opinião
António Gomes, Psicólogo e Membro da Delegação Regional Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

O Psicólogo Responde: "O stress pode causar vontade de comer?" 

9 ago, 10:00
(Piscólogo)
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O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

 

Invariavelmente o stress é uma das palavras de ordem dos dias de hoje. Se por um lado esta afirmação pode caber na banalidade de uma frase feita, por outro, é uma observação empírica que nos acompanha diariamente. As representações sociais em torno do sucesso e do nosso papel social, a variedade de contextos em que nos inserimos, as exigências que lhes são inerentes, e a possibilidade de estarmos sempre contactáveis, criam condições férteis para “entrarmos em stress”. 

Mas o que é que é o stress e o que é que tem a ver com a vontade de comer?

O stress tem as “costas largas” e é por vezes confundido com tensão física, irritabilidade, cansaço e ansiedade. Podemos estar em stress e sentir isso tudo, mas isso são os sinais ou consequências de estarmos stressados. O stress é um estado de sobrecarga. Quando nos deparamos com um acontecimento novo, ou quando estamos simplesmente a realizar as nossas tarefas diárias, fazemos uma avaliação implícita entre os recursos necessários para responder à situação e os recursos que temos disponíveis. O stress surge quando percecionamos um desequilíbrio entre os recursos físicos, cognitivos e/ou emocionais que temos de mobilizar para responder ao acontecimento e aqueles que temos disponíveis. A forma como percecionamos esse acontecimento, como positivo ou negativo, influencia a nossa avaliação, assim como o facto de ser algo que antecipávamos ou não. É importante considerar que nem sempre é possível alcançar um balanço ótimo entre os recursos disponíveis e os necessários. Portanto, o stress também pode ajudar-nos a mobilizar outros recursos ou a agir com a rapidez necessária. 

O estado de stress ou a exposição a situações geradoras de stress, quando prolongados no tempo, podem levar-nos a desgastar os nossos recursos e a sentirmos que não conseguimos dar resposta, o que por sua vez reforça o stress. Ou então, um evento negativo inesperado ou muito intenso pode deixar-nos em choque, pelo que entramos em stress pela perceção de que não conseguimos mobilizar os nossos recursos e/ou responder à situação. Estar em stress pode traduzir-se numa sensação desagradável, com a qual lidamos de diferentes formas, e que nos influencia comportamental e fisicamente. 

Voltando à questão: sim, há situações em que algumas pessoas vão ter o seu comportamento alimentar influenciado pelo seu estado de stress. 

Biologicamente, o estado de stress é acompanhado por um aumento do cortisol, o que potencia o apetite, a par com a diminuição da capacidade de autocontrolo, podendo traduzir-se num aumento da ingestão de alimentos. A investigação também demonstra alguma evidência de que o stress está associado a um aumento da ingestão de alimentos pouco saudáveis, isto é, ricos em energia, mas com pouco valor nutricional. Verifica-se também uma diminuição da ingestão de alimentos com maior valor nutricional e menos energia. 

Por outro lado, há pessoas que referem ficar sem apetite quando estão stressadas. Isto pode acontecer porque quando confrontadas com um acontecimento súbito e intenso, ocorre a ativação do sistema nervoso simpático, o que causa a perda do apetite. 

Ao nível comportamental, o aumento da ingestão de alimentos está associado a uma forma de alívio, através do escape cognitivo e emocional. Enquanto come compulsivamente, a pessoa não está ativamente a processar pensamentos ou a gerir emoções. Se, por um lado, isto pode traduzir-se numa forma de alívio momentâneo, depois podem seguir-se sentimentos de tristeza e de culpa pelo comportamento. 

Logo, sim, o stress pode levar a alterações do comportamento alimentar, por uma interação de fatores biológicos e comportamentais. Contudo, não existe uma relação causal direta, sendo necessário considerar outras variáveis, como o género, o peso, se tem ou não uma dieta restritiva, a idade ou o tipo de stress. 

Partilho consigo algumas estratégias para mitigar estes efeitos do stress no comportamento alimentar: 

  • É importante que faça um balanço da sua rotina diária, identifique as suas principais fontes de stress (e.g., profissional, na relação com determinadas pessoas, familiar) e, a partir daí, perceba se é possível excluir algumas delas ou que dificuldades está a sentir na sua gestão. Está a ter dificuldades porque as situações são muito exigentes, porque são continuadas no tempo, ou porque não tem momentos de recuperação? 

  • Da mesma maneira que importa refletir sobre fontes de stress, tire um momento para perceber que fontes de recuperação e apoio é que tem. Se o stresse decorre na sequência de uma perceção de sobrecarga, é igualmente importante perceber como podemos descarregar o peso, mas também carregar as nossas energias. Que momentos de ócio, lazer e descanso tem disponíveis? Com que pessoas é que pode partilhar o peso e receber apoio? 

  • Se comportamentalmente o aumento da ingestão de alimentos está associado a uma forma de evitamento dos pensamentos e emoções, é importante desenvolver outras estratégias de regulação emocional. Os momentos de recuperação, o autocuidado e a partilha com amigos podem ter um papel importante nessa gestão. Além disso, é importante dar algum espaço para estar em contacto com aquilo que sente. O que é que sente no seu corpo? Como é que essa sensação o faz sentir? Que ideias tem acerca disso? E, por último, como pode cuidar disso, o que é que precisa? Estas são questões difíceis, mas importantes para poder regular as suas emoções de outra forma que não o evitamento ou a supressão do que sente. 

  • Se percebe que, no seu caso, o stress tem este efeito de aumentar o apetite, é pertinente diminuir a disponibilidade de certos alimentos em casa. Contudo, não se fique meramente por esta restrição – se vai fazer isto, dê também espaço para os aspetos da regulação emocional e dos momentos de recuperação. 

  • A autoavaliação após um momento de ingestão mais compulsivo pode ser bastante negativa, e os sentimentos de culpa podem sobrepor-se ao alívio que procurou. É importante olhar para estes comportamentos com alguma tolerância e compreensão – uma lógica punitiva não é a melhor forma de os mudar. 

As questões do comportamento alimentar, do peso e da imagem corporal são transversais à sociedade, com uma incidência particular nas mulheres, mas que também se estendem aos homens. É um tema que pode ser uma fonte de sofrimento clínico, com impacto na autoestima, autoimagem e na forma como se vive a relação consigo e com os outros. O tema que abordamos hoje não representa necessariamente um problema clínico. Contudo, se sente que tem dificuldades persistentes face ao seu comportamento alimentar, ou que lhe está a ser difícil lidar com o stress, regular as suas emoções e cuidar de si, não hesite em procurar a ajuda de um psicólogo. 

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