Stranger Things: o triunfo do talento na era dos “atores instagram” (opinião)

5 jul, 15:00
Stranger Things, temporada 4

Há fenómenos que de tão grandes têm o poder de furar gerações, classes sociais, línguas e claro… territórios. No cinema e na televisão sempre foi assim. A Guerra das Estrelas, o Indiana Jones, o Parque Jurássico, mais recentemente os filmes da Marvel Studios, a Guerra dos Tronos e claro… Stranger Things

A receita desta série sobre coisas estranhas é… estranhamente… simples e à primeira vista já muito “batida”. O primeiro ingrediente é ter um grupo de miúdos que enfrenta desafios ao nível dos graúdos. Nos anos 80 tínhamos os “The Goonies”, nos 2000 a grupeta de Harry Potter e agora “os putos” de Hawkins. O segundo ingrediente é juntar coisas do além, monstros e super-poderes. O terceiro passo é adicionar coração e explorar a força das relações humanas. O quarto e último ingrediente é o talento. Neste caso, muito talento. 

Esse parece ser o grande e pouco secreto ingrediente que dita o sucesso de Stranger Things, mesmo com uma fórmula reciclada… o talento! É impossível assistir a um episódio da quarta temporada de Stranger Things e não ficar rendido ao elenco. Não há um ator mau. Não há um mau momento de interpretação. De quantas séries e filmes podemos dizer isso? 

O elenco jovem é extraordinário. Gaten Matarazzo (que agora tem 19 anos), o engraçado e genial Dustin, tem no último episódio desta temporada dois momentos que o elevam ao nível dos grandes atores. A reação à morte de Eddie Munson (Joseph Quinn) e o momento em que dá a notícia desta própria morte ao tio da personagem são de uma verdade e de um talento ao alcance de poucos atores. É impossível não ficar submerso nestas cenas e deixar a emoção comandar os minutos seguintes. 

Noah Schnapp, o frágil Will Byers, também deve ser olhado com atenção. Sempre que lhe é dada a oportunidade de agarrar uma cena longa e densa, o ecrã é só dele. Noah consegue balançar na perfeição a fragilidade e timidez de Will, com a emoção e a força que a personagem tem vindo a conquistar. 

Mas todo o elenco juvenil é fantástico. Sadie Sink, a Max Mayfield, vai dar cartas no futuro. Millie Bobby Brown, a poderosa Eleven, já coleciona trabalhos fora da série. Certamente vamos também ouvir falar de Natalia Dyer (Nancy Wheeler), Caleb McLaughlin (Lucas Sinclair) ou Finn Wolfhard (Mike Wheeler). Joseph Quinn (Eddie Munson) mostrou também o que vale em apenas uma temporada. 

Quanto ao elenco mais “maduro”, não é preciso dizer muito… Winona Ryder (Joyce Byers) e David Harbour (Jim Hopper). Os nomes bastam. Conduzem todo o elenco de uma forma inacreditável. É o papel da vida de Harbour. 

Destaque também para Brett Gelman. A personagem Murray Bauman é para lá de hilariante… a cena do kung fu no avião (temporada 4) é inesquecível.

Todos estes atores brilham, e muito, ao mesmo tempo que fogem ao estereótipo de grande parte dos elencos das séries da Netflix. Não são modelos de passerelle, não são ‘influencers’ da moda, nem escravos da “ditadura do abdominal”. O talento é o que os une e isso parece chegar para serem acarinhados por milhões em todo o mundo. 

Mas para boas interpretações são precisos grandes textos. Irmãos Duffer. Autores e realizadores de Stranger Thins. As mentes por detrás do avassalador sucesso. Merecem todo o reconhecimento e mais algum. 

A forma como, na quarta temporada, conseguiram ter várias linhas de ação em simultâneo, em constante tensão e suspense, aliadas à dose certa de terror, a uma realização e edição envolventes (e de certa forma orginais e brincalhonas também) deu origem à melhor temporada da série da Netflix.

Dar também o destaque merecido ao vilão que conquistou tudo e todos. Vecna parece sofrer do mesmo “mal” que Voldemort… odiado no enredo, amado pelos fãs. 

Não consigo apontar grandes defeitos… a banda sonora é incrível (Kate Bush renasceu 40 anos depois), a fotografia só por si conta a história e o CGI (efeitos especiais) está bem aceitável. Sem esquecer o guarda-roupa e cenografia… no ponto! 

No fundo, a quarta temporada de Stranger Things atingiu um nível do qual, até agora, ainda não se tinha aproximado e não há como não ter medo do que pode vir a seguir. (O trauma com o final d’A Guerra dos Tronos ainda está muito presente)

Mas também já percebemos que os irmãos Duffer fazem Stranger Things com paixão, o que alimenta a esperança de uma quinta e última temporada memorável e à altura da montanha que a quarta escalou. É esperar (muito tempo…) para tirar a prova dos nove. Até lá alimentem-se as teorias nas redes sociais e, pelo sim pelo não, avisem-se os ente-queridos da música ideal para um salvamento das mãos do Vecna.

P.S.: não nos tirem a Max. Obrigado.

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