A Europa encontra-se num momento decisivo: ou acelera a inovação ou arrisca-se a perder terreno face aos EUA e à China. Apesar do talento técnico e da qualidade de vida que Portugal oferece, ainda falta transformar este potencial em mais unicórnios e scale-ups com impacto global. Enquanto as potências rivais criam condições para um crescimento acelerado, a Europa continua presa entre a ambição de liderar e as barreiras que impõe a si própria.
O problema da competitividade europeia não é recente. Durante décadas, o continente foi um motor de inovação tecnológica, com gigantes como a Nokia e a SAP a ditar tendências. Hoje, apenas cinco das 50 maiores tecnológicas do mundo são europeias. Apesar do investimento em investigação e desenvolvimento, os resultados práticos ficam aquém dos EUA e da China, que operam com maior velocidade e coordenação. A fragmentação legislativa dentro da União Europeia é um entrave, dificultando a escalabilidade de negócios que, nos EUA, encontram um mercado único mais ágil e recetivo ao risco.
Nos Estados Unidos, a cultura de falhar rápido e a aposta da China em deep tech e smart cities contrastam com a postura europeia, onde a aversão ao risco ainda pesa. O estigma do fracasso leva muitos empreendedores europeus a mudarem-se para os EUA quando alcançam certo nível de investimento. Há programas que tentam contrariar esta tendência, mas a burocracia e as limitações impostas a setores estratégicos, como a inteligência artificial e os semicondutores, acabam por travar o crescimento.
A ideia de Accelerationism.EU defende a redução de barreiras e a criação de fundos soberanos que possam competir com o investimento norte-americano e chinês. Sem medidas concretas, o Relatório Draghi (2023/24) e as previsões otimistas de crescimento não serão suficientes. É preciso passar das intenções à execução, garantindo um ambiente favorável para atrair e reter projetos inovadores em deep tech.
Alguns países europeus já começaram a dar passos nesse sentido. A França, por exemplo, criou o French Tech Souveraineté Fund, que investe diretamente em startups estratégicas para garantir a competitividade nacional em áreas como inteligência artificial e semicondutores. Este tipo de iniciativa demonstra que, com financiamento adequado, é possível reter e atrair inovação sem depender exclusivamente de investidores estrangeiros. Outro exemplo é a Estónia, que simplificou ao máximo a burocracia para startups através do programa e-Residency, permitindo que empreendedores internacionais estabeleçam empresas no país de forma rápida e eficiente. Esse modelo ajudou a Estónia a tornar-se um dos ecossistemas mais dinâmicos da Europa.
Portugal é ainda um reflexo desta realidade. Lisboa tem sido reconhecida como um ecossistema emergente, mas a insegurança regulatória continua a afastar startups e investidores. Ainda assim, colaborações entre a Galp, a E-Redes e startups confirmam que existe valor. Precisamos de estabilidade para que este hype não seja passageiro, mas sim uma realidade que atraia mais talentos e investimentos.
Sem startups, a inovação fica presa a grandes corporações, menos dispostas a arriscar. São as pequenas equipas que ligam a investigação ao mercado, dinamizando a economia e projetando Portugal no mundo. Precisamos de fomentar spin-offs e parcerias com universidades para trazer pesquisa para o terreno, num mercado global onde a velocidade conta muito.
No Startup World Stage by Galp, no Building the Future 2025, estas questões estiveram em cima da mesa. O debate sobre inovação e empreendedorismo é importante, mas sem ação, não basta. A Europa – e Portugal – não podem continuar a assistir à ascensão dos seus concorrentes diretos. Está na altura de simplificar processos, aceitar que o risco faz parte do jogo e criar condições reais para que as startups cresçam e permaneçam. Se o fizermos agora, podemos transformar potencial em impacto. Caso contrário, seremos apenas espectadores de um futuro que poderia ter sido nosso.
