Vocalista dos Aerosmith acusado de abuso sexual por adolescente com quem teve relação nos anos 70

2 jan, 10:38
Steven Tyler (Associated Press)

Julia Holcomb Misley conheceu o cantor em 1973 depois de um concerto em Portland. Agora, revela que foi abusada e obrigada a abortar

Steven Tyler, vocalista dos Aerosmith, está a ser acusado por uma mulher com quem teve uma relação na década de 70 de agressão sexual, coerção de aborto e infâmia involuntária. Julia Holcomb Misley, que na altura da relação tinha apenas 16 anos (enquanto Tyler tinha 25), entrou com o processo na passada terça-feira no tribunal de Los Angeles, na Califórnia, sob a Lei de Vítimas Infantis, que permite que os sobreviventes de abuso sexual na infância abram processos civis. 

Em comunicado, citado pela CNN, Misley diz que a mudança na lei, que permite que as vítimas possam apresentar queixa até mais tarde, a encorajou a tomar medidas legais. 

"Porque sei que não sou a única a sofrer abusos na indústria musical, sinto que é altura de tomar esta posição", afirmou Misley, agora com 65 anos. "Quero que esta ação exponha uma indústria que protege criminosos famosos, para limpar e responsabilizar uma indústria que explorou e permitiu que eu fosse explorada por anos, junto com tantas outras crianças e adultos ingénuos e vulneráveis".

No processo, Misley nunca refere Steve Tyler pelo nome, mas sim por "Doe 1". No entanto, em comunicado sobre o caso, os seus advogados acabam por referir-se ao nome do cantor. 

Como tudo começou

Julia Misley conheceu Steven Tyler em 1973, depois de um concerto em Portland, Óregon, pouco depois de ter feito 16 anos. No processo, Misley conta ainda que o "reconhecido músico e estrela de rock" a levou para o hotel, disse-lhe a sua idade e contou-lhe os seus problemas com a família. Depois da conversa, Tyler, atualmente com 74 anos, "fez vários atos de conduta sexual criminosa” e depois mandou-a para casa de táxi.

No processo, é ainda dito que Tyler comprou um bilhete de avião a Misley para que ela viajasse para Seattle para um concerto dos Aerosmith e que, após esse espetáculo, a então jovem também foi abusada. Os dois manteriam uma relação em que, de acordo com o processo, Tyler continuaria a usar o seu poder e influência como estrela de rock para "cuidar, manipular, explorar e agredir sexualmente" a adolescente "durante três anos em numerosos estados de todo o país".

Depois do segundo ano do liceu, Tyler levou Misley para Boston, convencendo-a depois a não regressar a casa para estudar, mas a viajar com ele em digressão. O músico terá mesmo convencido a mãe de Julia a "passar a guardar da filha" para seu nome, para que pudesse viajar com ela "sem que fosse preso", prometendo-lhe que a iria matricular na escola, ajudar a sustentá-la e fornecer-lhe cuidados médicos melhores do que sua mãe poderia oferecer.

“O réu Doe 1 não cumpriu significativamente essas promessas e, em vez disso, continuou a viajar, agredir e fornecer álcool e drogas", alega o processo, que acrescenta que em 1975 Misley engravidou e Tyler coagiu-a a fazer um aborto, "ameaçando mandá-la de volta para sua família e deixar de apoiá-la e amá-la”.

O livro

Para além da "queixa preparada pela equipa jurídica que relata em termos legais" a trajetória da vida de Julia Misley, "desde as primeiras lutas até à exploração por Steven Tyler", a relação entre os dois foi ainda exposta pelo músico no livro de memórias "Does the Noise in My Head Bother You?" e ao longo dos anos da relação com várias entrevistas e fotografias dos dois. 

Misley chegou mesmo a ser entrevistada para o documentário "Look Away", de 2021, que expunha o abuso de jovens mulheres na indústria da música durante as décadas de 70 e 80, por causa da sua relação com o vocalista dos Aerosmith.

Mas, no livro de 2011, Steven Tyler escreve mesmo sobre a relação de três anos com a "groupie" adolescente, que nunca nomeia, mas que chega a comparar com a personagem de Kate Hudson em "Almost Famous", dizendo que "estava tão apaixonado que quase tive uma noiva adolescente".

"Com o meu mau eu a ter 26 anos e ela mal tinha idade suficiente para conduzir e sexy como o inferno, apaixonei-me loucamente por ela", escreveu Tyler. “Dormi na casa dos pais dela por algumas noites e os pais dela apaixonaram-se por mim, assinaram papéis para que eu tivesse a custódia, para que eu não fosse preso se a levasse para fora do Estado. Levei-a em digressão comigo”, escreveu ele, citado pelo The Guardian.

Misley diz que estas publicações a traumatizaram e à sua família pela "infâmia involuntária", uma vez que lhe causaram trauma adicional, sentimentos de vergonha, humilhação e medo.

O processo de Misley contra Tyler deu entrada no tribunal dias antes do final do prazo de três anos criado na lei da Califórnia para que as vítimas de abuso sexual na infância há vários abram processos civis. 

“Sou grata por esta nova oportunidade de agir e ser ouvida”, disse Misley em comunicado.

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