Seduzida pelo ar puro, pela tranquilidade e pela qualidade de vida, uma cientista reformada do Tennessee comprou e renovou duas casas e decidiu fazer da vila de Latronico a sua residência permanente
Quando Lynnette Elser, de Crossville, Tennessee, chegou pela primeira vez à vila italiana de Latronico com o filho adotivo de 5 anos, Kenny, autista, não estava a planear fazer daquele lugar a sua nova casa.
Depois, na primeira noite, Kenny, que tem graves problemas respiratórios, pareceu conseguir respirar sem dificuldade - algo que, segundo Elser, cientista reformada do governo federal, aconteceu pela primeira vez.
Normalmente, quando o ouvia com dificuldades em respirar durante a noite, verificava o nível de oxigénio no sangue com um oxímetro de dedo, mas em Latronico algo era diferente.
“Sinceramente, pensei que o oxímetro estivesse avariado e não estivesse a medir corretamente o nível de oxigénio”, explica Elser. “Troquei de aparelho e a leitura continuava boa. Nessa noite, enquanto a respiração dele se mantinha estável, fiquei simplesmente maravilhada a vê-lo respirar sem tentar levantar-lhe a cabeça nas almofadas.”
Enquanto mantinha vigilância, o nível de oxigénio no sangue de Kenny manteve-se estável acima dos 95%. A frequência cardíaca estava normal.
“É horrível ver uma criança incapaz de respirar, a lutar por cada inspiração, com o nível de oxigénio no sangue a não subir e o coração a bater a mais de 250 batimentos por minuto”, conta. “Quando estávamos em Latronico, ele não teve dificuldades em respirar, não estava a puxar o ar com esforço.”
Ao ver a saúde do filho melhorar, Elser percebeu que Latronico, uma pequena vila de cerca de 4.500 habitantes na região da Basilicata, no sul de Itália, teria de se tornar a sua nova residência permanente.
Elser interessou-se inicialmente pela vila depois de ler um artigo da CNN sobre o programa de habitação acessível destinado a atrair novos compradores e a inverter a tendência de despovoamento causada por décadas de emigração em busca de emprego. É uma das várias localidades rurais italianas que colocaram casas à venda a preços reduzidos.
Grandes mudanças
Em setembro de 2024, adquiriu uma casa antiga remodelada, com 100 metros quadrados, em Latronico, sem a visitar previamente, através da plataforma online da autarquia, por 50 mil euros.
Planeava usar o imóvel, situado nos andares superiores, apenas como casa de férias e desfrutar de um local tranquilo, pouco turístico, próximo do mar e da montanha, rodeado de natureza.
Mas quando ela e Kenny visitaram a vila para ver finalmente o que tinham comprado no centro histórico, tudo mudou.
Nessa mesma visita inicial, acabou por comprar também o imóvel devoluto situado por baixo para ampliar a casa para quatro pisos. Está atualmente a finalizar as obras de renovação.
Kenny tinha sido hospitalizado várias vezes nos Estados Unidos devido a problemas respiratórios e tem múltiplas necessidades especiais. É autista e não verbal, com atrasos severos no desenvolvimento, alergias e um histórico de baixos níveis de oxigénio no sangue, que frequentemente descem abaixo dos 90% - uma situação que normalmente exige intervenção médica.
Elser acredita que é a localização “curativa” de Latronico que agora ajuda Kenny a respirar durante a noite. A vila está situada suficientemente alta nas colinas para ficar acima das florestas e do pólen das árvores, tem ar puro, poucos carros e ausência de poluição - condições que normalmente representam um ambiente de menor risco para quem sofre de doenças respiratórias.
Rosalia Loresco, médica e pediatra em Latronico, afirma que já viu outras pessoas com problemas respiratórios beneficiarem do ar limpo da região.
“Muitos doentes com asma e doenças respiratórias relatam melhorias na respiração e no bem-estar geral durante a sua estadia nesta zona”, afirma.
Qualidade de vida
Enquanto o processo de compra decorria, Elser continuava a pensar na facilidade com que Kenny respirava em Latronico e tratou da documentação para tornar a casa a sua residência principal, o que também lhe permite evitar impostos aplicados normalmente a segundas habitações.
Atualmente, vivem na primeira propriedade adquirida, composta por dois pisos superiores com dois quartos grandes. O imóvel estava habitável no momento da compra, necessitando apenas de pequenas intervenções, como atualização do sistema de aquecimento e da instalação elétrica, ar condicionado, revestimento exterior impermeável e janelas e portas energeticamente eficientes.
A outra propriedade, com 83 metros quadrados distribuídos por dois pisos inferiores, um deles quase abaixo do nível da rua, exige mais obras. Custou 18 mil euros e era anteriormente utilizada para alojar porcos. Elser está a investir 63 mil euros para a transformar num espaço habitável com dois quartos, casas de banho, cozinha, canalização e eletricidade. A remodelação, 95% concluída, deverá terminar no verão de 2026, altura em que as paredes exteriores serão pintadas.
Quando as duas propriedades estiverem unidas, totalizarão 183 metros quadrados, com um alpendre frontal e várias varandas com vista para as montanhas e o vale. Elser planeia ainda comprar uma garagem próxima. O espaço permitirá que Kenny tenha uma sala de brincadeiras interior só para ele.
“O dinheiro nunca foi um problema”, afirma. “Sempre trabalhei para poder comprar o que queria. Se não podia pagar algo, trabalhava mais e esperava. Claro que analisei o preço da casa e os custos das obras, mas estava mais focada na qualidade de vida.”
"Anjo lindo"
Em março de 2025, Elser solicitou um visto de residência eletiva - que exige um rendimento passivo de 31 mil euros por pessoa - e mudou-se para Latronico com Kenny em julho. Na primavera, planeia inscrevê-lo na escola da vila e está a tratar da documentação para garantir que terá todo o apoio necessário.
Acredita que ele se adaptará melhor às salas de aula de Latronico, com muito menos alunos com necessidades educativas especiais do que no Tennessee, situação que, segundo diz, limitava o progresso do filho.
Afirma que, em apenas alguns meses, já se integraram na comunidade unida de Latronico, convivendo com os habitantes enquanto passam os dias a passear pelos parques e a fazer compras nas lojas locais.
As pessoas chamam a Kenny “bellissimo angelo” - “anjo lindo” - conta. No supermercado oferecem-lhe chocolates e doces festivos. A maioria dos comerciantes fala algum inglês ou utiliza aplicações de tradução quando necessário.
“Tantas vezes os lojistas fizeram um esforço extra para me ajudar a encontrar o que precisava”, conta Elser. “Vizinhos que passam na rua dizem ‘buono’ e fazem sinal de polegar para cima quando veem os novos azulejos no passeio ou a nova janela.”
A vila acolhedora contrasta fortemente com Crossville, onde, segundo conta, os vizinhos eram mais propensos a fazer queixas do que elogios e qualquer ida às compras implicava uma viagem de 20 minutos de carro.
“As pessoas parecem mais satisfeitas com a vida”, acrescenta. “Percebo que muitos jovens tenham saído para locais com melhores oportunidades económicas, mas os que ficaram parecem felizes e não vivem nessa mentalidade constante de competição.”
"Tudo o que precisamos"
Em casa, praticam exercícios de terapia ocupacional, com lápis especiais de preensão, puzzles e brinquedos adaptados. Uma vez por semana, deslocam-se de carro a uma cidade maior próxima para comprar artigos como tinteiros para impressora ou mobiliário. O ritmo de vida tranquilo da vila também ajuda Kenny a evitar a sobre-estimulação, uma fonte comum de stress para pessoas autistas.
“Estamos felizes com a nossa vida calma e rotineira. Quando ele começar a ir à escola, vou concentrar-me em aprender italiano, porque eventualmente terei de fazer o exame de condução, e voltarei a dedicar-me a alguns dos meus passatempos, como o patchwork”.
A alimentação de Kenny também melhorou. Prefere hidratos de carbono ao pequeno-almoço, como um croissant ou outro pastel, em vez de uma refeição rica em proteína ao estilo americano, com ovos, fiambre ou bacon. O custo de vida é significativamente mais baixo do que no Tennessee, especialmente no que diz respeito aos preços dos alimentos. Muitos medicamentos sujeitos a receita médica podem ser obtidos gratuitamente através do sistema público de saúde italiano.
Elser afirma que aprecia um estilo de vida mais simples em Latronico, com menos sinais visíveis de consumismo. Atualmente não tem televisão e diz que Kenny não sente falta.
“Há muito menos compras por impulso. Tudo o que precisamos está na vila”, conclui.