"Devastador". Novo governo sueco acaba com Ministério do Ambiente e política externa feminista

20 out, 11:10
O novo governo sueco de direita (Foto: Fredrik Sandberg/TT News Agency via AP)

Coligação minoritária de direita acabou com política de bandeira para a igualdade de género e entregou a pasta do Ambiente a uma deputada de 26 anos, que está sob a tutela do Ministério da Energia

A composição do novo governo sueco foi revelada esta semana e a reação da oposição foi contundente: o novo executivo, liderado pelo conservador Ulf Kristersson, do Partido Moderado, foi descrito como "devastador". Desde logo, porque foi extinto o Ministério do Ambiente como organismo autónomo: apesar de ter sido nomeada uma ministra do Ambiente -  Romina Pourmokhtari, dos liberais, de 26 anos - a governante trabalhará sob a alçada do Ministério da Energia, Negócios e Indústria, liderado por Ebba Busch, dos democratas-cristãos.

"É impossível descrever de forma mais clara o pouco que este governo valoriza o ambiente e o clima. Esta é uma decisão histórica com consequências devastadoras para as questões ambientais",  lamentou Per Bolund, o líder dos Verdes, citado pela Euronews, salientando que é a primeira vez em 35 anos que a Suécia não terá um Ministério do Ambiente. 

Apesar da extinção do ministério, o programa do novo governo, que foi revelado na semana passada, elenca o ambiente como uma das sete áreas prioritárias, ainda que a maioria das iniciativas estejam relacionadas com a crise da energia. O novo governo compromete-se a cumprir com as metas do Acordo de Paris e destina 36 mil milhões de euros para a construção de novas centrais nucleares, prevendo ainda a introdução de regras mais rígidas para o encerramento de centrais nucleares - o governo propõe-se mesmo a analisar se é viável a reabertura de duas centrais no sul do país que deixaram de funcionar nos últimos anos. 

Pär Holmgren, deputado dos Verdes, diz mesmo esperar "enormes cortes em fundos verdes que levarão a um impacto devastador nas políticas do clima que nós, Verdes, trabalhámos tanto para colocar em vigor".

Fim da política externa feminista

Ao nível da política externa, a grande mudança do novo governo sueco foi acabar com a chamada "política externa feminista". O novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Tobias Billstrom, garantiu que o executivo irá sempre lutar pela igualdade de género, mas defendeu que o "rótulo" se tinha tornado mais importante do que o conteúdo. 

"A igualdade de género é um valor fundamental para a Suécia e para este governo, mas não conduziremos uma política externa feminista", disse Billstrom, citado pela BBC. "Porque os rótulos têm uma tendência para se tornarem mais importantes do que o conteúdo", frisou. 

Esta política tinha sido estabelecida em 2014 pelo então governo de esquerda, por ação da ministra dos Negócios Estrangeiros à data, Margot Wallstrom, que tornou a Suécia o primeiro país do mundo a levar em conta a igualdade de género no relacionamento com outras nações. Ao longo dos anos, esta política valeu mesmo alguns embates diplomáticos a Estocolmo: em 2015, Wallstrom comentou a falta de direitos das mulheres da Arábia Saudita, levando  Riade a retirar o seu embaixador da Suécia.

Os sauditas censuraram depois um discurso da antiga ministra dos Negócios Estrangeiros sueca na Liga Árabe, em que a governante se referia aos "direitos fundamentais" das mulheres, considerando a intervenção "ofensiva" e uma "interferência" em assuntos domésticos. Suécia e Arábia Saudita viriam ainda a pôr fim a um acordo de Defesa para exportação de armamento de Estocolmo para Riade. As trocas comerciais duravam há cerca de uma década.

A BBC lembra ainda que, em 2017 e 2018, quando a Suécia passou pelo Conselho de Segurança da ONU como membro não-permamente, trabalhou para incluir uma recomendação que tornava a violência de género ou violência sexual motivo de sanções, encorajando ativistas pelos direitos das mulheres oriundas da Somália e Nigéria a falarem no Conselho de Segurança. 

Estocolmo alega, na sequência desta passagem pelo Conselho de Segurança da ONU, que contribuiu para que fosse introduzida nova legislação sobre estas matérias em cerca de 20 países.

Coligação com apoio da extrema-direita

O novo governo sueco, que foi conhecido esta semana, foi anunciado depois de o líder dos conservadores, Ulf Kristersson, ter chegado a acordo com dois partidos mais pequenos, os Democratas Cristãos e os Liberais, para levar ao poder uma coligação minoritária que terá apoio da extrema-direta no parlamento.

O Partido Social-Democrata da Suécia foi o mais votado nas eleições de 11 de setembro, logo seguido pelo partido nacionalista anti-imigração Democratas da Suécia, o que precipitou a demissão da primeira-ministra social-democrata Magdalena Andersson.

Os partidos à esquerda procuram ainda uma coligação, mas foram as formações de direita que acabaram por se entender, ainda que a extrema-direita tenha ficado de fora da coligação governativa, mesmo tendo sido o segundo partido mais votado pelos eleitores.

A coligação minoritária que entra agora em funções junta os Moderados, do primeiro-ministro Ulf Kristersson, com os democratas cristãos e os liberais. Já os Democratas da Suécia, ainda que não estejam no governo, acordaram apoiar a coligação no poder sempre que seja necessária maioria no parlamento, em troca de compromissos políticos, nomeadamente ao nível do crime e da imigração. 
 

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