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Super El Niño ameaça o planeta: cientistas estão a estudar uma solução controversa para travar os seus efeitos

CNN , Laura Paddison
9 jul, 06:46
Imagem que mostra as anomalias semanais da temperatura da superfície do mar durante a segunda quinzena de junho de 2026. NOAA
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O El Niño é um padrão climático natural com origem no Oceano Pacífico tropical, que normalmente aumenta as temperaturas globais e potencia fenómenos meteorológicos extremos

Um Super El Niño está a formar-se e poderá ser o mais intenso das últimas décadas, ameaçando provocar um aumento dramático de fenómenos meteorológicos extremos e mortais. Mas e se existisse uma forma de os seres humanos reduzirem os impactos devastadores dos El Niños mais severos através do escurecimento temporário da luz solar?

Foi essa a questão investigada por um grupo de cientistas num novo estudo publicado na quarta-feira na revista Science Advances.

O El Niño é um padrão climático natural com origem no Oceano Pacífico tropical, que normalmente aumenta as temperaturas globais e potencia fenómenos meteorológicos extremos. Este fenómeno está a ser agravado pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano, que estão a elevar a temperatura de base do planeta, empurrando os anos de El Niño para níveis cada vez mais extremos, com impactos devastadores na vida humana e na economia mundial.

O estudo, liderado por cientistas da Scripps Institution of Oceanography, centrou-se na possibilidade de utilizar uma técnica altamente controversa, conhecida como geoengenharia solar, como ferramenta para atenuar o calor extremo, os incêndios e outros impactos provocados pelo El Niño.

Em concreto, os investigadores analisaram o chamado “branqueamento das nuvens marinhas”, uma técnica que consiste na pulverização de partículas nas nuvens sobre os oceanos, de forma a refletir a luz solar para longe da Terra e de volta para o espaço.

Os investigadores não puderam realizar experiências de geoengenharia no mundo real para testar a ideia, devido ao receio de “consequências involuntárias desastrosas”. Em vez disso, recorreram a uma “experiência natural”, escreveram num comunicado que acompanhou a publicação do estudo.

Os incêndios florestais do chamado “Verão Negro” da Austrália, em 2019 e 2020, devastaram dezenas de milhões de hectares e contribuíram para a morte de centenas de pessoas. Produziram também enormes colunas de fumo repletas de partículas capazes de refletir a luz solar, que se misturaram com as nuvens sobre o Oceano Pacífico.

Investigações anteriores concluíram que essas nuvens altamente refletoras devolveram uma maior quantidade da energia solar para o espaço e arrefeceram o Pacífico, contribuindo para um episódio subsequente de La Niña, o fenómeno oposto ao El Niño, que tende a reduzir as temperaturas globais.

Os cientistas isolaram os efeitos do branqueamento das nuvens provocado pelos incêndios australianos e utilizaram modelos climáticos para simular o impacto de um fenómeno semelhante antes de dois episódios historicamente intensos de El Niño: um iniciado em 1997 e outro em 2015.

Concluíram que um branqueamento direcionado das nuvens marinhas poderia enfraquecer os impactos do El Niño e aumentar em 40% os efeitos de arrefecimento e de redução da humidade associados ao La Niña. O estudo concluiu ainda que quanto mais cedo a técnica fosse aplicada durante um episódio de El Niño, mais eficaz seria.

A geoengenharia é um tema altamente debatido. Alguns especialistas consideram que é demasiado perigosa para sequer ser equacionada, devido ao número praticamente infinito de possíveis consequências imprevistas. Temem também que, uma vez iniciada, tivesse de ser mantida indefinidamente para evitar um possível “choque de interrupção” — uma subida catastrófica das temperaturas caso a geoengenharia fosse implementada e depois interrompida.

Contudo, o que os cientistas analisam neste estudo é diferente, explicou Kate Ricke, autora do estudo e cientista do clima na Scripps Oceanography e na School of Global Policy and Strategy da Universidade da Califórnia em San Diego. A ideia passa por utilizar a geoengenharia como uma ferramenta temporária para atuar sobre um fenómeno sazonal ou plurianual específico, praticamente garantido de causar danos significativos. Segundo a investigadora, “não é algo que o prenda para sempre”.

Ricke fez questão de sublinhar que o artigo não defende a utilização da geoengenharia. “Isto é apenas uma prova de conceito... a única coisa que demonstrámos é que vale a pena estudar mais esta possibilidade”, afirmou.

Os investigadores reconhecem vários potenciais inconvenientes. O El Niño é um fenómeno muito complexo; embora provoque prejuízos económicos globais de biliões, nem todas as regiões são afetadas negativamente. Algumas estão adaptadas aos seus efeitos — por exemplo, a Califórnia depende das chuvas intensas que o El Niño normalmente traz para reabastecer as reservas de água, ainda que essas chuvas possam ser perigosas.

Será igualmente importante compreender de que forma esta técnica afetaria o momento, a frequência e a intensidade de um episódio posterior de La Niña, bem como os impactos em regiões específicas, explicou Ricke.

“É preciso ponderar muito cuidadosamente os compromissos”, afirmou. A geoengenharia “talvez faça mais sentido, por agora, no contexto de Super El Niños, em que a maioria das pessoas e dos locais saem prejudicados e em que os fenómenos extremos e destrutivos são mais prováveis”, acrescentou.

James Haywood, professor de Ciências Atmosféricas na Universidade de Exeter, que não participou na investigação, afirmou que continuam a existir “muitas, muitas questões sem resposta e incertezas quanto à viabilidade do branqueamento das nuvens marinhas” no que diz respeito ao controlo do seu efeito de arrefecimento.

Existe o desafio técnico de produzir partículas com o tamanho e a quantidade adequados para alcançar o nível de arrefecimento pretendido, explicou. “Depois há a questão do que acontece se exagerarmos?”, acrescentou, referindo-se à possibilidade de provocar um mega La Niña “muitas, muitas vezes mais intenso do que qualquer outro que tenhamos vivido até hoje”. Os episódios de La Niña também podem provocar fenómenos meteorológicos extremos, incluindo aumento da precipitação e inundações em partes da Ásia e da Austrália, bem como condições mais secas do que o normal em regiões da América do Sul e dos Estados Unidos.

“Estamos ainda muito longe de conseguir implementar estas tecnologias e de saber se funcionariam conforme o previsto”, afirmou.

David Keith, professor de Ciências Geofísicas na Universidade de Chicago, também apontou os desafios de engenharia. “Quase duas décadas depois do início da investigação, os pulverizadores para o branqueamento das nuvens marinhas têm taxas de pulverização... pelo menos cem vezes inferiores ao necessário para uma utilização prática”, afirmou Keith, que também não participou no estudo. A técnica pode ser fisicamente possível, acrescentou, mas, neste momento, “a tecnologia simplesmente não existe”.

Para além dos problemas técnicos, existem dilemas éticos, afirmou Haywood, como decidir quem teria autoridade para optar pela utilização desta técnica e se a geoengenharia poderia desviar atenções dos esforços para reduzir a poluição responsável pelo aquecimento global.

Estas questões estão para além do âmbito desta investigação, mas Ricke reconheceu que há ainda muito trabalho a fazer. “Precisamos de compreender muito mais”, afirmou, “mas se existir uma forma de utilizar isto... para atenuar os efeitos dos El Niños, porque não haveríamos de a considerar?”

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