A Suécia está a preparar-se para a verdadeira guerra: vencer no negócio da defesa

Wilson Ledo , em Estocolmo, Suécia*
28 mar, 22:00
Reportagem Empresas Suecas de Wilson Ledo (Happy Wilder)

O tema da guerra surge sempre quando se fala com empresários suecos. Seja pelos riscos, seja pelas oportunidades. Neste país do norte da Europa, há uma cultura de investimento, que o sistema de pensões alimenta. E todos parecem conscientes da nova “tendência”: a defesa. Nem que ela venha de forma indireta, pela soberania energética e alimentar

Aterragem em Estocolmo. Ativa-se a rede no telemóvel. As notícias surgem em catadupa. EUA e Israel atacam o Irão. Teerão retalia sem descanso. Há agora toda uma região mergulhada em conflito. Parece estranho, mas também é sobre guerra que vimos aprender à capital da Suécia.

“Não devemos desperdiçar uma boa crise”. É o que repete Anders Ahnlid, diretor-geral do Conselho Nacional de Comércio da Suécia. Foi embaixador deste país nórdico na União Europeia. Recebe-nos com uma chávena de café quente ao final da tarde. Fecha-se mais um ciclo. “Temos de olhar para a nossa casa. Temos de usar esta crise para que o mercado europeu aproveite cada oportunidade”.

Anders Ahnlid olha para o atual contexto como um campo de "oportunidades" (Happy Wilder)

Nos EUA, argumenta, não se pode confiar com “aquele tipo estranho na Casa Branca”. É de Donald Trump que fala, do seu carácter imprevisível. “Temos de agir para manter e promover os nossos interesses sem os americanos”. A bússola deste diplomata aponta para o Mercosul, a Índia e o sudeste asiático.

Politicamente, na Suécia, diz, há consenso sobre a necessidade de aumentar o orçamento em defesa, sem colocar em causa as outras áreas. Seria “pago através de empréstimos”, porque “há muita coisa que precisa de ser financiada”.

Um modelo de pensões com impacto direto

Há que pagar o esforço de guerra, sim. Mas também é possível ganhar com ele. Tem sido essa a postura da Suécia nos dias incertos que correm. Uma sociedade da dimensão de Portugal, com cerca de 10 milhões de habitantes. Contudo, com uma cultura de investimento muito diferente.

Comecemos pelos fundos de pensões. Os suecos descontam 18,5% dos seus salários. E, destes, há uma componente de 2,5% que tem um destino claro: investimento. Os contribuintes podem escolher entre centenas de fundos privados. Ainda assim, se não o fizerem, o dinheiro vai parar ao AP7, com gestão pública.

Mikael Lindh Hök explica o modelo de pensões sueco (Happy Wilder)

É onde acaba o dinheiro de “mais de metade dos contribuintes”, confirma Mikael Lindh Hök, porta-voz do AP7. Há áreas de grande interesse como a energia ou a agricultura. E isso também é uma forma de vencer uma guerra: pela soberania energética e alimentar.

E a defesa? “Se as empresas do setor da defesa subirem, nós seguimo-las. Estamos autorizados a investir em defesa, porque não é algo que viole as convenções internacionais”, concretiza o responsável.

O modelo de pensões sueco é particular e tem gerado a atenção de outros países, “como a Alemanha”. Além disso, está também atento à dinâmica geopolítica mundial. Veja-se que metade do portefólio de investimentos está nos Estados Unidos da América.

“De momento, não temos planos para não investir nos Estados Unidos”, conta Charlotta Dawidowski, responsável pela área de sustentabilidade e responsabilidade social do AP7. Em contexto de guerra, explica, há uma área que é uma linha vermelha no investimento: “o nuclear”.

Guerra é um tema sempre presente nas conversas com empresários em Estocolmo (Happy Wilder)

A nova “tendência”

Tempo para uma breve aula de Pontus Braunerhjelm, economista e diretor da área de investigação do Fórum Sueco de Empreendedorismo. “Os suecos tornaram-se sensíveis à forma como emergem as várias tendências”, diz. E, também por isso, o setor da defesa não é exceção.

“Antes, ninguém investiria na Saab, que produz caças. Agora é claro para toda a gene. E as ações acabaram de explodir”, exemplifica. A Saab será uma paragem deste artigo. “Este desejo de investir [em defesa] concentra-se tanto nos grandes atores como em empresas novas e jovens de tecnologia de defesa avançada”, remata o académico.

Abre-se uma oportunidade para a cooperação com Portugal, admite. Todavia, há um passo conjunto que pode ser dado antes: “exercer pressão junto da União Europeia, porque precisamos de mais integração, de um mercado que funcione melhor, de mais inovação”.

Pontus Braunerhjelm mostra as diferenças entre a Suécia e Portugal (Happy Wilder)

Por falar em inovação, estamos agora na Norrsken House. É uma antiga estação de comboios, transformada em espaço de “coworking”. Um autêntico jardim interior, onde nascem ideias que se querem tornar grandes negócios, com “impacto” no mundo.

“Queremos salvar o mundo pela inovação e empreendedorismo”, resume Pelle Tamleht, responsável de marketing e parcerias, durante uma visita guiada. Procuram-se soluções sobretudo nas áreas da energia e dos cuidados de saúde.

E a defesa? Aí é o colega Per Frykebrant, responsável de comunicação, quem toma a dianteira. “Os nossos empreendedores estão a procurar resolver problemas que fazem manchetes, como a questão da soberania energética. Já fora da Norrsken House, notamos que há uma tendência de start-ups na área da defesa”.

No interior da Norrsken House (Happy Wilder)

Lista de compras

É no escuro da sala – uma autêntica montra de vendas – que ganham destaque os produtos da Saab. Há soluções para o conflito em terra, no ar e no mar. Ingemar Karlsson, diretor do grupo sueco para Portugal e Espanha, começa pelo último. Fala do caminho para os drones subaquáticos. E confessa que os novos submarinos da empresa, devido ao tamanho, “não são uma solução para Portugal”.

Ainda assim, há muitas opções que poderiam servir às Forças Armadas portuguesas. “A Marinha Portuguesa tem detetores de radares e inteligência de sinais da Saab. Se quiserem novos, temos”, aponta, lembrando a importância destes equipamentos para as missões de Portugal enquanto membro da NATO.

Ingemar Karlsson apresenta algumas das soluções da Saab (Happy Wilder)

Há também à espera no catálogo o GlobalEye, um radar voador, que se aplica num avião Bombardier. “Se Portugal tivesse isto, podia controlar metade do Atlântico”, concretiza.

Contudo, o foco do negócio é outro. Está bem no centro da sala: os caças Gripen. “Diria que temos a aeronave mais avançada. Tem algo muito importante no combate de hoje: a rapidez de mudança, de adaptação”, aponta Daniel Boestad, vice-presidente de desenvolvimento de negócios do programa Gripen.

É a alternativa que os suecos querem ver escolhida por Portugal na hora da Força Aérea substituir os F-16. E, embora não haja um “processo formal”, o namoro com o executivo português segue com intensidade. Daniel Boestad vinca que Portugal tem “muito potencial” para produzir partes destes caças – um argumento semelhante ao usado no Brasil que, como moeda de troca pela compra destas aeronaves, assegurou parte da produção.

Suecos querem que Portugal compre os novos caças Gripen, acenando com produção em Portugal (Happy Wilder)

Outras guerras, outras oportunidades

Mesmo quando a guerra não está no centro do negócio, mexe com ele. “Estamos em todo o lado, por isso, qualquer coisa que aconteça pode afetar-nos”. É Per Lorentz, vice-presidente da Essity, com a área dos Assuntos Corporativos, quem o garante. Há bolos de canela para honrar a cultura local. É também, brinca, uma forma de compensação: “Na Suécia pedimos sempre desculpa pelo tempo quando não é verão”.

Talvez fique mais claro se lhe dissermos que a Essity é a dona da Tena, marca de produtos de higiene feminina – com 65 milhões de euros de vendas em Portugal, onde tem 360 trabalhadores na área de serviços partilhados. Contudo, no catálogo há também papel higiénico ou produtos médicos, como uma compressa muito usada em cirurgias, que permite absorver bactérias.

Em matéria de transporte e logística, o impacto da guerra é diminuto para esta empresa. A produção tende a ser feita localmente dada, por exemplo, a grande necessidade de espaço de armazenamento, em contraste com o seu reduzido valor.

O receio é outro: “o impacto massivo em termos de energia”. E esse já estamos todos a sentir, por muito que a guerra pareça estar lá longe.

Impacto energético é um dos mais temidos na guerra (Happy Wilder)

O percurso segue para a Epiroc, dedicada a máquinas usadas na exploração mineira. Em Portugal, por exemplo, está a apoiar a expansão do Metro do Porto. Em 2022, após a invasão da Ucrânia, a Epiroc saiu da Rússia, que era o seu quarto maior mercado.

Agora, há a porta de uma outra área geográfica essencial que arrisca fechar-se. “O Médio Oriente é um grande foco para nós. Víamos muitas oportunidades de negócio”, confessa Ola Kinnander, responsável para as relações com a imprensa.

Para esta empresa sueca, há outra guerra determinante: a comercial. Se o impacto das tarifas de Donald Trump foi “limitado”, na ordem dos 0,5%, o interesse americano nos minerais críticos pode mexer positivamente com o negócio. A Europa tem necessidade de responder no sentido da sua autonomia.

Interesse em minerais críticos pode acelerar negócios como o da Epiroc (Happy Wilder)

Ainda assim, a resposta é sempre naquela postura diplomática que os suecos cultivam: “não gostamos de guerras comerciais, gostamos de comércio livre”.

*o jornalista viajou a convite da Câmara de Comércio Luso-Sueca

Europa

Mais Europa