Extrema-direita está perto de chegar ao governo sueco. As tradições que terminam, as políticas que mudam e onde fica o Estado social

12 set, 19:00
Jimmie Akesson, líder dos Democratas da Suécia, festeja após contagem dos votos nas legislativas suecas (Foto: Maja Suslin/EPA)

Democratas da Suécia são o segundo partido mais votado nas legislativas de domingo. Por agora, os votos dão um empate técnico para as coligações de esquerda e de direita, mas a votação dos emigrantes pode mesmo levar os ultranacionalistas ao poder e à formação de um executivo maioritariamente com ministros extremistas

Em 2018, as eleições legislativas suecas foram decididas pelos votos dos emigrantes, que colocaram no poder a primeira-ministra Magdalena Andersson, do Partido Social-Democrata da Suécia. Quatro anos depois, o cenário repete-se: só na quarta-feira, depois do apuramento dos votos dos suecos a viver no estrangeiro, será possível saber se o bloco dos partidos à esquerda voltará ao poder (sociais-democratas, Partido de Esquerda, Verdes e Partido do Centro) ou se o bloco de direita, liderado pelo Partido Moderado de Ulf Kristersson, e que junta os Democratas da Suécia, o Partido Moderado, os cristãos-democratas e liberais, conseguirá uma maioria no parlamento. 

Mas uma coisa é certa: as eleições de domingo deram a maior votação de sempre ao partido nacionalista anti-imigração Democratas da Suécia (SD), liderado por Jimmie Akesson, que já acumula mais de 20% dos votos e se tornou, assim, no primeiro partido da direita e o segundo partido mais votado, superado apenas pelo Partido Social-Democrata da Suécia da atual primeira-ministra.

"Se houver uma mudança de poder, teremos uma posição central. A nossa ambição é sentarmo-nos no governo", disse Akesson, comentando o resultado, que ainda não está fechado - nesta altura, contam-se os votos para desfazer o empate técnico no Riksdagen, o parlamento sueco, que tem 349 assentos. Nos votos contados até à 01:00 em Estocolmo, menos uma hora em Lisboa, o bloco de direita obteve 49,7%, contra 48,8% do bloco da esquerda.

A Suécia, que está num processo de adesão à NATO e que assumirá a presidência rotativa do Conselho da União Europeia a 1 de janeiro de 2023, é governada desde 2014 pelos sociais-democratas, o principal partido do país desde a década de 1930. "Qual é, afinal, a grande novidade destas eleições? Até agora, a Suécia era o único país da Escandinávia em que o centro e a direita, os moderados e os liberais, se tinham comprometido a não se coligar com a extrema-direita. Na Dinamarca, Noruega, Finlândia, já não era assim. No fundo, é a mesma discussão que temos em Portugal, se o PSD deve coligar-se com o Chega para formar Governo. Até hoje, os suecos tinham dito que não fariam nunca uma maioria com a extrema-direita", diz à CNN Portugal o historiador Manuel Loff.

Ainda que os Democratas da Suécia estejam ligeiramente à frente dos Moderados na votação (20,7% até agora, contra 19%), o próximo primeiro-ministro sueco, a confirmar-se a vitória da direita, não será o líder dos ultranacionalistas: o acordo entre partidos prevê que seja Ulf Kristersson, o líder do Partido Moderado, a assumir a governação, pelo menos se a extrema-direita mantiver o que acordou. "Resta saber se a extrema-direita aceita agora esta lógica", aponta Manuel Loff. "O problema", explica o historiador, coloca-se de outra maneira: "Se a composição do governo for proporcional, o maior conjunto de ministros virá da extrema-direita." 

Num país conhecido pelas políticas sociais abrangentes e pelo progressismo, esta eventual mudança poderá representar, em termos governativos, "a ascenção de um populismo, que não é novo", aponta Helena Ferro Gouveia, e "uma Europa com fronteiras mais fechadas", indica a especialista em assuntos internacionais. 

"Na Suécia, havia já movimentos contra a política de imigração, considerada por alguns demasiado liberal. Este populismo não tem necessariamente a ver com um contexto de guerra", explica Ferro Gouveia. "Mas agora é preciso olhar para este partido, que tem simpatizantes que usam abertamente a suástica e que são acusados ou suspeitos de serem violentos na forma como exprimem as suas ideias políticas", aponta a especialista.

O que pode mudar na Suécia? 

Para Manuel Loff, se a coligação de direita vencer as eleições na Suécia, há duas tradições do país que terminam: a tradição da neutralidade, que já acabou com o pedido de adesão à NATO - "e que já veio trazer alterações à política de asilo político da Suécia relativamente aos curdos, para que a Turquia deixasse de objetar em relação ao pedido de adesão Estocolmo"; e, agora, com a subida dos votos na extrema-direita, terminará eventualmente o bom acolhimento de migrantes, "quando a Suécia era dos países que tinham uma política mais próxima dos princípios das Nações Unidas" relativamente a esta matéria. 

"Entre os nórdicos, os suecos sempre foram dos países com menor densidade populacional, mas a economia é desenvolvida. A Suécia sempre necessitou de mão-de-obra e, neste sentido, os imigrantes ajudaram a Suécia ao desenvolvimento desde a década de 60 do século passado e décadas seguintes. Tudo isso pode agora vir a mudar", explica o historiador. 

Helena Ferro Gouveia lembra a afirmação mais polémica de Jimmie Akesson, o desconhecido líder dos Democratas da Suécia, agora na ribalta, que defendeu num artigo de opinião que a maior ameaça à Suécia desde a Segunda Guerra Mundial era precisamente a imigração muçulmana, para explicar o que está em causa: a subida da extrema-direita sueca enquanto fenómeno anterior à guerra prende-se essencialmente com "o aumento da criminalidade e pela associação que aqui é feita, correta ou incorretamente, às comunidades de imigrantes na Suécia".

A criminalidade e os acertos de contas entre gangues criminosos, que se tornaram um grave problema social, têm sido algumas das principais preocupações dos suecos, a par dos cuidados de saúde e da imigração, o que favoreceu a subida do partido de Akesson. Para Helena Ferro Gouveia, a confirmar-se a chegada ao poder dos Democratas da Suécia, o grande foco do governo será menos em questões económicas e de fiscalidade e o partido de Akesson deverá trabalhar essencialmente a partir dos receios de "perda de identidade" dos suecos: "A Suécia, de país relativamente fechado, tornou-se num dos mais multiculturais da Europa. Uma das preocupações suecas de hoje é de que 30% das crianças que vivem na Suécia não têm o sueco como língua nativa, e em algumas cidades estes números chegam a 45%. A extrema-direita sabe jogar bem com estes receios, acenando as suas bandeiras."

Manuel Loff corrobora: "Estatisticamente, a Suécia é um dos países da UE com maior proporção, não de imigrantes, mas de população de origem não sueca. E isso é um critério fascista para fazer contas." Esta premissa pode abrir portas a uma política económica ultraliberal, centrada na ideia de refutar a imigração. "A tradição da extrema-direita sueca é a mesma que a da Escandinávia, a crítica ultraliberal ao Estado do bem-estar social", reflete o historiador, dando como exemplo a proposta dos nacionalistas italianos das "flat taxes" - impostos iguais para todos, ganhem um milhão ou 700 euros - como uma das que poderão ser colocadas sobre a mesa em Estocolmo. "Não haver impostos progressivos, retirar ao Estado um dever de proteção extraordinária ou prioritária aos mais desfavorecidos dentro do mercado é, tipicamente, a postura deles", diz.

"Com o tempo e a alternância no poder, foram-se criando várias brechas no Estado de bem-estar da Suécia. A chegada da extrema-direita vai agravar isso e vai dar-lhe um significado nacionalista, etnicista ou até supremacista: Estado social, sim, mas só para suecos", afirma o historiador. 

"Por comparação com os seus vizinhos, a Suécia tinha sido aquele país que mais claramente manteve a sua oposição a esta tendência cada vez mais avassaladora ou generalizada para a limitação dos direitos dos imigrantes, a aceleração da expulsão, a dupla punição, em que qualquer imigrante que seja penalizado na Justiça pode ser expulso também. E isto pode mudar a identidade da Suécia, tal como a conhecemos desde Olof Palm", acrescenta Manuel Loff.

Já quanto à NATO, a extrema-direita sueca não colocou objeções à entrada na Aliança Atlântica - noutros países, os extremos do espectro político opuseram-se à adesão à NATO por considerarem, por exemplo, que havia uma dependência exacerbada da política norte-americana. "Aqui, sendo nacionalistas, não eram especialmente neutralistas", refere Manuel Loff, lembrando que a Suécia sempre teve uma "cooperação para o desenvolvimento absolutamente invejável" e era um dos países com maior proporção do PIB reservada para a cooperação, com "confiança absoluta no Direito Internacional, aposta nas instituições internacionais e recusa da confrontação entre blocos".

O líder que "faz o que puder para não parecer um intelectual"

Jimmie Akesson, de 43 anos, divorciado e com um filho de oito anos, pode considerar-se o responsável pela grande subida dos votos nos Democratas da Suécia, ainda que seja praticamente um desconhecido fora de fronteiras: juntou-se ao partido na década de 90, ajudando a formar uma juventude partidária na pequena cidade sueca de Solvesborg, com cerca de nove mil habitantes, onde cresceu: a mãe era auxiliar de saúde e o pai empresário. Em 2002, assumiu a liderança da juventude do partido e, em 2005, passou a estar aos comandos do próprio organismo, quando os Democratas da Suécia conseguiam cerca de 1% dos votos em atos eleitorais. Reforçou as bases do partido com o apoio dos eleitores das regiões rurais suecas, que se sentiam ameaçados pelos imigrantes que chegavam às grandes cidades. O partido tinha sido fundado em 1988 e, até então, não escondia os laços a neonazis e supremacistas brancos. 

Akesson estudou ciência política na universidade de Lund, mas não chegou a terminar a licenciatura. Foi lá que conheceu Richard Jomshof, Mattias Karlsson e Björn Söder, com quem viria a formar o "grupo dos quatro", todos futuros líderes partidários que fariam crescer o partido nacionalista em torno da mensagem de que o Estado social de bem-estar sueco seria destruído pela imigração muçulmana. Sob a liderança de Akesson, os Democratas da Suécia modernizaram-se, mudaram a imagem e o logo, substituindo a tocha azul e amarela por uma anémona. Garantiram que iriam expulsar do partido todos os racistas ou militantes com passados violentos: em 2012, Akesson impôs  "liderança zero" para comportamentos racistas e extremistas. 

Em 2010, quando chegaram ao parlamento sueco, conquistaram 5,7% dos votos; em 2018, foram 17,5%, à medida que a imigração na Suécia aumentava e o país, com pouco mais de dez milhões de habitantes, contabilizava uma comunidade com cerca de meio milhão de requerentes de asilo que tinham chegado na última década.

"Ele quer dar a ideia de que é um homem normal, que grelha salsichas, fala normalmente e vai de férias para as Canárias", disse à AFP Jonas Hinnfors, da Universidade de Gotemburgo. "Ele faz tudo o que puder para não parecer um intelectual", acrescentou. Em 2014, Akesson chegou mesmo a admitir um vício em apostas online e tirou uma licença de meio ano da política, depois de sofrer um "burnout".

Em 2015, o líder do partido excluiu por completo a juventude partidária, devido às ligações com extremistas, mas os críticos garantem que apenas os militantes das bases foram excluídos - os que ocupavam lugares altos na hierarquia do partido foram poupados. E só em 2019 as referências à "essência herdada" foram retiradas do programa do partido. Nesse mesmo ano, os Democratas da Suécia colocaram de lado a hipótese do "Swexit", a saída da União Europeia, devido à falta de apoio público. Mais recentemente, a máquina partidária adotou um slogan semelhante ao de Trump, prometendo colocar a Suécia primeiro. E, enquanto outros partidos europeus de extrema-direita declararam apoio a Putin, o SD tem defendido a Ucrânia, o que poderá ter facilitado a decisão do partido de Akesson de não se opor à adesão à NATO.

"É um homem extraordinariamente ambicioso e persistente", afirma Manuel Loff. "Ele é tão controverso que até se pode pôr a possibilidade de não vir a ser membro do governo. Isso acontece muitas vezes, preservar-se do exercício do poder o líder com aquelas características do populismo da extrema-direita", explica Manuel Loff. "Não será insólito não o ver no governo para se preservar." 

Segundo Jonas Hinnfors, da Universidade de Gotemburgo, os Democratas da Suécia passaram de um partido que "dizia não a tudo para ser um partido que leva em consideração a situação parlamentar e está a começar a ver onde consegue ter a maior influência, possivelmente cooperar e fazer o menor número de compromissos possível".  

Durante um comício em Estocolmo, no passado mês de agosto, Akesson disse aos jornalistas: "Acho que o nosso sucesso pode ser explicado pelo facto de as pessoas acharem que os outros partidos não levam os problemas delas a sério."  Noutra ocasião, o líder dos Democratas da Suécia não deixou de evidenciar, falando para uma audiência de centenas de pessoas em Estocolmo, que muitos suecos estão "cansados da imigração, do crime, dos preços da eletricidade". 

A popularidade de Akesson é incontestada e a retórica do líder impôs-se mesmo perante um escândalo que rebentou semanas antes das legislativas, e que pouco o terá afetado: uma investigação do grupo sueco Acta Publica descobriu que 289 políticos de partidos suecos com representação parlamentar estavam envolvidos em atividades consideradas racistas ou nazis. E uma grande maioria desses políticos - 214, mais precisamente - era dos Democratas da Suécia.

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