Taça: Sporting-Torreense, 1-2, a.p. (crónica)
Tão longa se tornou a festa
O Sporting devia ter desconfiado. Uma cidade que gosta de brincar ao Carnaval. Um grupo de rapazes felizes, com ar de quem se diverte só de vir passear ao Jamor. E um domingo à tarde de muito calor, regado a cerveja e vinho branco.
Era preciso mais?
Os sinais eram claros, pelo menos. Só não via quem não queria: era uma festa e, quando se trata de festas, Torres Vedras não aceita um papel secundário.
O Torreense não estava ali, portanto, para fazer papel de coitadinho. Pelo contrário. Há qualquer de muito perigoso num adversário feliz: uma equipa com boas vibes sabe que está mais perto de alcançar o sucesso.
Tudo isso era muito claro para toda a gente, menos para o Sporting.
Afinal de contas, podem mudar muitas coisas em Alvalade, que naquela incapacidade crónica de sentir o cheiro de uma tragédia a chegar ninguém toca.
A final começou, por isso, com o Sporting a ser Sporting: um aristocrata com ares de quem está a fazer um favor ao Jamor. Trazia a lentidão e a formalidade de uma casa de chá. O pior é que não era só: a tudo isso ainda juntava a displicência de um lorde inglês.
A formação de Torres Vedras riu-se da sobranceria, agradeceu o distanciamento e aproveitou a primeira bola parada para marcar. Um canto, como tantos, tornou-se o início da ruína leonina: Morita e Quaresma ficaram presos ao chão, Zohi aproveitou o desvio ao primeiro poste e marcou.
Depois disso foi preciso esperar vinte minutos pela primeira oportunidade do Sporting: Pote atirou ao lado. O que diz muita coisa.
Até ao intervalo, aliás, a equipa leonina só criou mais duas ocasiões de golo. Havia sempre qualquer coisa que corria mal: o domínio, o passe, o último toque. Impressionante.
Aquela equipa, que já dobrou alguns dos maiores clubes europeus, não tinha vindo preparada para jogar futebol. Provavelmente desconhecia a fibra das gentes do Oeste.
Ora por falar em gentes do Oeste, interessa dizer que o Torreense, abençoado seja, foi heróico. Entrou no jogo a correr atrás da bola, a correr atrás dos adversários, a correr atrás da glória. E nunca mais parou.
Trabalhou, trabalhou, trabalhou. Sem complexos, nem vergonhas. Quando foi preciso fazer uma linha de seis na defesa, fê-la. Nunca deixou de procurar as saídas para o contra-ataque e isso enervava o Sporting, ao mesmo tempo que o tornava a ele - ao Torreense - mais confortável na sua pele.
Claro que o Sporting teve mais bola, teve mais ataques, teve mais oportunidades. Muito, muito mais. Incrivelmente mais. Mas isso não mudou o essencial: o Torreense agarrou-se à vida e defendeu com a alegria de quem está a segurar o bilhete premiado da lotaria.
Por isso, quando já no prolongamento, depois de Luis Suárez empatar o jogo, Maxi Araújo agarrou Ismail Seydi dentro da área e levou Stopira para a marca de onze metros, toda a força da zona do Oeste, toda a têmpera, toda a rijeza se uniu no pé esquerdo de Stopira.
Era o penálti mais importante da vida do Torreense e a marcado foi assumida pelo mais experiente do plantel. Lançou uma bomba indefensável e detonou a festa, de Lisboa a Torres Vedras.
O Torreense venceu a Taça e apurou-se para a Liga Europa. Ao fim de 109 anos de vida.
Tão longa se tornou a festa.
