientes e guardar o que já estava cheio na caixa.

Então, em 1936, Goldman teve a ideia de um carrinho rolante. Com a ajuda de um “faz-tudo”, prendeu rodas a uma cadeira dobrável e colocou um cesto em cima. Ele acreditava que dar um carrinho aos compradores os faria comprar mais, assim aumentando as vendas da empresa. "Se houvesse alguma maneira de dar a esse cliente dois cestos para fazer compras, e ainda ter uma mão livre para fazer compras, poderíamos fazer muito mais negócio", lembrou ele mais tarde.

Goldman fundou a Folding Basket Carrier Co. (hoje chamada Unarco, que é parcialmente detida pela Berkshire Hathaway), e pôs um anúncio num jornal local alertando os clientes para a sua nova invenção.

Sylvan Goldman, o pai do carrinho de compras moderno.

"Consegue imaginar percorrer um espaçoso mercado de alimentos sem ter de carregar uma pesado cesto de compras no seu braço?", perguntava o anúncio. Mas poucos compradores pegaram no início nos carrinhos.

Para convencer os clientes a usá-los, Goldman contratou pessoas para andar pela loja com carrinhos de compras e a enchê-los. Os clientes começaram a seguir o exemplo desses cúmplices e rapidamente todas as lojas de Goldman foram equipadas com carrinhos. Goldman começou até a vender carrinhos para outros supermercados, por seis ou sete dólares.

No início, os gestores das lojas estavam relutantes em comprar os carrinhos, porque temiam que as crianças os danificassem ou se envolvessem em acidentes. Goldman acalmou essas preocupações fazendo filmes promocionais, que mostravam a forma correta de usar os carrinhos. Alguns anos depois, apresentou um carrinho com cadeira de criança.

A maior mudança no carrinho veio em 1946, quando Orla Watson, em Kansas City, patenteou o "carrinho de telescópio" - permitindo que eles deslizassem encaixados em pilhas horizontais, para aliviar o dilema da arrumação. Watson afirmou que cada um dos novos carrinhos exigia apenas um quinto do espaço dos carrinhos dobráveis ​​da Goldman. Em resposta, Goldman patenteou uma versão telescópica semelhante, o Nest Kart. "Basta de problemas de estacionamento de carrinhos", dizia um anúncio do Goldman's Nest Karts.

Goldman e Watson entraram numa luta legal pela patente, mas chegaram a um acordo, em que Goldman ganhou o direito de licenciar a versão telescópica do carrinho.

Saindo da loja

O design básico do carrinho de compras não mudou muito desde então. Na década de 1960, foram acrescentados cintos de segurança aos assentos infantis, embora isso não tenha evitado milhares de acidentes de carrinho de compras por ano envolvendo crianças.

"É difícil melhorar o seu design", disse Warnes. "O metal é durável. O sistema de rede é transparente. A cadeira de criança é uma solução brilhante para fazer compras com uma criança pequena. É empilhável, e por isso fácil de transportar".

Talvez o maior desenvolvimento para carrinhos de compras nas últimas décadas tenha sido a forma como eles acabaram fora das lojas.

Cidades e vilas tentaram reprimir os carrinhos de compras perdidos.

Eram frequentemente encontrados carrinhos abandonados em becos, rios e florestas, levando legisladores a começar a impor regulamentações e multas a empresas cujos carrinhos se desviassem das lojas. Existe até um livro, "The Stray Shopping Carts of Eastern North America: A Guide to Field Identification", dedicado aos lugares estranhos em que os carrinhos acabam. Apareceram como logotipos em sites de comércio eletrónico e em obras de arte do artista de rua Banksy.

Os carrinhos tornaram-se também um símbolo da praga urbana da pobreza nos Estados Unidos, sendo muitas vezes usados ​​por sem-abrigos para armazenar e transportar os seus pertences. "Tem um papel enorme entre os pobres. É o lugar de todas as suas posses", afirmou John Lienhard, professor emérito de engenharia mecânica e história da Universidade de Houston, que dedicou um episódio do seu programa de rádio "The Engines of Nossa engenhosidade" aos carrinhos de compras.

"E isso diz alguma coisa sobre o papel do carrinho de compras nas nossas vidas."

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