Mais de 300 crianças mortas em seis meses na guerra no Sudão, a maioria por ataques de drones

Agência Lusa , CM
6 jul, 12:58
Campo de refugiados no sul do Sudão (EPA)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Segundo a Unicef, as crianças não enfrentam apenas o risco imediato de morte e ferimentos. O conflito continua a expô-las a graves violações, incluindo recrutamento e exploração, rapto, violência sexual e ataques a escolas e hospitais

Pelo menos 330 crianças foram mortas nos últimos seis meses na guerra no Sudão, a maioria por ataques de drones, anunciou esta segunda-feira a agência da ONU para a infância.

O Sudão está mergulhado numa guerra entre o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), um grupo paramilitar, desde abril de 2023.

A guerra está agora concentrada nos estados do Cordofão, Darfur e Nilo Azul, e os ataques com drones causam 60% das baixas, contabiliza o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“As crianças estão presas num ciclo implacável de violência, deslocação e privação”, afirmou Sheldon Yett, Representante da Unicef no Sudão.

“Para muitas crianças, já não há lugar seguro. Estão a ser mortas e feridas nas suas casas, nas ruas, nos mercados e enquanto tentam aceder a serviços essenciais, como a educação e a saúde. As crianças nunca devem ser um alvo. As suas vidas, os seus direitos e o seu futuro devem ser protegidos”, acrescentou.

A ameaça persistente de ataques também intensificou o medo, a ansiedade e o trauma entre as crianças, particularmente nas comunidades que enfrentaram repetidos bombardeamentos e deslocações.

Segundo a Unicef, as crianças não enfrentam apenas o risco imediato de morte e ferimentos. O conflito continua a expô-las a graves violações, incluindo recrutamento e exploração, rapto, violência sexual e ataques a escolas e hospitais.

A ONU, os EUA, o Reino Unido e outros países manifestaram alarme sobre possíveis atrocidades, enquanto as RSF e o exército sudanês lutam pelo controlo da cidade estratégica de el-Obeid, no Cordofão do Norte.

O conflito já matou pelo menos 59.000 pessoas, desalojou cerca de 13 milhões e mergulhou muitas regiões do Sudão na fome. Mais de 30 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária.

Os ataques com drones e os bombardeamentos têm como alvo as infraestruturas civis, incluindo escolas, mercados, postos de combustível e de água, colocando mais de 500.000 pessoas em risco. Os civis enfrentam condições quase de cerco há mais de um ano.

A ONU apelou às partes envolvidas no conflito “para que protejam os civis e as infraestruturas civis, permitam e facilitem o acesso humanitário seguro, rápido e sem entraves e tomem todas as medidas possíveis para proteger as crianças de danos”.

Conselho de Direitos Humanos da ONU ordena "investigação urgente"

O Conselho de Direitos Humanos da ONU ordenou hoje uma "investigação urgente" devido à "escalada da violência" no Sudão e em El-Obeid, uma importante cidade cercada por paramilitares que combatem as forças governamentais.

El-Obeid, na região do Cordofão do Norte (Sudão central), está cercada há vários meses pelas Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), paramilitares que estão em guerra com o exército regular desde abril de 2023.

Numa resolução adotada hoje por consenso pelos seus 47 membros, e após um debate de emergência realizado na sexta-feira a pedido do Reino Unido, o Conselho dos Direitos Humanos manifestou "a sua profunda preocupação com o risco iminente de atrocidades generalizadas cometidas pelas RSF, incluindo a violência sexual relacionada com o conflito, a que centenas de milhares de civis estão expostos (...) em El-Obeid e arredores".

Por isso, ordenou à Missão Internacional Independente de Apuramento de Factos sobre o Sudão, estabelecida pelo Conselho de Segurança no início do conflito, que conduza "uma investigação urgente" sobre as alegadas violações do direito internacional humanitário e crimes internacionais relacionados cometidos no país.

Nas últimas três semanas, a ONU, as ONG e vários governos têm manifestado preocupação com um possível ataque iminente a El-Obeid, semelhante ao que levou à captura de Al-Fashir (no oeste do Sudão) no ano passado, cidade no Darfur onde as Forças Revolucionárias Sudanesas (FRS, na sigla em inglês) são acusadas de cometer inúmeras atrocidades.

El-Obeid, com uma população de meio milhão de habitantes, alberga aproximadamente 100 mil pessoas deslocadas pela violência noutras partes do país. Depois de ter rompido um longo cerco em fevereiro do ano passado, o exército tem lutado para impedir que os paramilitares reimponham o bloqueio através de repetidos ataques com drones contra a cidade, as suas infraestruturas e a principal via de saída.

O Conselho sublinhou que não existe uma solução militar para a crise no Sudão, reiterando o seu apelo a um cessar-fogo imediato e abrangente, sem pré-condições, e ao estabelecimento de um processo de transição política credível e inclusivo que conduza a um governo nacional democraticamente eleito após um período de transição liderado por civis.

No texto da resolução, o Conselho condenou "os ataques aéreos contra civis e o ataque ilegal às infraestruturas civis", incluindo "dezenas de ataques com drones contra El-Obeid nas últimas duas semanas, incluindo contra hospitais e outras instalações de saúde, que causaram vítimas civis e interromperam o acesso a serviços essenciais".

Apelando a "todas as partes em conflito para que garantam a proteção dos civis", particularmente daqueles que são forçados a fugir, no texto denuncia-se ainda "o uso generalizado da violação e de outras formas de violência sexual e de género como método de guerra, incluindo em locais de detenção e como método de tortura".

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

África

Mais África