Cientistas acreditam que estas células sintéticas podem abrir um novo ramo da química até hoje desconhecido. A partir destas SpudCells, como foram batizadas, poderão ser produzidos novos medicamentos, poder-se-á retirar dióxido carbono da atmosfera e até criar substâncias químicas tóxicas como combustível para foguetões
Desde o início que a Humanidade tem um sonho: dar vida a algo inerte. Esta é uma missão que tem sido abordada por vários cientistas que ambicionam transformar químicos em vida e, esta quarta-feira, uma equipa da Universidade do Minnesota anunciou que deu um passo relevante nessa direção.
Segundo o The New York Times, depois de juntarem dezenas de componentes, os investigadores foram capazes de sintetizar uma célula simples que consegue alimentar-se, crescer, reproduzir-se e competir por fontes de alimento. No entanto, os autores da investigação alertam que estas células não estão vivas, apesar de apresentarem a maioria das características de estar vivo.
Kate Adamala, bióloga sintética que liderou a investigação, recorda que “a vida não é binária”, e é por isso mesmo que a responsável “hesita em classificar isso como 'vida'”. “Não há uma linha divisória clara, por mais que desejássemos que houvesse”, acrescenta.
Sendo ou não vida, John Glass, biólogo sintético do Instituto J. Craig Venter em La Jolla, Califónia, - que não participou na investigação - enaltece o feito, porque nunca a comunidade científica havia conseguido dominar o processo de criação de uma célula capaz de desempenhar tantas funções. “É impressionante como conseguiram que a célula reunisse todas estas coisas”, aponta o especialista.
A investigação de Kate Adamala está a ser recebida, incluindo com elogios vindos da comunidade científica. "É uma célula que foi construída, que não nasceu. É construída, mas faz o que as células fazem", realça Drew Endy, também biólogo sintético, mas da Universidade de Stanford.
Adamala batizou a criação de SpudCell, derivada da sua aparência semelhante a uma batata. A cientista optou ainda por não patentear a célula e o processo através do qual foi concebida para que, juntamente com Drew Endy, possam criar uma comunidade de cientistas cujo foco será tornar as SpudCells ainda mais vivas, adaptando-as a novos tipos de experiências.
A comunidade acabou por fundar uma organização de pesquisa sem fins lucrativos que deverá investir centenas de milhões de dólares neste projeto ao longo da próxima década, segunda as estimativas de Drew Endy.
Roseanna Zia, bióloga computacional da Universidade de Missouri que não participou do projeto, - que também não participou na investigação - garante que o “mundo se vai lembrar deste momento”.
Kate Adamala e os colegas publicaram um relato de 190 páginas online sobre o trabalho realizado. Toda a pesquisa está, neste momento, em processo de revisão para publicação num científico.
E o que ganha o mundo com estas SpudCells?
A teoria é que estas células sintéticas possam dar um vislumbre sobre um novo ângulo da vida que as células conseguem oferecer, incluindo questões básicas como quantos genes são necessários para constituir uma mínima forma de vida.
Contudo, no futuro, as SpudCells também poderão ser um dia projetadas para fazer coisas para além das das capacidades das células naturais, como produzir novos tipos de medicamentos ou absorver grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera. Em teoria, esta inovação pode ainda ser adaptada para produzir uma vasta gama de proteínas que as células naturais são incapazes de criar ou, até mesmo, para produzir substâncias químicas tóxicas como combustível para foguetões.
De agora em diante, podemos começar “a pensar em fazer química que ainda mal compreendemos”, refere John Glass.
Investigadores da área da biologia já estão a planear o primeiro encontro da comunidade, em setembro, em Filadélfia. Entre as prioridades iniciais estará a formalização de planos para salvaguardar esta área de pesquisa.
Até ao momento, a célula sintética só consegue sobreviver por algumas gerações e com uma dieta especial, mas as versões suturas deverão tornar-se mais resistentes, o que aumenta a possibilidade de que algum dia alguém possa utilizar as SpudCells de forma antiética. Por exemplo, com o propósito de criar uma arma.
Drew Endy argumenta que a comunidade está preparada para evitar que ocorram tentativas de práticas antiéticas. Endy faz um paralelismo com os primórdios da aviação, as SpudCells são uma versão biológica do Wright Flyer, o avião rudimentar que os irmãos Wright usaram para realizar o primeiro voo controlado e sustentado em 1903, inaugurando a era dos aviões.
“O voo dos irmãos Wright por 12 segundos não garante um Boeing 737”, diz Endy. Mas, “isso foi apenas o começo.”
