Preso em 2002, libertado agora. Quem é Sufyian Barhoumi e porque esteve 20 anos em Guantánamo sem acusação

4 abr, 10:50
Prisão militar de Guantánamo, Cuba (2013)

Sufyian Barhoumi foi detido por suspeitas de envolvimento com vários grupos extremistas e esteve entre os 38 homens que permanecem numa das piores prisões do mundo

Foi um dos prisioneiros da "guerra contra o terrorismo" - declarada pelos Estados Unidos depois do atentado de 11 de Setembro de 2001 - que desembarcaram na baía de Cuba, mas acabou por ficar duas décadas detido sem acusação numa das piores prisões do mundo.

Durante todos estes anos chegou a pedir para se declarar culpado, mas a família nunca perdeu a esperança, tendo até comprado um restaurante para gerir quando regressasse. Esta é a história de Sufyian Barhoumi, de quem, além de ter perdido quatro dedos na explosão de uma mina terrestre no Afeganistão, pouco se sabe.

O que se sabe sobre Barhoumi

Sufyian Ibn Muhammad Barhoumi, também conhecido por Ubaydah al-Jaza’iri, nasceu em Argel, capital da Argélia, a 28 de julho de 1973, segundo as informações do departamento de Defesa norte-americano. Foi capturado em Faisalabad, no Paquistão, em março de 2002, e enviado para Guantánamo três meses depois.

De acordo com um relatório divulgado pelo Wall Street Journal, as autoridades norte-americanas suspeitavam que Barhoumi teria treinado outras pessoas a fazer componentes de bombas. Os Estados Unidos acabaram por determinar que estaria envolvido com vários grupos extremistas, mas não era membro da Al-Qaida ou talibã.

Sufyian Ibn Muhammad Barhoumi

 A task-force de Guantánamo (2009-10) chegou a recomendar que Barhoumi fosse considerado para acusação, mas o caso não foi levado adiante. As autoridades norte-americanas tentaram processá-lo em 2008, mas o esforço foi abandonado devido a contestações legais à versão inicial do sistema criado por George W. Bush.

Em 2012, ofereceu-se para se declarar culpado de qualquer acusação, na esperança de receber uma sentença fixa e voltar para casa. Contudo, só em agosto de 2016 é que o Conselho de Revisão Periódica recomendou que fosse repatriado com garantias de segurança “devido ao forte apoio familiar do detido e ao forte histórico da Argélia em transferências anteriores”. A detenção do argelino "não seria mais necessária para proteger contra uma ameaça significativa contínua à segurança nacional dos Estados Unidos”, alegaram as autoridades.

Apesar disso, nos últimos dias da presidência de Barack Obama, em janeiro de 2017, um juiz federal em Washington recusou-se a intervir na decisão do Pentágono de não repatriar Barhoumi, cujo advogado disse esperar que o cliente fosse libertado e que a família do prisioneiro tinha começado a preparar-se para o seu regresso, incluindo comprando-lhe um carro e um pequeno restaurante para gerir. O Departamento de Justiça disse que o então secretário da Defesa Ash Carter rejeitou a libertação de Barhoumi em 12 de janeiro de 2017, “com base numa variedade de preocupações substanciais, partilhadas por várias agências”, sem entrar em detalhes.

Barhoumi acabou por permanecer preso também durante a presidência de Donald Trump, que congelou em grande parte as transferências de Guantánamo. Importante referir também que Trump era a favor de manter a prisão militar aberta e chegou a sugerir que esta poderia ser usada para abrigar futuros suspeitos de terrorismo.

Anos de atraso culminaram neste domingo, data em que o governo norte-americano anunciou que Barhoumi foi, finalmente, libertado com garantias do governo argelino de que seria tratado com humanidade e que seriam impostas medidas de segurança para reduzir o risco de que pudesse representar uma ameaça no futuro. O Pentágono não deu, contudo, quaisquer detalhes sobre essas medidas de segurança, que podem incluir restrições a viagens.

O nosso Governo deve a Sufyian e à sua mãe anos das suas vidas de volta”, afirmou a advogada, Shayana Kadidal, do Centro de Direitos Constitucionais.

"Estou muito feliz por ele estar em casa com a família, mas sentirei muita falta do seu constante bom humor e empatia pelo sofrimento dos outros no ambiente totalmente deprimente de Guantánamo", acrescentou.

Este não é caso único

Pelo arame farpado de Guantánamo passaram cerca de 780 detidos, muitos deles empurrados arbitrariamente do campo de batalha para o estabelecimento. Um estudo, citado pelo The Guardian, descobriu que 55% dos detidos não cometeram atos hostis contra os Estados Unidos ou contra os seus aliados. 

A libertação de Barhoumi diminui o total de detidos na base norte-americana em Cuba para 37 homens, incluindo 18 que foram considerados elegíveis para repatriação ou reinstalação num terceiro país. O The New York Times vai mantendo atualizada uma listagem dos prisioneiros, a maioria sem acusações criminais. 

Segundo um relatório da organização Human Rights Watch (HRW), os Estados Unidos gastam cerca de 477 milhões de euros por ano apenas para manter detidos em Guantánamo. Além disso, o Pentágono pediu aproximadamente 77 milhões de euros para a construção de um hospício para os detidos idosos, noticiou o The New York Times.

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