Escreveu Orwell que, se quisermos uma imagem do futuro, basta imaginar uma bota a esmagar um rosto humano, para sempre. O futuro chegou, não como uma invasão tecnológica, nem como uma guerra nuclear, mas como um realismo cínico onde as identidades são usadas como arma. Nesta segunda distopia que atravessamos, a verdade já não é apenas aquilo que o partido diz que é. A verdade é o que o nosso grupo identitário nos autoriza a ser e a sentir. A América, mãe de todas as contradições democráticas, acaba de oferecer mais um capítulo perturbante a este manual de duplos padrões morais: Donald Trump, construtor de muros reais e simbólicos, decidiu abrir as portas do país a um grupo muito específico de refugiados: os brancos.
Foram acelerados os vistos para africânderes, da África do Sul, que alegam perseguições por razões étnicas. Homens e mulheres que se sentem em risco num país onde os discursos de reparação histórica, justiça racial e redistribuição de terras atingiram níveis de tensão social aguda. A narrativa é a de que estão em risco pelos ataques contra agricultores brancos e pelas políticas de expropriação sem compensação. Esta história, ainda que real e trágica para quem a viva, é, acima de tudo, um espelho onde se projetam os fantasmas da identidade, tanto à esquerda como à direita.
A questão não é apenas se estes sul-africanos brancos estão ou não a ser perseguidos. São os brancos os maiores detentores de propriedade na África do Sul: representam 7% da população e possuem terras agrícolas que cobrem cerca de metade do país. Isto indica uma desigualdade permanente, com os negros a terem maiores taxas de pobreza.
A questão é por que razão Trump, que fechou a América a outras nacionalidades, como os afegãos com quem trabalharam os norte-americanos, decide agora abrir uma exceção para este grupo em particular. A resposta, por mais incómoda que seja, é simples: porque são brancos.
Porque se encaixam de forma quase messiânica da narrativa de substituição e decadência civilizacional que alimenta as veias do movimento MAGA, o mesmo movimento que invadiu o Capitólio, que exibe cruzes em manifestações — na testa — e que se recusa a aceitar o pluralismo como valor fundacional dos Estados Unidos.
Estamos, portanto, perante um novo tipo de política de identidade. Não aquela promovida pelos setores progressistas que embandeiram a raça, o género e a orientação sexual como critérios de redistribuição simbólica e material, mas uma inversão espelhada e igualmente perigosa: a de uma direita radical que passa a usar a branquitude como critério de vitimização. O mais perturbador não é a hipocrisia, a política até pode viver dela, mas sim a forma como ambas as trincheiras, esquerda e direita, passaram a ver o mundo exclusivamente através da lente da identidade.
Alexandria Ocasio-Cortez, Kamala Harris e outros símbolos do progressismo norte-americano há muito colocaram a identidade no centro da decisão política. O novo progressismo de esquerda que tomou uma ala do Partido Democrata chega a sugerir quotas raciais, visibilidade étnica, justiça interseccional. Por mais bem-intencionadas que estas políticas possam ser, abriram uma caixa de Pandora: a ideia de que a pertença a um grupo define a legitimidade de uma dor, a prioridade de uma resposta e o direito à ação política.
A esquerda esqueceu-se que, ao racializar o discurso político, não está apenas a incluir os que antes estavam fora, está também a legitimar os que sempre estiveram dentro e que agora reclamam o seu próprio estatuto de vítima: os brancos.
E assim chegamos ao paradoxo: os mesmos que denunciaram durante anos as políticas identitárias da esquerda como divisivas e antimeritocráticas fazem agora exatamente o mesmo, mas com a paleta invertida. Trump, que dizia que os estrangeiros traziam o crime, diz agora que os refugiados brancos da África do Sul são valores civilizacionais em risco. A linguagem mudou, o critério também. A política identitária passou da sala de aula woke para o gabinete oval.
A América não está apenas dividida. Está, sobretudo, refém de uma guerra simbólica onde o que conta é a identidade e, por arrasto, a cor da pele. Que momento tão perigoso, repescado dos piores tempos da história coletiva dos norte-americanos. Os refugiados brancos da África do Sul, independentemente da verdade da sua dor, são agora peões num xadrez que já não distingue justiça de utilidade política: só há peças pretas e brancas, num confronto permanente para ver quem sobrevive. Os novos refugiados brancos serão, tragicamente, um argumento final para provar que os brancos também podem ser vítimas, desde que convenientemente exibidos.
Resta, portanto, perguntar: que futuro aguardar quando todos os lados do espectro político escolhem a identidade como critério absoluto? Quando as decisões públicas passam a ser tomadas não pela justiça universal, mas pela afiliação étnica? Quando o refúgio deixa de ser um direito humano e passa a ser um privilégio epidérmico?
A distopia já não é apenas uma ameaça, aparentemente é um processo em curso. E, como em todos os pesadelos orwellianos, começa sempre com uma inversão subtil da linguagem. Trump já não é o líder da política antirrefugiados. É, agora, o defensor dos refugiados certos. Os que se parecem com ele. Os que lhe devolvem o reflexo.
Talvez a esquerda grite “racismo inverso”, “manipulação”, “fascismo soft”. Talvez tenha razão, talvez não. O verdadeiro horror é outro: é que já ninguém grita por princípios, só por identidades. E quando isso acontece, como nos avisou Orwell, o próximo passo é apagar o passado e construir o futuro como uma mentira útil.