Pedro Gonçalves abriu o coração para recordar o crescimento a pulso, da infância humilde aos desafios da adolescência em Braga. Não jogou em Valência e reencontrou-se em Famalicão, para brilhar pelo Sporting
Pedro Gonçalves abriu o coração, recordou o crescimento a pulso entre Vidago (Chaves) e Braga, os desafios por Valência, até à afirmação entre Famalicão e Sporting. Na tarde deste sábado, o avançado português, de 27 anos, foi protagonista do programa “Alta Definição”.
«Cheguei a jogar andebol e a praticar atletismo, além do futebol. A minha mãe trabalhava no Vidago, morávamos com o meu padrasto no estádio, na casa dos roupeiros. Esperava que os jogadores chegassem e ajudava nos treinos, batendo bolas para os guarda-redes. Diziam-me que era atrevido, mas era genuíno. Por vezes, os jogadores terminavam o treino e eu ficava a jogar até o presidente ligar para a minha mãe desligar as luzes.»
«O meu irmão acompanhava-me, ia para a baliza, fui eu que o ensinei a ser guarda-redes. Foi uma fase muito boa, porque era só diversão», começou por relatar.
No entanto, a infância de Pote foi marcada por momentos delicados, como a morte do pai.
«Por vezes sou uma pessoa fria, que não dá um abraço. Mas sei que vem da infância, houve fases em que chorei sozinho. O meu pai faleceu no hospital, com uma infeção. Nunca perguntei mais. Sempre quis viver o dia a dia, para não pensar nas razões pelas quais o meu pai não me pôde ver crescer. Faz parte da vida. Não o conheci e fico triste. Sei que teve uma vida como bombeiro e que foi incrível. Muitos dizem que a minha personalidade é semelhante à dele. Falo muitas vezes com o meu pai, mas tive um padrasto que deu tudo por mim.»
- PEDRO GONÇALVES: o filho da Maria roupeira que fez sete golos ao irmão
«A minha mãe passou por uma depressão e procurei estar sempre presente. Tornou-me mais forte. Tenho muito orgulho nela. Espero que, agora, possa ter descanso e desfrute da vida. Nunca me faltou nada», prosseguiu.
Em 2010, Pedro Gonçalves rumou à formação do Sp. Braga, depois de ver a mãe rejeitar a possibilidade de jogar pelo FC Porto, um ano antes. Por isso, o avançado vive desde os 12 anos longe de casa.
«Sempre me mentalizei de que teria de sofrer para alcançar os objetivos. E sempre tive as pessoas certas do meu lado. Atualmente, o Sp. Braga tem condições incríveis, mas entre 2010 e 2015 passei muitas dificuldades. Andava sempre a pé, sozinho. Até por bairros complicados.»
«Certo dia, depois da escola, estava a colar os meus cromos na caderneta e vieram dois miúdos, que me queriam levar o cromo do Iniesta, ou o telemóvel. Só tive tempo de guardar o Iniesta e correr», recordou, entre risos.
Seguiram-se épocas vinculado ao Valência, entre 2015 e 2017. Todavia, Pedro Gonçalves não pôde ser inscrito na equipa principal, uma vez que era menor de idade. Como tal, nunca jogou.
O regresso a Portugal aconteceu em 2019, pela porta do Famalicão, depois do ciclo de dois anos em Inglaterra, pelo Wolverhampton. Em 2019/20, o avançado conseguiu sete golos e sete assistências em 40 partidas, o que valeu uma oportunidade no Sporting de Ruben Amorim – a troco de 13,5 milhões de euros.
Desde então, Pote regista 89 golos e 51 assistências em 198 jogos pelos leões. Além disso, foi convocado para o Euro 2020 e conquistou a Liga das Nações.
«Continuo a ser aquele miúdo resmungão, que gosta de mandar piadas, não gosto de pensar que já tenho autoridade no balneário. Não me sinto assim tão importante, mas fico feliz por olharem para mim como alguém que não nasceu líder, mas que se está a tornar nisso. Gosto que as pessoas me digam que estou errado, de como devo melhorar. Eu dizia ao mister Ruben Amorim para me ajudar, caso me perdesse com “bate bocas”, por exemplo», afirmou.
«Com o Ruben tinha umas brincadeiras, por isso é que nos damos tão bem. Somos muito parecidos. Adoro-o como pessoa. Guardo um conselho que me deu desde início: não deixar o tempo passar. Aproveitar os momentos», disse, ainda.
«Este grupo é muito forte, é uma família. No Sporting é preciso jogar para ganhar títulos. Orgulho-me de conseguir ultrapassar muitos maus momentos, sem desistir.»
Questionado sobre Rui Borges, Pote apontou ao futuro. «A ligação surgiu de forma natural. Mas, foram apenas seis meses. Ainda não estou completamente à vontade. Vamos fortalecer essa amizade», disse.
Por fim, o avançado revelou alguns rituais pré-jogo: «Temos uma Nossa Senhora em casa e em Alvalade, gosto de orar, peço para não me lesionar. Entro em campo com três saltinhos, rezo um Avé Maria e um Pai Nosso», terminou.
Pedro Gonçalves completa 27 anos neste sábado.