Sudão: Combates prosseguem apesar da trégua anunciada e intensificam-se no Darfur

Agência Lusa , DCT
28 abr 2023, 14:01
Sudão (PO Phot Aaron Hoare/UK Ministry of Defence via AP)

As duas partes envolvidas no conflito iniciaram esta sexta-feira uma trégua de 72 horas mediada pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita para facilitar a retirada de estrangeiros no Sudão e abrir corredores seguros para a entrada de ajuda humanitária.

Os combates no Sudão prosseguem, sobretudo na capital, Cartum, e intensificaram-se na região do Darfur, apesar do prolongamento da trégua alcançada entre o exército e os paramilitares, denunciaram esta sexta-feira fontes locais.

Pelo menos 74 pessoas morreram na capital do Darfur Ocidental, El-Geneina, durante combates na segunda e terça-feira, informou o sindicato dos médicos num relatório provisório hoje divulgado.

No documento, o organismo refere que as mortes nos últimos dias não puderam ser contabilizadas, pois todos os hospitais estão "fora de serviço”, afetados pela guerra que já fez mais de 500 mortos em menos de duas semanas.

Pouco antes de expirar um cessar-fogo de três dias, à meia-noite (21:00 de Lisboa), o exército do general Abdel Fattah al-Burhan e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), leais ao general Mohamed Hamdane Daglo, conhecido como "Hemedti", aprovaram uma extensão de 72 horas da trégua, que quase nunca foi respeitada.

No Darfur, "a situação é muito tensa", disse à France-Presse (AFP) um morador de El-Geneina: "Foi um dia muito difícil ontem [quinta-feira]. Não há mais comida", porque "os mercados foram saqueados".

Desde quinta-feira à noite, defensores de direitos humanos e médicos têm feito soar o alarme para a região do Darfur, localizada na fronteira com o Chade.

Em El-Geneina, os combatentes trouxeram "metralhadoras, armas pesadas e equipamentos de tiro antiaéreo" e "dispararam foguetes contra casas", relata a Associação dos Defensores do Darfur.

"Burhan e Hemedti devem parar imediatamente esta guerra estúpida que está a ser travada nas costas dos civis", exortou esta organização não-governamental (ONG).

A ONU diz que "estão a ser distribuídas armas" a civis, enquanto as duas partes em conflitos se acusam mutuamente de violações da trégua e de ataques a instalações civis.

As autoridades sudanesas acusaram as RSF de "ocuparem" um total de 12 hospitais e instalações médicas, incluindo o Laboratório Nacional de Saúde Pública, onde existe um "perigo muito elevado de risco biológico", segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Ministério das Relações Exteriores sudanês disse em comunicado que apresentou uma queixa à OMS pelas ações das RSF, que chamou de "chocantes", "bárbaras" e "contrárias a todos os princípios e normas", conforme relatado pela agência de notícias estatal sudanesa, SUNA.

O representante da OMS no Sudão, Nima Said Abid, disse na terça-feira que havia um "perigo muito alto de risco biológico" depois de uma das partes em conflito no Sudão ter tomado as instalações do Laboratório Nacional de Saúde Pública, sem especificar quem estaria por trás do ataque e da ocupação.

O Sudão entrou hoje no décimo quarto dia consecutivo de confrontos entre o exército e as RSF, que já fizeram pelo menos 512 mortos e 4.193 feridos e obrigaram milhares a deslocarem-se para zonas mais seguras do país ou a refugiarem-se em nações vizinhas como o Sudão do Sul, o Egito ou o Chade.

As duas partes envolvidas no conflito iniciaram esta sexta-feira uma trégua de 72 horas mediada pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita para facilitar a retirada de estrangeiros no Sudão e abrir corredores seguros para a entrada de ajuda humanitária.

Vários países já concluíram as operações de retirada dos seus cidadãos e pessoal diplomático no Sudão, mas outros continuam o processo por terra, mar e ar. Vinte portugueses que pretendiam deixar o Sudão já foram retirados no país, informou na quarta-feira, em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

Os combates seguiram-se a semanas de tensão sobre a reforma das forças de segurança nas negociações para a formação de um novo governo de transição. Ambas as forças estiveram por trás do golpe conjunto que derrubou o executivo de transição do Sudão em outubro de 2021.

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