NATO vira atenções para a ilha a 300 quilómetros do altamente militarizado enclave russo de Kaliningrado. Primeiros exercícios militares conjuntos desde a adesão da Suécia em 2024 deixam a descoberto dificuldades enfrentadas pelo país - e pelos aliados
Cerca de 18 mil soldados de 13 países concluíram há uma semana exercícios militares conjuntos nas planícies poeirentas de Gotlândia em preparação para um possível ataque russo. Foram os primeiros exercícios a ter lugar na ilha desde a adesão da Suécia à NATO em 2024, algo que, durante décadas, foi um não-assunto até a Rússia avançar com a invasão em larga escala da vizinha Ucrânia dois anos antes.
Com o aumento dos receios de uma agressão russa além-Ucrânia, perante ataques híbridos e os EUA a vacilarem no seu compromisso com a segurança europeia, a ilha de Gotlândia – situada no meio do Mar Báltico, ao largo da costa sueca e a apenas 300 quilómetros do enclave russo de Kaliningrado – está a angariar cada vez mais atenção dos aliados, que estão em marcha acelerada para a transformar numa fortaleza militar.
Nos últimos 18 meses, a ilha assistiu à sabotagem de uma bomba essencial de água, teve um cabo de fibra ótica submarino cortado e sofreu frequentes interferências de rádio que afetaram desde aviões até ambulâncias – algo que tem gerado “bastante preocupação” entre as forças armadas suecas. “Obviamente, a doutrina russa consiste em tentar identificar fraquezas e vulnerabilidades e fazer tudo o que puderem para as explorar”, diz ao POLITICO o comandante das forças armadas da Suécia, Michael Claesson.
As declarações foram proferidas à margem dos exercícios Aurora 26, que serviram para preparar cenários de ataque aos interesses dos aliados na ilha, mas que, como noticia o POLITICO, deixaram a descoberto as dificuldades que a Suécia enfrenta. Essas dificuldades começam pela redução da participação dos EUA nos esforços da NATO, em linha com o afastamento da aliança ditado por Trump, e acabam no facto de as tropas ucranianas terem destruído rapidamente um destacamento blindado sueco num ataque com drones – passando pelas crescentes preocupações com os ataques híbridos da Rússia, discretos e que nunca chegam a configurar uma declaração de guerra, mas que estão a obrigar a Suécia a recalibrar a sua prontidão e capacidade de resposta.
“Eles [suecos] têm assistido a um aumento significativo na atividade russa, cortes de cabos, sobrevoos de drones, vários incidentes de espionagem”, diz ao POLITICO Anna Wieslander, diretora para o norte da Europa no Atlantic Council. “Quando há muita incerteza em relação ao compromisso dos EUA, o risco de a Rússia aproveitar a situação como uma oportunidade aumenta.”
À margem do exercício Aurora 26 em Gotlândia, enquanto soldados dos vários países se movimentavam entre veículos blindados na zona oeste da ilha, o comandante Claesson deixou bem claro: um ataque russo “pode acontecer a qualquer momento” aqui. Até porque, como aponta Niklas Granholm, vice-diretor da Agência Sueca de Investigação de Defesa, subordinada ao governo, “com o alcance e o posicionamento dos atuais sistemas [de armamento], quem controlar a Gotlândia pode controlar grande parte do que acontece no Mar Báltico”.
Perante os receios e os riscos, a Suécia está a acelerar a fortificação da ilha de 60 mil habitantes, depois de ter restado apenas um punhado de soldados em Gotlândia após a Guerra Fria. Nos últimos tempos, Estocolmo investiu mais de 200 milhões de euros para reverter essa redução de investimento militar, apostando na melhoria de infraestruturas, na reativação de sistemas de defesa aérea e na restauração de um regimento armado com veículos blindados CV90 e tanques Leopard 2.
O plano, como adianta Andreas Gustafsson comandante do regimento de Gotlândia, é que “pelo menos mil” tropas rotativas se juntem às 4.500 que já estão na ilha “dentro de um ano” – e que unidades de artilharia de longo alcance se juntem a elas “em breve”. A partir de 2028 está ainda previsto que a ilha comece a receber novos sistemas de defesa aérea de médio alcance IRIS-T.
Apelidada de porta-aviões inafundável dado o seu papel crucial enquanto plataforma de lançamento de operações aéreas na região, caças que descolem de Gotlândia podem alcançar qualquer capital do Báltico “em minutos”, garante Granholm. Se a Rússia decidisse tomar a ilha e instalar ali sistemas de defesa aérea, poderia bloquear navios e aviões que abastecem os três países bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia – e a Finlândia, adianta a mesma fonte. Já se a NATO mantiver o controlo da ilha, poderá bloquear o acesso de Moscovo ao Mar Báltico, usar mísseis de longo alcance para defender a região e lançar munições contra território russo.
É neste contexto que se está a assistir a uma acelerada remilitarização da ilha, perante potenciais cenários como a Rússia tentar desembarcar tropas ali de forma secreta a partir de um navio comercial, enquanto interfere nos sinais de rádio e suprime as defesas aéreas com drones, aponta Wieslander do Atlantic Council. E apesar das preocupações, a segurança de Gotlândia está agora numa “boa situação”, muito graças à adesão da Suécia à NATO em 2024, adianta a analista.
A descoberto nos exercícios conjuntos ficou também a crescente hesitação dos EUA em disponibilizarem ajuda e contributos para a defesa dos aliados europeus, notória no facto de terem reduzido drasticamente o número de tropas enviadas para a ilha, como referiu ao POLITICO uma fonte familiarizada com o assunto.
Ao mesmo site, um porta-voz do exército dos EUA para a Europa e África disse que “os níveis de participação de diferentes países costumam mudar durante a fase de planeamento”, destacando que o treino militar conjunto contou com 300 soldados americanos – a mesma fonte recusou-se a dizer quantos estavam originalmente previstos.
As tropas que participaram no exercício entrevistadas pelo POLITICO insistiram, por sua vez, que os laços militares entre os dois países permanecem fortes. “As nossas forças trabalharam juntas de forma excecional”, disse o tenente-coronel Travis Chamberlain, comandante de um batalhão de fuzileiros navais que os EUA enviaram para Gotlândia. “Temos observado altos níveis de integração [e] estamos a trabalhar em planos de segurança de integração muito detalhados sobre como protegermos as forças e forneceríamos apoio logístico em toda a ilha”, garantiu.
Dada a importância de Gotlândia para a aliança, algumas capitais defendem que a NATO pode e deve fazer mais ainda, como considerar a instalação de sistemas permanentes de defesa aérea de longo alcance para dissuadir a Rússia, disseram dois diplomatas da aliança ao POLITICO sob anonimato.
Para o chefe da Defesa da Suécia, Michael Claesson, a prioridade é não deixar que Moscovo esteja um ou vários passos à frente dos aliados. “Não devemos ficar de braços cruzados à espera que este ou aquele nível de regeneração das forças armadas russas aconteça, mas sim estar constantemente alerta e preparados.”
